O personagem Eu

mascaras

Estava lendo o livro do Monge Genshô, “O pico da montanha é onde estão os seus pés”, um livro introdutório muito esclarecedor sobre o budismo e me deparo com esse parágrafo:

“Isso que você julga ser você é um engano. Isso é só uma atividade mental gerando a ilusão de uma identidade pessoal. Você é muito mais do que isso. Se você descobrir sua verdadeira natureza, então se libertará desta ilusão, e todos os seus enganos desabarão juntos. Isto é a libertação, a iluminação”.

Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre o personagem Eu. Sobre o fato de termos criado um personagem, uma personalidade, baseada em nossas escolhas, ações, estilo de vida, e principalmente, nos objetivos que escolhemos para nossa vida.

Traçamos algumas metas existenciais baseadas no que queremos e achamos que merecemos. E construímos um personagem para nos adequarmos a essas metas. Copiamos e refletimos aqueles e aquilo que parecem ser os ideais e modelos para o nosso personagem. No entanto, do mesmo modo como somos jovens quando escolhermos o que prestar no vestibular, também somos jovens para entender e escolher este papel fundamental.

Completamente inocentes e iludidos pelo mundo e a televisão, muitas vezes não temos bases ou guias que nos ajudem nessa formação. Acabamos seguindo nossos pais ou ídolos, mas sem compartilharmos verdadeiramente do modo como veem o mundo.

Para complicar ainda mais, existem as expectativas. Ou seja, além daquilo que nós queremos nos tornar, vamos adequando nosso personagem de acordo com aquilo que as pessoas que nos circundam esperam que sejamos. E acabamos viramos personagens plurais. Uma personalidade pra cada ambiente e grupo que frequentamos.

No entanto, de tempos em tempos, nos deparamos com um novo modo de ver e entender o mundo e acabamos mudando completamente o modo como percebemos as coisas. Nestes momentos muitos dos personagens desaparecem, dando vida a novos facetas de nós mesmos. Muitos grupos se extinguem e novos se formam.

Voltando ao texto, o monge Genshô nos lembra desta percepção do personagem que criamos. Que o Eu não se limita a estes personagens, mas que está além deles.

Como exercício de ano novo podemos pensar em quais são os objetivos deste personagem que criamos? Com o que, quem e de que modo ele quer interagir com a existência? Quais são os objetivos que determinam sua existência e seus modos? Porque escolhemos as pessoas que nos circundam para compartilhar o mundo? O que temos em comum? O que buscamos em comum?

Buscamos a independência ou a interdependência? Buscamos o isolamento ou o conjunto? Transcendendo o personagem, o que realmente desejamos ter?

Feliz ano novo!
🙂

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