Um mundo de ideias.

Esta noite, enquanto mastigava meu delicioso omelete feito com 5 ovos, preparado rapidamente de acordo com uma das receitas mais práticas que conheço, sentado à mesa em uma cadeira de madeira forrada com uma confortável espuma, vestindo pijamas e meias de algodão, coloquei-me a observar a parede de alvenaria logo a minha frente, onde uma magnífica máscara veneziana pintada à mão estava pendurada por seu fio de nylon. Com seus relevos, formas, cores, texturas e materiais, cada um de seus detalhes tinha sido finamente projetado, formando uma composição única, que, há cerca de 10 anos eu encontrei em uma loja peculiar, igual a nenhuma outra, pois nesta, todas as máscaras eram feitas à mão pela artesã que administrava o estabelecimento.

Fui excepcionalmente descritivo para tentar retratar tudo que se passou em minha mente enquanto refletia sobre o longo processo de criação de todas essas coisas que me circundavam. Imaginar que antes de existirem, foram pensadas por alguém, ou melhor, ideadas por infinitas pessoas, talvez toda a humanidade, para que cada um daqueles elementos estivessem disponíveis àquela artesã, naquele momento, para que assim, ela pudesse materializar a sua própria ideia de máscara. Foram milênios desenvolvendo cores, tintas, pincéis, materiais, música, arte, história, teatro, para que aquela máscara em particular pudesse ser concebida em pensamento por esta distinta artesã, e que, através dos recursos disponíveis no mundo que lhe cercava, ela pudesse materializá-la. Só então surge eu, naquela loja, que apreciando o seu trabalho, o desejo pra mim, em modo a poder coexistir, talvez por toda a minha vida, com a ideia de beleza expressada por aquela artesã.

Comecei a perceber que cada uma dessas coisas, desde o garfo com o qual eu jantava, a cadeira na qual eu sentava, a mesa que me apoiava, os pratos, roupas, óculos, a própria receita da comida que eu comia, tudo tinha sido concebido através dos tempos, desenvolvido, aperfeiçoado, esquecido e reinventado, no decorrer de toda a história do pensamento humano, para que pudessem florescer por meio dos elementos que nos cercam e coexistir conosco neste mundo. Até essas próprias palavras, esse alfabeto, e por fim este computador, tudo isto foi pensado por alguém, em algum momento, para que, neste momento, nós nos sintamos conectados. Quando trazemos à consciência que coexistimos com todas essas ideia solidificadas, percebemos que tudo que achávamos ser sólido o é apenas porque antes que viesse a existir alguém o pensou. Como já dizia João, “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Antes que criássemos as coisas, a matéria teve que ser criada. Antes que qualquer coisa viesse a existir, existiu primeiro a ideia de criá-la. Como ensinou Buda “Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã; nossa vida é criação da nossa mente.”

Tanto internamente em nosso mundo psíquico como externamente no nosso mundo sensível, tudo é ideia materializada. Do mesmo modo que um iceberg é feito de água sólida e flutua sobre um oceano de água líquida, diferenciando-se, mesmo sendo a mesma coisa. Assim, também materializamos as ideias em objetos, palavras, pensamentos, formas, conceitos, conhecimento, mas todos, mesmo materializados, não deixam de ser filhos e resultado da ideação em si. Antes que qualquer coisa exista, existiu o verbo, ou seja, a ideia que a concebeu.

Assim, sem que percebamos, somos cercados cotidianamente por uma sequência histórica de ideias, que hoje, formam a realidade na qual vivemos. Somos fruto da civilização que nos precede e podemos ser artífices das civilizações que nos sucederão. Basta que, queiramos religar a humanidade com ideias que realmente valham a pena serem lembradas, ideias que sobreviverão ao tempo, ideias que sobreviverão à matéria, ideias que aquecerão os corações, que trarão sentido à vida, que explicarão os mistérios da existência, ideias que nos reconectarão com o propósito de ser.

 

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