Sento procurando o infinito, mas o que encontro é o vazio

Com o passar dos minutos tudo que pensava ser eu começa a nublar. O gosto e os odores são os primeiros a desaparecerem. Então, de pouco em pouco, a mente vai diminuindo sua intensidade, os pensamentos vão passando sem serem percebidos, até que param. Agora, todos os sons se distanciam e a visão se ofuscou em uma luz uniforme e pulsante. A respiração se autorregula com a movimentação imperceptível dos músculos. Todo o corpo é absolutamente estático. Em meu rosto estampo um leve sorriso que me guia.

Tudo que até então pensava ser eu na verdade está fora de mim. Os sons, os cheiros, imagens e os próprios pensamentos… O que realmente sou eu?

Se eu precisar de um coração posso trocá-lo e aquele coração que sempre foi de outro agora será meu. Então este realmente foi de alguém? Os órgãos não possuem uma identidade intrínseca, um eu, são simplesmente órgãos. Do mesmo modo, tudo que vi, li e escutei, formaram meus pensamentos. Então, nada que sinto ou penso é realmente eu. Quem é o verdadeiro espectador de tudo isto. Quem é o eu que a tudo isto percebe. O que é a essência, o âmago, aquilo que a tudo anima, tudo move. A alma, do latim, anima, que anima, que dá vida.

Indo profundamente em busca de mim mesmo e transcendendo tudo que pensava ser eu encontro uma sensação. Não sei ao certo o que é. Talvez simplesmente é.

Talvez o tudo e o nada sejam apenas duas faces de uma mesma moeda, que gira, gira e gira.

Ao mesmo tempo, paradoxalmente, tudo que vejo, sinto e penso também sou eu. Segundo nos falou o mestre Roshi:

Quando vemos uma vela, somos a vela,
Quando escutamos a chuva, somos a chuva,
Quando sentimos o incenso, somos o incenso,

Tudo que percebemos, por mais que sejamos nós a percebê-lo, nunca se encontra dentro de nós. Quando escutamos um pássaro, ele está longe, não dentro de nossa orelha. Quando vemos o mar, este está longe, não dentro de nossos olhos. Quando sentimos a areia em nossos pés esta está fora, não dentro de nossos pés. Somos o reflexo de tudo que percebemos e simultaneamente percebemos apenas o nosso reflexo.

É paradoxal. Mas parece valer a pena a busca.

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