Diferentes mas interdependentes, a relação entre o Eu e o Todo

Hoje li as últimas 3 páginas do livro A Teia da Vida, de F. Capra, e me deparei com esta frase:

De acordo com a teoria de Santiago, um organismo vivo cria um mundo ao fazer distinções.

Esta simples constatação feita pelo autor me fez pensar em muitas coisa. Não só no conhecimento que há muito tempo mudou minha vida, no qual percebi que a partir do dia que aprendermos a nomear uma árvore, como por exemplo, uma figueira, aquela espécie passará a ser diferente de todas as outras, e toda vez que a virmos não será mas apenas uma árvore, mas sim uma figueira. Quando nomeamos e definimos qualquer coisa damos a ela uma identidade, a distinguimos de todo o resto e a percebemos como algo individual, diferente. E é a partir desta constante diferenciação que formamos o nosso mundo. Não um mundo de árvores todas iguais, mas um mondo de figueiras, macieiras, jaboticabeiras, laranjeiras… e assim vai. O paradoxo é que, mesmo tendo deformado ou refinado a nossa percepção, todas estes seres individuais ainda são árvores.

Acho que esta percepção da autonomia da identidade singular de cada coisa em contraste com a sua igualmente eterna e íntima conexão com o todo, me pareceu conseguir levantar um pouco do Véu de Maya. Ou seja, o véu de Maya, segundo o Hinduísmo, é a ilusão da realidade. Aquilo que devemos transcender para entender o que é a verdade, o que é a verdadeira realidade. Segundo eles, toda a realidade material que vivemos é apenas uma ilusão. Se pensarmos fisicamente, atomicamente, os átomos não são coisas sólidas mas sim, formados por 99% de espaço vazio, ou seja, tudo que para nós parece sólido, na verdade é atomicamente 99% de espaço vazio. É a partir da nossa percepção que definimos e criamos nosso mundo sólido. E esta ilusão da constante diferenciação que nos impede de perceber a unidade que forma todo o universo, a unidade cósmica e energética que liga toda a vida, a qual chamamos de Deus, Krishna, Alá…

Ou seja, se é a partir das distinções que criamos nosso mundo, quer dizer que do mesmo modo como aprendemos que uma árvore é uma figueira e que a figueira é diferente da macieira e por consequência diferente de nós mesmo. Do mesmo modo somos levados a perceber o mundo de acordo com o modo como essa diferenciação de entidades e objetos nos é imposta, como por exemplo, que negros são diferente de brancos, que pobres são diferentes de ricos, que mulheres são diferentes de homens, que gays são diferentes de héteros, que algumas pessoas são melhores e outras piores, que algumas pessoas merecem nosso respeito e outras não, que algumas pessoas são pecadoras mas o resto é santo… Ou seja, quando esta constante diferenciação é percebida em outras escalas organizacionais da nossa realidade tudo fica muito distorcido. Se fazemos todas essas diferenciação entre pessoas da nossa mesma espécie, entre pessoas do nosso mesmo país, cidade, bairro e muitas vezes da nossa própria família, imagina como percebemos nossa relação de interdependência com o resto do mundo e com o todo. E nos leva a pensar a constante distorção que, mesmo que sejamos todos seres vivos, nós valemos mais que outros, que nós como indivíduos valemos mais que outros diferentes de nós, que nós como seres humanos valemos mais que outros seres vivos, como os animais e as árvores. E como somos diferentes, valemos mais, não precisamos respeitá-los. Podemos criar guerras, crises, discriminações econômicas para justificar holocaustos diários, podemos criar necessidades de luxo e ambições para cortarmos, queimarmos e matarmos árvores e animais.

Acho que depois que percebemos a unidade da vida que forma nossa biosfera, nosso planeta, Gaya, e também todo o universo, Deus, começamos a perceber que a constante diferenciação linguística do nosso mundo, que tenta definir e separar tudo, e principalmente separar esse todo de nós mesmo, além de trazer uma inesgotável solidão, apenas nos aprofunda na escuridão da ignorância e na eterna ilusão de que somos melhores ou mais importantes que todo o resto. No entanto, apenas descobrindo nossa conectividade e indissolúvel união com o todo, bem como amando e respeitando o todo, que finalmente nos sentiremos novamente reconectados. Finalmente começaremos a retirar o Véu de Maya e perceber a nossa íntima relação de interdependência com o todo e o paradoxo entre nossa consciência individual e o nosso Eu coletivo.
Mude, conecte-se, liberte-se, evolua!

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