O que um muçulmano me ensinou

Cinco vezes por dia, através de todos os autofalantes das centenas de mesquitas por toda a cidade de Istambul os muçulmanos são convidados a rezarem. Neste momento de oração os turistas não podem entrar para visitar as mesquitas. E, assim, parados na frente da Mesquita Azul, fomos convidados para uma palestra gratuita sobre o Islamismo.

Nesta meia hora prendi muitas coisas interessantes, mas as principais são:

Os muçulmanos não adoram Maomé, eles apenas rezam para Deus. Maomé foi simplesmente o escolhido para trazer uma mensagem de Deus, mas, além de ser um profeta ele foi um homem como outro qualquer. Ou seja, diferente de Jesus, que, para os cristãos, é a personificação de Deus na terra.

A outra coisa que aprendi é que não é permitido decorar as mesquitas com nenhuma imagem de pessoas ou animais, mas apenas com desenhos florais, abstratos ou caligráficos. Pois, por mais que Deus nos tenha criado a sua imagem e semelhança, ele não é um homem, e o fato de adorarmos imagens pode nos confundir no caminho do conhecimento.

Achei tudo isso muito interessante e de fato comecei a preferir os espaços de oração completamente desprovidos de imagens. Pois, estes nos convidam para conhecermos a nós mesmos, a buscar a divindade internamente e não fora de nós.

Toda essa estória de não adorar Maomé me deixou a pergunta: Mas porque Jesus falou que ele era o caminho e que só poderíamos chegar ao pai através dele? O que ele queria dizer com isso?

Então hoje, pela primeira vez depois da viagem, pude sentar e ler um pedacinho do Evangelho de São João, e ali me veio a resposta. Jesus disse aos apóstolos:

‘Daqui a pouco vocês não me verão mais, porém, mais um pouco, e vocês me tornarão a ver’? 20 Eu lhes garanto: vocês vão gemer e se lamentar, enquanto o mundo vai se alegrar. Vocês ficarão angustiados, mas a angústia de vocês se transformará em alegria. 21 Quando a mulher está para dar à luz, sente angústia, porque chegou a sua hora. Mas quando a criança nasce, ela nem se lembra mais da aflição, porque fica alegre por ter posto um homem no mundo. 22 Agora, vocês também estão angustiados. Mas, quando vocês tornarem a me ver, vocês ficarão alegres, e essa alegria ninguém tirará de vocês. 23 Nesse dia, vocês não me farão mais perguntas. Eu garanto a vocês: se vocês pedirem alguma coisa a meu Pai em meu nome, ele a concederá. 24 Até agora vocês não pediram nada em meu nome: peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.»

25 «Até agora falei para vocês através de comparações. Está chegando a hora em que não falarei mais através de comparações, mas falarei a vocês claramente a respeito do Pai. 26 Nesse dia vocês pedirão em meu nome e não será necessário que eu os recomende ao Pai, 27 pois o próprio Pai ama vocês, porque vocês me amaram e acreditaram que eu saí de junto de Deus. 28 Eu saí de junto do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai.»

O que eu entendi:

Quando na nossa busca espiritual, na qual Jesus pode nos servir de guia, finalmente conseguirmos ver por nossos próprios olhos e entender tudo aquilo que até então ele falou por metáforas e comparações, neste dia não vamos mais precisar da sua ajuda, pois já teremos encontrado o Pai, ou a iluminação ou o Samadhi. Pois Jesus nunca falou que ele era melhor que qualquer outro, ele simplesmente disse que o Pai fala através dele e que qualquer um poderia fazer o mesmo se encontrasse o Pai. Por isso, Jesus não nos pede para adorá-lo, mas sim, para seguir o seu exemplo e descobrirmos essa consciência superior que nos pode guiar. Ou seja, chegar a Iluminação, ao Nirvana, ao Samadhi, ou como quiserem chamar.

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