Aprendendo a amar o outro.

Aprendendo a amar o outro

Outro dia me perguntei se existia algum limite além da consciência e me deparei com o pensamento. Parecia que a consciência era feita de pensamentos, e estes eram organizados pela linguagem, que lhes dava forma e conteúdo. Me perguntava se existiria consciência sem a linguagem? Existiria alguma coisa que transcendesse o limite da linguagem, que existisse no puro vazio da significação?

Não me parecia possível e fiquei com esta dúvida até a noite passada.

Tenho observado muito o papel do Dentro e do Fora na materialização do momento presente e na formação do Eu. Hoje descobrimos que para completar esta dicotomia do Eu, existe também uma membrana. Que delimita e determina o que é o Dentro e o que é o Fora. Uma membrana real e imaginária, que envolve o eu interno, diferenciando-o do outro.

Inconscientemente parece que o mundo todo existe dentro de nós mesmos. Tudo que interagimos ou percebemos passa pelo filtro de nossos sentidos e pelo julgamento e análise do Eu. Tudo é medido, avaliado e catalogado. Tudo parece ser apenas reflexos quebrados do Eu interno. Parece que percebemos apenas aquilo que vemos de nós mesmos nos outros. Deste modo, tudo que é externo parece desaparecer, e toda a existência parece conter-se dentro da projeção externa do Eu interno. Ou seja, o outro parece não existir, sendo apenas projeções de nossas qualidades ou defeitos. Engolidos pelo enorme Eu.

A princípio, pode parecer simples e óbvio que existe o outro. Mas pare um segundo e pense realmente: EXISTE O OUTRO. Alguém completamente independente do Eu, que escolheu estar, ou não, ao seu lado. Compartilhar o tempo de sua vida com você. Todas estas entidades que se encontram fora da membrana do Eu, são enigmas inacessíveis por natureza. Não podemos saber o que pensam e sentem, a menos que compartilhemos, que nos comuniquemos. Você nunca pode saber o que uma pessoa pensa, ou o significado de determinadas intenções ou ações. Por isso, sempre pergunte. Do mesmo modo, o outro também não tem acesso ao seu Eu interno, a menos que você se expresse de modo assertivo, comunicando de maneira adequada e precisa todas as suas intenções, para não gerar ambiguidade, dúvida ou falsas interpretações.

Dois infinitos que se encontram, existem e significam de modo diferente. Seres, que como células, interagem de forma osmótica, compartilhando ideias e sensações através de suas membranas limitadoras.

Hoje descobri que no silêncio da linguagem alguma coisa existe. Existe o toque. Existe o outro. Existe o amor. Tudo isto existe sem a necessidade da linguagem. Quando estamos abraçados e juntos, automaticamente liberamos amor. O toque está além da linguagem, pois ultrapassa a membrana do eu. Não é mais interno, mas sim externo. Lhe podem ser atribuídos diversos significados, mas a priori significa apenas amor.

Quando percebemos que existe o outro, conseguimos silenciar a linguagem. Quando estamos juntos, despertamos o amor dentro de nós mesmos. Se, mesmo cercado de milhares de pessoas, não ultrapassarmos a membrana imaginária do eu, nos sentimos sozinhos. Dentro dessa membrana existe a linguagem, e ali existe a solidão. Quando percebemos que existe o outro, e rasgamos essa membrana imaginária, é como um parto. Uma libertação. O esgaçar de uma nova vida. Um renascimento. Um mundo novo. Se todas essas pessoas não fazem parte do eu, se elas realmente existem fora dessa membrana, então, não é possível estar sozinho se estamos cercados de pessoas. Precisamos interagir.

O amor está além da linguagem, além do querer, além do entender. Só podemos amar quando estamos juntos, seja em corpo, seja em pensamento.

O amor não se recebe, se doa. Não adianta somente ser amado, mesmo que isto traga grande satisfação ao ego. O mais importante é permitir-se amar.

Hoje meu grande amigo Xis me fez perceber quanto é linda a oração de São Francisco de Assis: “Ó mestre, fazei que eu procure mais amar que ser amado.”

Ser amado engrandece o “ego”, mas amar, engrandece a “alma”, ampliando a limites inimagináveis as fronteiras que condicionam o Eu. Ser amado desperta uma satisfação egoísta e limitada. Amar, aquece e ilumina a existência. Somente quando compartilhamos o nosso amor, e nos disponibilizamos a amar, é que poderemos sentir a energia da vida fluindo e transbordando do nosso interior. Transcendendo nossa membrana limitante e inundando o outro. É algo que parte de dentro para fora.

Por isso, para amar intensamente, é preciso, antes de tudo, abrir seu coração. O toque é amor, importar-se é amor, servir ao outro é amor, abraçar é amor.

Ame mais.

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