Simplesmente ser

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Somos eternos narradores. Tudo que aparece aos nossos sentidos é automaticamente catalogado, julgado e registrado. Vemos uma árvore e já pensamos que tipo é, se ela é boa ou ruim, se é terrível pois vai fazer sujeira ou se é maravilhosa pois nos irá propiciar sombra. Repetimos este processo com tudo, sejam coisas, sons, odores, gostos, toques e até pensamentos. Temos uma classificação pré-determinada que nos “facilita a vida”.

Não precisamos perceber e conhecer todas as coisas. Basta conhecer uma, julgá-la uma primeira vez e assim todas as outras serão iguais. Aplicaremos a mesma sentença automaticamente, sem necessidade de julgamento individual. E mais, não “temos tempo” nem se quer de conhecer uma de cada coisa, na verdade, na maioria das vezes, confiamos na opinião alheia e da mídia para moldarmos nosso leque de julgamentos e aplicá-los às coisas. Deste modo, nem nos damos ao trabalho de conhecer algo para julgá-lo, mas sim, aplicamos a sentença que nos foi sugerida, ou imposta, por outrem e que nos impede de realmente perceber as coisas como são.

Um outro ponto de vista é que cada coisa que chega à nossa percepção é afetada pelo nosso estado emocional do momento. Assim, como explicou o mestre Roshi, se na primeira vez que eu tomar café eu estiver completamente apaixonado e me sentindo maravilhosamente bem, o café vai ter um gosto fantástico. No entanto, se eu tiver acabado de terminar um relacionamento, ou ter sido demitido, ou estiver me sentindo muito mal, o café vai ter um gosto terrível. Por isto, nem se quer nossa primeira opinião realmente vale como jurisprudência para a automatização de todos os julgamentos posteriores, pois até estas são influenciadas pelo momento, situação e estado emocional.

O pronto principal a ser percebido é que as coisas simplesmente são. Não são nem boas nem ruins. Simplesmente são. E, nesta nossa necessidade ou vício de narradores, acabamos não percebendo nada como realmente é, mas sim, apenas o reflexo de nossos julgamentos. Isto, cria uma capa ilusória sobre toda a realidade. Não nos damos ao trabalho e nem mesmo queremos conhecer realmente as coisas. Claro que nem tudo precisa ser experimentado novamente, algumas coisas são importantes perceber, como por exemplo, se eu chegar muito perto do fogo vou me queimar. Mas tantas outras não são realmente assim.

Vivemos em um mundo completamente modelado pelo nosso preconceito e julgamento. Será que é exatamente esta película de proteção que devemos retirar para conseguir enxergar a unidade de tudo? A completa diferença de cada coisa, a unicidade de cada indivíduo e que paradoxalmente nos une na necessidade e completeza dos diversos?

Por isto, deixe um pouco de lado a necessidade constante de classificar e julgar tudo e todos, transcendendo à aparência daquilo achamos ser e permitindo-nos conhecer a real essência. O que as coisas realmente são, além dos nossos julgamentos.

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