Aprendendo a amar: os 3 tipos de amor. 

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Buscando evoluir como seres humanos, encontramos no Amor o grande objetivo. No entanto, como tudo na vida, fica difícil entendermos como tê-lo ou compartilhá-lo, sem antes compreender o que é esse Amor.

Hoje quero compartilhar com vocês, uma síntese sobre os 3 tipos de amor: Eros (desejo), Philia (amizade) e Agapé (empatia, caridade, amor divino), com base no livro de André Comté. Uma evolução não necessariamente linear ou fácil. Mas certamente bela de se conhecer e de se aprofundar.

 

Eros

O primeiro tipo de amor que vamos ver é Eros (Deus Grego do Amor), também conhecido como o amor erótico.

Sabe aquele amor romântico idealizado, onde duas metades se encontram e se fundem, formando algo completo e abolindo para sempre a solidão? Então, o amor Erótico é exatamente o oposto. Só pode existir e se perpetuar na carência, no desejo por algo que não temos. Assim, o amor erótico não é completude, mas incompletude. Um amor que é desejo, um desejo que é falta. Só se há desejo se a falta é percebida como tal, vivida como tal. Afinal, não se deseja o que se ignora que falta.

Não que todo desejo seja amor, mas ao menos no amor de Eros, todo amor é desejo. Nunca saciado.

Se pensarmos, uma falta, ao ser satisfeita, desaparece enquanto falta. O desejo se abole em sua satisfação: portanto ele tem que estar insatisfeito ou morto, estar em falta ou faltando. O que é o amor de Eros? É carecer do que se ama e querer possuí-lo sempre. É a paixão, um amor egoísta, mesmo que projetado fora de si mesmo. A busca do êxtase em si no outro. Um egoísmo descentrado. Estar apaixonado é amar o outro para seu próprio bem.

Por ser falta, a paixão não poderia sobreviver por muito tempo à felicidade, nem a felicidade, sem dúvida, à paixão. Daí o grande sofrimento do amor enquanto a falta o domina. E a grande tristeza dos casais, quando não domina mais.

Assim, o amor erótico tem uma forte relação com a morte. Como nos grandes contos de amor, como em Romeu e Julieta, contos de amor e morte. Pois, se só podemos amar o que não temos e só podemos ter o que não nos falta, não poderíamos continuar a amar o que temos.

Sem saber e independentemente de sua vontade, os amantes eróticos nunca desejaram outra coisa que não a morte. Eles amam o amor mais que a vida. A falta mais que a presença. A paixão mais que a felicidade ou o prazer.

Se o amor é falta, como saciá-lo sem o abolir, como satisfazê-lo sem o suprimir, como fazê-lo sem o desgastar ou sem o desfazer? Seria esse o único tipo de amor que somos capazes? Só sabemos sentir falta? Como evoluir dessa paixão avassaladora para o segundo momento do amor?

Philia

Para nossa esperança, nem todo amor é falta. Podemos também amar aquilo que temos.

Há alegria toda vez que desejamos o que fazemos, o que temos, o que somos ou o que existe, em suma, cada vez que desejamos aquilo que não nos falta. É uma tensão alegre, afirmativa, vital, que nada tem a ver com a frustração: é antes uma experiência da potência e da plenitude. Há o amor que sofremos, é paixão; há o amor que fazemos ou damos, é ação.

É a capacidade de evoluir do imaginário ao real. Toda paixão ama aquilo que sonhamos, uma ilusão do outro e de nós mesmos. Amar ao outro pelo que ele é e não apenas pelo que desejamos que ele fosse. Nesse passo, o amor começa a evoluir da paixão (Eros) à amizade (Philia).

Amar é a virtude dos amigos. Afinal o que seria de nós sem nossos amigos? A amizade é o refúgio contra a infelicidade. É ao menos tempo útil, agradável e boa. É desejável por ela mesma. Não amamos nossos amigos pela sua falta, mas ao contrário, queremos eles perto, queremos tê-los junto.

“Há uma felicidade em mim, e a causa da minha felicidade é a ideia de que você existe…”   Spinoza.

É celebrar um presença, uma existência! Que leveza, para você e para o outro! Que liberdade! Que felicidade! Não é pedir, é agradecer. Não é possuir, é gozar e se regozijar. Não é falta, é gratidão.

É o amor-alegria, na medida em que é recíproco, é a vida partilhada, a escolha assumida, o prazer e a confiança recíprocos, em suma, o amor-ação. Que amantes, se são felizes juntos, não se tornam amigos? É mais potência que falta, mais prazer que paixão. Souberam transformar em alegria, em felicidade, em doçura, em gratidão, em lucidez, em confiança, em suma em philia, a grande loucura amorosa do começo.

Passaram do amor louco ao amor sensato, se quisermos, e bem louco seria quem visse nisso uma perda, uma diminuição, uma banalidade, quando é ao contrário um aprofundamento, mais amor, mais verdade, e a verdadeira exceção da vida afetiva. O que há de mais fácil de amar do que seu sonho? O que há de mais difícil de amar do que a realidade? O que há de mais fácil do que querer possuir? O que há de mais difícil do que saber aceitar? O que há de mais fácil do que a paixão? O que há de mais difícil do que o casal? Apaixonar-se está ao alcance de qualquer um. Amar, apenas aos que se permitem.

A paixão não dura, não pode durar: é preciso que o amor morra ou mude. Estar apaixonado é um estado; amar um ato. Um ato depende de nós, pelo menos em parte, podemos querê-lo, empenhar-nos nele, prolongá-lo, mantê-lo, assumi-lo.

Eros é primeiro e segue-se a philia. Muitas vezes andam juntos, reinventando-se, renascendo. Simplesmente Eros se desgasta, à medida que é satisfeito. Ao passo que philia não cessa de se fortalecer, de se aprofundar, de se expandir. Primeiro lançamo-nos ao outro, com fome, desejo, cobiça e egoísmo. Depois, aprendemos (na família, no casal) a amar o outro por ele mesmo também: alegria, amizade, benevolência.

Agapé

Passamos do amor erótico à amizade. Passamos do egoísmo, morte e frustração, ao compartilhamento, vida e alegria. Mas e nossos inimigos? Seríamos capazes de amar até mesmo nossos inimigos? Ou mesmo amar aqueles que nos são indiferentes? Quantos seres vivos são para nós causa de alegria, e capazes de nos deslocarem, mesmo que por um momento, de nós mesmos e de nosso egoísmo?

“Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.”

A mensagem do evangelho, assim como chegou a nós, excede em muito ao amor de Eros e Philia. Amar o que nos falta está ao alcance de qualquer um. Amar nossos amigos também nos parece possível. Mas e amar os inimigos, quem nos entristece ou faz mal? E amar os indiferentes? Seria isso possível?

Agapé é o amor divino. Sendo Deus absoluto. Sendo Deus o todo. Deus é o máximo de ser e de valor possível. Portanto, não lhe poderia faltar o que quer que fosse. Deus já é completo e se basta a si mesmo, não precisando de uma criação ou de um amor para alegrar-se. Segundo explica Spinoza, Deus não sente nenhuma afeição de alegria ou de tristeza, consequentemente não sente alegria ou ódio por ninguém. Não por falta de potência, claro, mas, ao contrário, porque sua potência, sendo absolutamente infinita, é constante: portanto ela não poderia ser aumentada (alegria, amor) nem diminuída (tristeza, ódio) pelo que quer que fosse.

Segundo Simone Weil, Deus só pôde criar o mundo retirando-se dele, senão, só haveria Deus. A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Já não é a paixão dos amantes, mas a paixão de Cristo e dos mártires. Este amor é o contrário da violência, da força que quer dominar e governar. Mas sim, busca retirar-se, recuar para não ocupar todo o espaço disponível, justamente, não exercer todo o poder que dispõe. Como os pais aos seus filhos, tanto mais quanto mais fracos, quanto mais desprovidos, quanto mais frágeis, para não os impedir de existir, para não os esmagar com sua presença, sua potência, seu amor.

Quem não tem cuidado com um recém-nascido? Quem não restringe, diante dele, sua própria força? Quem não limita seu poder? A fraqueza comanda, e é isso que significa caridade.

“Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força”. Esta é a magnífica fórmula de Parese.

Assim, a caridade, seria como que uma renúncia à plenitude do ego, à potência, ao poder. O amor consente tudo e só comanda os que consentem ser comandados. O amor é abdicação. Deus é abdicação. O amor é fraco. Deus é fraco, embora onipotente, pois é amor.

O amor divino é absolutamente espontâneo. Ele não procura no homem um motivo. Dizer que Deus ama o homem não é enunciar um julgamento sobre o homem, mas sobre Deus. Não é o homem que é amável; é Deus que é amor. Esse amor é absolutamente primeiro, absolutamente ativo (não reativo), absolutamente livre: não é determinado pelo valor do que ele ama, que lhe faltaria ou alegraria, mas, ao contrário, ele determina esse valor amando. É independente do valor de seu objeto, pois Ele cria o valor. O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. Ele ama e, com isso, confere valor.

É um amor desinteressado, perfeitamente livre e gratuito. Sem outra razão a não ser um amor sem razão, sem outra razão a não ser o amor, sem outra razão a não ser ele mesmo renunciando a ser tudo.

Assim a caridade (Agapé) seria uma ampla amizade, enfraquecida em sua intensidade, mas aumentada em seu alcance. Uma fraternidade universal. Amor, na medida em que não está submetido ao valor do que ama, já que o gera, já que é a sua fonte. Amor espontâneo, amor sem motivo, amor criador. Não espera ser merecido, mas ama antes de tudo.

Como poderíamos desejar (Eros) nossos inimigos? Como poderíamos tê-los como amigos (Philia)? Portanto temos que amá-los de outro modo. E assim chegamos a Agapé, a empatia e caridade.

É a transfiguração do eu como fonte de toda a energia positiva, para transformá-lo numa ponte para algo maior. Uma ponte que une o amor divino à fraternidade universal. A abdicação de nosso poder, para dar espaço ao outro, a algo maior. Esvaziar-se para poder ser preenchido. Teoricamente simples, mas muito difícil na prática, pois para chegar a esta elevação precisamos negar a nós mesmos, do mesmo modo que Deus negou ser Tudo para que existíssemos.

Este texto foi criado a partir de recortes do livro “Pequeno tratado das grandes virtudes” de André Comté. Um livro magnificamente escrito e que vale a leitura completa.

 

 

 

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