Viciados em sofrimento

 

Hoje comecei a perceber que, quando temos planos e tudo vai bem, quando dominamos nossos desafios e não temos grandes problemas a nos preocupar, quando tudo parece perfeito… entramos numa grande crise existencial. Hoje entendi melhor o vício no sofrimento. Em algum modo, não sei se existencialmente, por nossa presença neste mundo, ou simplesmente por influência da sociedade, se não estivermos sofrendo de algum modo, parece ser difícil suportar o vazio de existir. Como se o sofrimento fosse nossa droga. Aquilo que nos mostra que estamos vivos, que temos um corpo, que existimos.

Mas por que somos viciados em sofrimento?

Sem querer ser pessimista, mas apenas expondo os fatos, nesta existência, tudo é cercado por dor e sofrimento. Sofremos ao nascer, sofremos pela insatisfação de crescer, mudar e aprender, sofremos pela transitoriedade de envelhecer, degradar e adoecer, sofremos pela impermanência de morrer.

Trazendo para nossa vida cotidiana, sempre que superamos algum desafio, queremos algo maior, melhor, algo que nos traga inquietação, ansiedade, preocupação, medo, desconforto, insegurança, incerteza, frustração… algo que nos tire de nossa zona de conforto, que nos dê frio na barriga. Nunca estamos satisfeitos, somos sempre movidos pelo desejo de querer mais. É algo paradoxal, pois, ao mesmo tempo que queremos extinguir a dor, só conseguimos encontrar prazer através do sofrimento.

Mas qual a maior causa do sofrimento?

Segundo os ensinamentos orientais é a ânsia, o desejo e o apego. Ânsia de viver mais experiências, desejo de querer mais e apego por tudo que achamos que temos ou somos.

O apego gera vários tipos de sofrimento: sofremos por não ter algo, sofremos por achar que não merecemos ter algo, sofremos por medo de perder algo que temos, sofremos por ter perdido.

Quando pensamos em apego, inicialmente pensamos no nosso apego as nossas coisas e objetos: nosso celular, carro, casa… como poderíamos viver sem eles? Mas acima das coisas temos pessoas: nossos pais, irmãos, filhos, amigos… parece impossível conceber a vida sem eles. Acima dos outros existe nós mesmos: nosso estilo de vida e por fim nossa personalidade. Que papel escolhemos representar neste mundo? Que tipo de escolhas temos feito para manter este personagem e o estilo de vida que este requer? Quanto sofrimento e que tipo de sofrimento precisamos suportar para viver deste modo?

Se escolhermos ser um soldado, vamos ter que lidar com a culpa de matar pessoas, se somos um grande executivo temos que lidar com a ansiedade de tomar decisões difíceis todos os dias e nos responsabilizar pela vida de muitos, se somos um empregado temos que suportar a frustração de querer ganhar mais dinheiro ou o tédio de fazer um trabalho que não nos satisfaz… Existem vários níveis de sofrimento, alguns físicos, outros mentais.

A culpa é um dos nossos sofrimentos favoritos, porque qualquer coisa pode gerar culpa. É nossa dose homeopática de sofrimento. Comi uma torta de chocolate: culpa = sofrimento. Acordei tarde: culpa = sofrimento. Deixei de lavar a louça: culpa = sofrimento. Eu estou feliz enquanto tantas pessoas estão sofrendo no mundo: culpa = sofrimento. Como disse, qualquer coisa, em qualquer nível, pode gerar culpa, basta escolher os motivos ou ponto de vista e se sentir mal.

É possível superar o sofrimento?

Buda, disse que sim. Que o mais certo é seguir o caminho do meio, sem infantilmente perdoarmos tudo que fazemos, mas também, sem nos martirizarmos por cada erro. Segundo ele pra começar não precisa muito: é buscar agir de forma correta, sem mentir, sem pegar o que não é seu por direito, sem dissipar a sexualidade e não se drogar. Como disse Jesus, tratar o outro como gostaria de ser tratado.

Quando começamos a superar nossos desafios existenciais mais básicos, começamos a perceber que a vida é uma sucessão de problemas a serem resolvidos cotidianamente. Alguns maiores, alguns menores. Quanto mais complexa vamos deixando nossa realidade, quanto mais responsabilidades vamos assumindo, criando camadas e mais camadas decisórias: cônjuge, família, funcionários, dependentes, doenças, sociedade, política, imagem, autoconhecimento… mais decisões difíceis teremos que tomar a cada dia. Quando deixamos de sofrer com isto, e apenas as resolvemos, fazendo o que tem que ser feito, rápido mas sem pressa, sem ficar excessivamente eufórico com os bons resultados ou depressivo com os ruins, aos poucos vamos aprendendo a lidar com as mudanças e a existência do sofrimento.

Talvez, para eliminá-lo completamente, só mesmo se elevando acima das dualidades de nossa percepção e transcendendo o ciclo de reencarnações que nos aprisiona nesta existência material… mas isto ainda são meras suposições para nós seres humanos comuns. Por hoje, já me bastou perceber a existência deste vício e tentar amenizar sua intensidade aos poucos.

 

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