Por que sofremos?

Cada um de nós, em algum grau, lida com sua dor.

O grande ensinamento de Buda foi que todos nós sofremos. Todos. Não só os doentes, velhos, pobres ou moribundos, mas todos.

Mas por que sofremos?

Ainda segundo Buda, toda dor vem da ignorância. O não saber porque existe a dor nos faz dar-lhe toda a importância que tem.

Da ignorância? Como assim?

A dor é um aviso, um alerta que algo está acontecendo, algo vai mal, e devemos tratar de curá-lo.

Quando pensamos na dor física, isso fica muito claro, afinal, se alguém pisa no seu pé, você rapidamente vai tirar o seu de baixo. A dor avisa a sua consciência que algo está machucando seu pé, e para não machucá-lo mais, você deve resolver esse problema. Se ignorássemos essa dor, algo muito pior poderá acontecer, como por exemplo, perdermos o pé.

No entanto, além da dor física, temos outros níveis mais sutis de existência, que são mais facilmente ignorados, e por isso, que precisam de mais atenção. São estes: o energético, o emocional, o mental e o espiritual.

Vamos refletir como a dor pode se manifestar em cada um desses níveis:

Fisicamente – toda dor e sofrimento que aflige nosso corpo físico: dor, doença, sede, fome, velhice, degeneração, deformação, miséria…

Energeticamente – quando nos sentimos energeticamente sem forças, sentimos uma dor energética: cansaço, falta de energia, debilidade, estagnação, negatividade…

Emocionalmente – pela nossa falta de controle emocional, este parece ser o nível que mais intensamente sofremos. E, quando a ignoramos, essa acaba se manifestando nos outros níveis da personalidade, drenando assim nossas energias, ou mesmo se somatizando em doenças no nosso corpo físico. Somente conduzindo nossa consciência para um nível mais elevado, o mental, e racionalizando o porquê desse sofrimento, que poderemos mais facilmente lidar com este. São exemplos de dores emocionais: ansiedade, carência, tristeza, solidão, abandono, exclusão, desrespeito, ingratidão, crueldade, inquietude, desejo, apego, falta de autoestima (se sentir menos, menor, inferior), mau educação, instabilidade, impermanência, perdas, mudanças, rudeza, grosseria…

Mental: Medo, incompreensão, não entender algo, não ser entendido, ganância, desejo, injustiça, incapacidade de comunicação, frustração, vaidade… quanto mais sutil o nível existencial, mais difícil de perceber sua dor.

Espiritual: Não saber de onde viemos, quem somos ou para onde vamos. Nossa necessidade de nos relacionarmos com ideias, ideais, arquétipos, virtudes, com os mistérios da vida e de Deus… e nossa incapacidade de compreendê-los, de percebê-los, de vivenciá-los.

Assim, a dor é um veículo de consciência que nos traz para o presente (estou aqui), nos sinalizando o que nos machuca, quais aspectos de nossa vida e de nossa personalidade devemos trabalhar, quais são nossos limites e até onde podemos ir.

Resumidamente: Se eu não sentisse a dor, como saberia que algo está me causando dano? Se não posso identificá-lo como posso curá-lo? Se não posso identificá-lo isto poderá acabar me destruindo!

Ignoramos as dores sutis, supondo que deixarão de existir por não lhes darmos atenção, ou mesmo, por sermos capazes de escondê-las dos outros.

Através da dor e do sofrimento a natureza nos avisa que estamos no caminho errado, agindo equivocadamente ou mesmo pensando equivocadamente.

Se sofremos por não saber o propósito ou sentido da vida, é a própria realidade nos chamando, nos ensinando de alguma maneira que existe algo além das aparências. Que temos que nos conectar com um propósito maior para realmente sermos felizes. Que apenas a aparência, o passar do tempo, os projetos e paixões passageiras, não são capazes de nos encher de eternidade, de vida, de totalidade, de liberdade e de unidade. Esse sofrimento espiritual é nossa necessidade de conexão com algo maior, com Deus. Nos sentir parte real do universo, da natureza, e não um ser fora dela.

Toda vez que agimos contra as leis do universo, o Karma nos avisa, através da dor, para voltarmos ao nosso caminho de evolução.

Assim, ao invés de temê-la ou de ignorá-la, temos que buscar entender o que esta dor nos ensina, da onde vem realmente, trazê-la à nossa consciência para podermos superar as circunstâncias que a estão causando e para podermos nos libertarmos destas.

Aquilo que parece nos frear, na verdade, é o que nos impulsiona a mudar, nos mostra o caminho. Normalmente, cada dor nos sinaliza uma virtude que nos falta, um ensinamento que precisamos aprender nesta vida, para sairmos um pouco melhor de quando entramos.

Não é simples, mas juntos conseguiremos!

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Bibliografia/ fragmentos dos livros:
– O universo como resposta – Jorge Angel Livraga
– Pequeno tratado das grandes virtudes – André Comte
– Dhammapada

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