O visão de Espinosa a respeito da Existência.

O_Mundo_de_Sofia_II

Decidi transcrever este trecho do livro O mundo de Sofia, que descreve a visão de Espinosa a respeito da existência, do mundo e de Deus. Ele acreditava que tudo era formado por uma única substância. Tanto o mundo material como os pensamentos não eram divididos. E que, a partir das leis da natureza, esta unicidade determinava o “destino” de cada ser vivo, tanto plantas, animais, como os seres humanos. Deste modo, não existiria uma real liberdade ou livre arbítrio, tudo seria apenas causas e consequências. Teríamos que expandir nossa visão para o infinito do tempo e do espaço para conseguirmos aspirar a liberdade. Segue o trecho, que é uma conversa entre Sofia e seu professor:

– Espinosa desejava mostrar como a vida humana é determinada pelas leis da natureza. Devemos, portanto, nos libertar de nossos sentimentos e afetos. Somente assim encontraremos a paz e seremos afortunados, dizia ele.

– Nós não somos governados só pelas leis da natureza, somos?

– Bem, Espinosa não é um filósofo fácil de compreender, Sofia. Vamos ver uma coisa de cada vez. Você se lembra  de que Descartes dizia que a realidade consiste de duas substâncias bem distintas, a saber: o “pensamento” e a “extensão”.

– Como eu poderia esquecer?

– A palavra “substância” pode ser traduzida por aquilo que é composta uma coisa, a essência dessa coisa, aquilo que conduz ao seu íntimo ou raiz. Descartes também raciocinava tendo como ponto de partida tais substâncias. Para ela, tudo ou era “pensamento” ou era “extensão”.

– Não era preciso repetir.

– Mas Espinosa não aceitou esta divisão. Ele dizia que existe uma única substância. Tudo que existe pode ser reduzido a uma única e mesma coisa, acreditava ele, a que denominou simplesmente substância. Em outras passagens se refere a ela como “Deus” ou “natureza”. Portanto, Espinosa não tem uma compreensão dualista da realidade como Descartes. Dizemos que ele é um “monista”. Significa que, segundo ele, toda a realidade se reduz a uma única substância.

– Dificilmente poderiam estar menos de acordo um com o outro.

– Mas a diferença entre Descartes e Espinosa não é tão profunda como se diz muitas vezes. Descartes também aponta para o fato de só Deus existir por si mesmo. Só quando Espinosa põe no mesmo plano Deus e a natureza – ou Deus e a Criação – é que se afasta consideravelmente de Descartes e também da tradição hebraico-cristã.

– Porque aí, a natureza “é” Deus, e ponto final.

– Mas quando Espinosa usa o termo “natureza”, não está se referindo apenas a natureza visível. Com substância, Deus ou a natureza, ele quer dizer tudo o que existe, tudo que existe também no mundo espiritual.

– Tanto “pensamento” quanto “extensão” então.

_ Sim, você disse certo. Segundo Espinosa, nós, homens, conhecemos duas das características ou manifestações de Deus. Espinosa as chama de atributos divinos, e ambos os atributos são exatamente os “pensamentos” e “extensões” a que se referiu Descartes. Deus, ou a natureza, manifesta-se, pois, em pensamentos ou extensões. Contudo, pode ser que Deus possua infinitas outras criações além dos “pensamentos” e “extensões”, mas nos foi dado conhecer apenas esses dois.

– Muito  bem, mas foi um jeito meio enrolado de dizer isso.

– Sim, mas quase sou obrigado a usar um martelo e cinzel para poder atravessar o linguajar de Espinosa. O consolo é que, no final, existe um pensamento puro e cristalino como um diamante

– Estou esperando por ele ansiosa.

– Tudo que existe na natureza é, portanto, ou pensamento ou extensão. Os fenômenos mais simples com os quais nos deparamos no nosso cotidiano, por exemplo, uma flor ou um poema de Henrik Wergeland, são diferentes modi dos atributos dos pensamentos ou extensões. Com modus, plural modi, nos referimos a uma determinada manifestação dessa substância, um modo pelo qual Deus, ou a natureza, se expressa. Uma flor é um modus de um atributo extensão, e um poema sobre essa mesma flor é um modus do atributo pensamento. Mas os dois são, no fundo, expressões diversas da Substância, Deus, ou natureza.

– Que sujeito mais complicado!

– É somente o linguajar que usa que parece complicados. Sob a superfície de suas concepções existe um conhecimento maravilhoso, ainda que tão gritantemente simples, que não pode jamais ser alcançado pela linguagem coloquial.

– Ainda assim eu acho que fico com a linguagem coloquial mesmo.

– Perfeitamente. Vou então tomar você mesma como exemplo. Quando você sente dor de barriga, quem sente dor de barriga?

– Ué? Você não falou? Eu.

– O.k. E mais tarde, quando você lembra que teve dor de barriga, quem lembra?

– Eu, também.

– Porque você é uma pessoa, que pode muito bem hoje ter dor de barriga, e outro dia estar com outro ânimo. Espinosa dizia que todas as coisas físicas que nos cercam ou se manifestam à nossa volta são extensões de Deus ou da natureza. Assim, também são todos os pensamento que são pensamentos: são pensamentos de Deus ou da natureza. Pois tudo é um. Existe apenas um Deus, uma natureza ou uma Substância.

– Mas, quando penso em algo, sou eu mesma que penso. E, quando me movimento, sou em quem se movimenta. Por que botar Deus nisso?

– Gostei da pergunta. Mas quem é você? Você é Sofia Amundsen, mas também é a expressão de algo maior. Você pode muito bem dizer que você pensa ou você se movimenta, mas você não poderia afirmar que é a natureza que pensa seus pensamentos ou se movimenta por você? É quase uma questão de quais lentes você escolhe usar para enxergar tudo isso.

– Você está dizendo que eu não sou capaz de determinar tudo aquilo que posso fazer?

– Bom, você talvez tenha a possibilidade de mover o seu polegar da forma que quiser. Mas ele é capaz de se mover apenas de acordo com a natureza que tem. Ele não pode saltar de sua mão e sair por aí, passando ao seu bel-prazer. Do mesmo modo você tem o seu lugar aqui no todo, minha cara. Você é Sofia, mas também é um dedinho de Deus.

– Então é Deus que determina o que eu posso fazer?

– Ou a natureza, ou as leis da natureza. Espinosa dizia que Deus (ou as leis da natureza) é a causa interna de tudo que acontece. Ele não é uma causa externa, pois Deus se manifesta através das leis da natureza, e somente através delas.

– Não sei se vejo diferença.

– Deus não é um titereiro, um manipulador de marionetes que puxa as cordinhas e determina assim tudo que pode acontecer. Um “mestre de marionetes” controlas seus bonecos pelo lado de fora, e é, pois, uma causa externa ao movimento que realizam. Mas não é assim que Deus governa o mundo. Ele o governa através das leis da natureza. Dessa forma, Deus, ou a natureza, é a causa interna de tudo que acontece. Isso significa que tudo acontece por necessidade, porque tem que acontecer. Espinosa tinha uma visão determinista da vida na natureza.

– Acho que você já mencionou coisa parecida.

– Talvez você esteja pensando nos estoicos. Eles também enfatizavam que tudo acontece porte tem que acontecer. Por isso julgavam tão importante enfrentar as ocorrências da vida com “tranquilidade estoica”. O homens não se deveriam deixar tomar por seus sentimentos. Esta é, resumindo bem, a ética de Espinosa.

– Acho que compreendo o que ele queria dizer. Mas não me acostumo com a ideia de que não posso ter controle sobre mim mesma.

– Vamos novamente voltar àquele menino da Idade da Pedra que viveu há trinta mil anos. À medida que o tempo passou, ele foi crescendo, atirou sua lança contra animais selvagens, amou uma mulher que deu à luz seus filhos e, pode estar certa, ele também cultuou os deuses da sua tribo. O que você diria: ele determinou tudo isso sozinho?

– Não sei.

– Ou imagine um leão na África. Você acha que ele escolhe ser um predador? Será por isso que ele se atira contra um antílope em disparada? Talvez ele devesse escolher viver como um vegetariano?

– Não, os leões vivem de acordo com a natureza deles.

– Ou de acordo com as leis da natureza. Você também, Sofia, pois você também é parte da natureza. E agora, naturalmente amparada em Descartes, você pode até fazer a ressalva de que o leão é um animal selvagem , não um homem dotado de um espírito livre. Mas, imagine um bebê recém-nascido, uma menina. Ela chora e se mexe. Se não lhe dão leite, ela suga o dedo. Ela tem livre-arbítrio?

– Não.

– E quando essa pequena criança vai adquirir livre-arbítrio? Aos dois anos ela fica correndo por toda a parte, apontando para tudo o que está ao seu redor. Aos três, faz birra e perturba sua mão e, aos quatro, de repente passa a ter medo do escuro. Onde está a liberdade, Sofia?

– Não sei.

– Quando completa quinze anos, se põe diante do espelho e experimente se maquiar. É agora que ela tomará suas decisões pessoais e fará o que bem entender?

– Entendo o que você está querendo dizer.

– Esta menina é Sofia Amundsen, ela sabe muito bem disso. Mas ela também vive segundo as leis da natureza. A questão é que ela não se apercebe disso, porque existem inúmeras razões, infinitas razões, por trás de cada coisa que ela decide fazer.

– Acho que não estou a fim de escutar mais.

– Mas você vai pelo menos responder a uma última pergunta. Imagine duas árvores bem antigas num grande jardim. Uma cresceu num local ensolarado, com acesso a um solo fértil e água em abundância. A outra, num solo estéril, sob a sombra. Qual delas, você acha, é a árvore maior? E qual delas terá dado mais frutos?

– Claro que a árvore que teve as melhores condições.

– Segundo Espinosa, essa é a árvore livre. Ela teve liberdade total para desenvolver suas possibilidades intrínsecas. Se, porém, se tratar de uma macieira, ela não terá tido possibilidade de dar peras ou ameixas. O mesmo vale para nós, seres humanos. Podemos retardar nosso desenvolvimento e nosso crescimento pessoal, por exemplo, devido a condições políticas. Pressões externas são capazes de nos tolher. Somente quando “libertamos” as possibilidades que nos são inatas é que vivemos como homens livres. Mas somo tão governados pelo nosso potencial interno e pelas circunstâncias exteriores quanto aquele menino da Idade da Pedra no vale do Reno, o leão na África ou a macieira no jardim.

– Já estou prestes a desistir.

– Espinosa enfatiza que somente um único ser é “causa completa e absoluta” de si mesmo e pode agir em total liberdade. Só Deus ou a natureza é a manifestação livre, “não causal”, desse processo. Um homem pode até aspirar à liberdade de viver imune às atribulações externas. Mas jamais vai experimentar de fato o “livre-arbítrio”. Não podemos determinar tudo que acontece com nosso próprio corpo, que é um modus do atributo extensão. E não possuímos uma “alma livre”, que de resto está aprisionada em um corpo mecânico.

– Isso aí é que é difícil de entender.

– Espinosa dizia que são as vicissitudes humanas, por exemplo, a ambição e o prazer, que nos impedem de alcançar a verdadeira felicidade e harmonia. Mas, se reconhecermos que tudo acontece porque tem que acontecer, poderemos chegar à compreensão da natureza como um todo. Podemos atingir uma experiência cristalina de que tudo está conectado, tudo é um. Nosso objetivo é enxergar tudo que existe num só olhar. Aí então alcançaremos a suprema felicidade e compreensão. Isso é o que Espinosa chamou de ver tudo sub specie æternitatis.

– Que significa…?

– Ver tudo do ponto de vista da eternidade. Não foi disso que começamos falando?

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