O poder da palavra – Guerra Santa

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Há cerca de dois mil anos uma nova religião surge no mundo, pregando uma fé que revolucionaria a história e mudaria completamente todo o modo de pensar e agir do mundo ocidental. Com o início do cristianismo, a pluralidade de Deuses greco-romanos logo foi esmagada pela nova palavra e lentamente passam de religião oficial à mitologia. Uma nova verdade surge como única alternativa mística.

Com o surgimento de Jesus, o Deus único judaico agora estava acessível a todos, não mais apenas ao povo escolhido. E, acima de tudo, criou-se uma nova elite eclesiástica, que assume o incomparável poder do monopólio da interpretação da linguagem figurada das escrituras.

De acordo com Orígenes, um dos primeiros grandes filósofos do início do cristianismo, igualmente ao nosso corpo também as escrituras possuem três níveis: o sentido corporal ou literal, o sentido psíquico ou moral e o sentido espiritual ou místico. E a capacidade de acessar o conhecimento oculto das escrituras e entrar em comunhão com Deus, depende de cada homem e de quão profunda é a sua capacidade de percepção. Quanto mais em sintonia com o mundo espiritual, maior seria a sua capacidade de acessar a verdade escondida.

A interpretação dogmática da Igreja Católica Romana, diferente de tantos outros intérpretes das escrituras, está na pregação literal do mistério de Jesus Cristo, e na crença irrefutável que este viveu em carne e osso, nasceu de uma virgem, morreu crucificado, seu corpo ressuscitou dos mortos e subiu aos céus em carne e osso.

Todos aqueles que interpretaram Jesus como um ser espiritual, um personagem idealizado para guiar a humanidade, ou de qualquer outro modo fora da interpretação oficial da Igreja Católica Apostólica Romana foram banidos, executados e excomungados como hereges. Exatamente para evitar que o poder ilimitado atrelado ao monopólio da interpretação das escrituras se dissolvesse.

Assim, todas as outras religiões e culturas começaram a ser desfeitas à luz desta nova verdade. Ou seja, o novo realismo histórico cristão permitiu afastar o véu dos antigos mitos e questionar seu sentido alegórico. Dali em diante não existiriam mais Deuses, nem heróis ou o Olimpo. Uma nova realidade mitológica tinha surgido na figura de Jesus Cristo, baseada e conquistada pelo poder da redenção do martírio. Agora nem o medo da morte poderia impedir a fé cristã de se expandir, já que o martírio pela causa levava o crente diretamente para junto de Deus. Os novos heróis a comporem o olimpo dos santos são exatamente aqueles que se sacrificaram pelo bem maior, o domínio da interpretação dogmática cristã.

Com o crescente domínio hegemônico da igreja, todos os outros tipos de interpretação das escrituras foram sistematicamente sendo eliminados, para que o seu poder ideológico não fosse ameaçado, questionado ou diluído.

No entanto, com o passar de dois mil anos e com o acesso crescente à informação, muitos começam a questionar porquê tantas partes da Bíblia são interpretadas de modo literal, quando o próprio Jesus sempre se expressou por parábolas. Seria a interpretação da igreja a única possível? Seria esta correta? Teríamos que limitar nossas vidas ao que eles dizem ser a palavra de Deus, ou devemos buscar nós mesmo o sentido da existência?

Quando mais a população ler os textos sagrados, maior vai ser a sua capacidade de percepção de como estes são utilizados para dominar ao invés de libertar. Como determinar o que é mitologia e o que é verdade?

A cada dia, novas interpretações surgem, mais abertas ao amor, à igualdade, ao perdão e ao acolhimento, ao invés do ódio e discriminação, mascarados pela “palavra de Deus”.

Antes de acreditar em tudo que as Igrejas dizem, ao menos leia o texto original ao qual eles se referem com tanta autoridade. Temos muito tempo disponível, basta ver um pouco menos televisão.

Entenderam porque ainda temos guerras religiosas? Pois, quem tem o poder sobre a palavra de Deus, tem poder sobre o mundo. E exatamente por isso que pastores evangélicos ou qualquer outra pessoa que pense ter acesso a única e possível interpretação da verdade, não podem ter acesso ao poder político em um estado laico. Pois eles acreditam que a sua verdade individual e literal é maior do que o direito do cidadão ou que as leis do estado. E, se eles forem muitos, a sua verdade distorcida pode virar a própria lei.

Por isso temos que ter cuidado.

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