O paradoxo entre a Consciência Individual e o Eu Ecológico

Esta parte do livro a Teia da Vida, de F.Capra é muuuito interessante:

A filosofia budista contém algumas das mais lúcidas exposições sobre a condição humana e suas raízes na linguagem e na consciência. O sofrimento humano existencial surge, na visão budista, quando nos apegamos a formas e a categorias fixas criadas pela mente, em vez de aceitar a natureza impermanente e transitória de todas as coisas. Buda ensinou que todas as formas fixas — coisas, eventos, pessoas ou idéias — nada mais são que maya. Assim como os videntes e os sábios védicos, ele utilizou essa antiga concepção indiana, mas a fez descer do nível cósmico que ela ocupa no hinduísmo, e a ligou com o processo da cognição humana; deu-lhe, desse modo, uma interpretação revigorada, quase psicoterapêutica.
A partir da ignorância (avidya), dividimos o mundo percebido em objetos separados, que percebemos como sendo sólidos e permanentes, mas que, na verdade, são transitórios e estão em contínua mudança. Tentando nos apegar às nossas rígidas categorias em vez de compreender a fluidez da vida, estamos fadados a experimentar frustração após frustração.

A doutrina budista da impermanência inclui a noção de que o eu não existe — não existe o sujeito permanente de nossas diversificadas experiências. Ela sustenta que a idéia de um eu individual, separado, é uma ilusão, é apenas uma outra forma de maya, uma concepção intelectual destituída de realidade. O apego a essa idéia de um eu separado leva à mesma dor e ao mesmo sofrimento (duhkha) que a adesão a qualquer outra categoria fixa de pensamento.

A ciência cognitiva chegou exatamente à mesma posição. De acordo com a teoria de Santiago, criamos o eu assim como criamos objetos. Nosso eu, ou ego, não tem nenhuma existência independente, mas é o resultado do nosso acoplamento estrutural interno. Uma análise detalhada da crença num eu independente e fixo, e a resultante “ansiedade cartesiana”, levam Francisco Varela e seus colaboradores à seguinte conclusão:

Nosso impulso para nos agarrar a uma terra interior é a essência do ego-eu e é a fonte de contínua frustração. … Esse agarrar-se a uma terra interior é, ele mesmo, um momento num padrão maior do agarrar que inclui nosso apego a uma terra exterior na forma da idéia de um mundo pré-dado e independente. Em outras palavras, nosso agarrar-se a uma terra, seja ela interior ou exterior, é a fonte profunda de frustração e de ansiedade.

É esse, então, o ponto crucial da condição humana. Somos indivíduos autônomos, modelados pela nossa própria história de mudanças estruturais. Somos autoconscientes, cientes da nossa identidade individual — e, não obstante, quando procuramos por um eu independente no âmbito de nosso mundo de experiência, não conseguimos encontrar nenhuma entidade desse tipo.

A origem de nosso dilema reside na nossa tendência para criar as abstrações de objetos separados, inclusive de um eu separado, e em seguida acreditar que elas pertencem a uma realidade objetiva, que existe independentemente de nós. Para superar nossa ansiedade cartesiana, precisamos pensar sistemicamente, mudando nosso foco conceituai de objetos para relações. Somente então poderemos compreender que a identidade, a individualidade e a autonomia não implicam separatividade e independência. Como nos lembra Lynn Margulis: “Independência é um termo político, e não científico.”

O poder do pensamento abstrato nos tem levado a tratar o meio ambiente natural — a teia da vida — como se ele consistisse em partes separadas, a serem exploradas comercialmente, em benefício próprio, por diferentes grupos. Além disso, estendemos essa visão fragmentada à nossa sociedade humana, dividindo-a em outra tantas nações, raças, grupos religiosos e políticos. A crença segundo a qual todos esses fragmentos — em nós mesmos, no nosso meio ambiente e na nossa sociedade — são realmente separados alienou-nos da natureza e de nossos companheiros humanos, e, dessa maneira, nos diminuiu. Para recuperar nossa plena humanidade, temos de recuperar nossa experiência de conexidade com toda a teia da vida. Essa reconexão, ou religação, religio em latim, é a própria essência do alicerçamento espiritual da ecologia profunda.

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