O Dualismo da Existência e a Criação do Homem


Segundo aprendi nestes dias, em especial com o Mestre Zen Dôshô Saikawa Roshi, a existência pode ser representada como uma moeda. Onde cada vez, só podemos ver um único lado. Nunca podemos ver os dois lados ao mesmo tempo.

De um lado temos o dualismo, que caracteriza o mundo que vivemos. Do outro lado temos a unidade, onde todas as coisas são uma e nós estamos em sintonia com o todo.

O dualismo passou a existir quando o homem começou a pensar com o cérebro e criou a linguagem e as palavras. Assim, o dualismo é formado por comparações, maior-menor, grande-pequeno, dentro-fora, eu-outros, tudo-nada.

Somente quando entramos no profundo do nosso ser a partir da meditação, que podemos transcender o mundo dualístico e descobrirmos o verdadeiro Eu. Não mais aprisionados em um corpo dos pés a cabeça e mente, mas sim, vislumbrando uma existência sem limites ou fronteiras. Na unidade as coisas são o que são, elas não são boas nem ruins, certas ou erradas, elas simplesmente são. Quando em consciência com a unidade, não existe sofrimento, pois não existe julgamento.

Quando analisamos a vida no dualismo, vemos tudo em linha reta. Dois pontos distintos, partida e chegada, bom e ruim, dentro e fora. Mas, quando percebemos a mesma realidade de modo iluminado, percebemos que tudo acontece simultaneamente, então esta linha forma um círculo e, os dois pontos que pareciam distantes agora se sobrepõe. Existe apenas o presente, este segundo, e a vida e a morte e a ausência de vida e morte acontecem continuamente em um ciclo infinito.

Tudo é vazio. Até o corpo é vazio, pois nenhuma de suas partes independentemente contêm o eu. Podemos transplantar órgãos para qualquer pessoa compatível e aquele órgão não será mais nosso. Nosso coração, ou qualquer órgão não possui um eu intrínseco. Também, nem nossos próprios pensamentos são nossos. Eles foram formados a partir daquilo que vimos na televisão, conversamos com outras pessoas, lemos em livros. Tudo é causa e efeito. Se vimos coisas e formulamos perguntas, vamos criar as condições para formarmos as respostas. Nada é realmente nosso, tudo apenas é. Somos o vazio e a forma contemporaneamente.

Temos que ser como um espelho que reflete a realidade. Tudo que aparece na frente do espelho faz parte do espelho, mas, nem por isso, é do espelho. Tudo que temos contato torna-se parte de nós, mas nem por isso é nós e nem nosso. Simplesmente é. O apego de pensar que as coisas e pensamentos são nossos é que levam ao sofrimento.

À luz deste novo conhecimento, podemos reinterpretar a própria história da criação do homem narrada no Gênesis. Quando Adão decidiu provar o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ele passou a julgar. Até então ele vivia em unidade com Deus, ou seja, com o infinito dentro dele mesmo. Por não existir dualismo ou julgamento, também não existia sofrimento, então, ele vivia no paraíso. A partir do momento que ele decidiu passar a julgar as coisas como boas ou ruins, ele foi automaticamente levado ao mundo material, “expulso do paraíso”, e passou a sofrer a consequência dos seus próprios julgamentos. Assim, quando Deus volta ao paraíso a procura de Adão e lhe pergunta: Por que te escondes? E Adão responde: Porque estou nu. Deus lhe diz: Mas quem te disse que estais nu? Até aquele momento as coisas não eram boas ou ruins, apenas eram. Mas, a partir daquela decisão de ter o poder de decidir o que era o bem e o mal, o homem passou a julgar, e assim decidiu que a nudez era mal e passou a se envergonhar da sua própria natureza.

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