A vida é o processo de conhecer

Preciso compartilhar com vocês esse capítudo do livro de Capra, A Teia da Vida, sobre cognição. É muito revolucionária e interessante, por isso decidi compartilhar o capítulo inteiro, pois tirando uma parte parecia tirar o principal, que é a visão completa do sistema de cognição apresentada no fim. Boa leitura 🙂

Criando um Mundo
Na emergente teoria dos sistemas vivos, a mente não é uma coisa, mas um processo. É a cognição, o processo do conhecer, e é identificada com o processo da própria vida. É esta a essência da teoria da cognição de Santiago, proposta por Humberto Maturana e Francisco Varela.
A identificação da mente, ou cognição, com o processo da vida é uma idéia radicalmente nova na ciência, mas é também uma das intuições mais profundas e mais arcaicas da humanidade. Nos velhos tempos, a mente humana racional era vista como um mero aspecto da alma imaterial, ou espírito. A distinção básica não era entre corpo e mente, mas entre corpo e alma, ou corpo e espírito. Embora a diferenciação entre alma e espírito fosse fluida, e flutuasse ao longo do tempo, ambos originalmente unificavam em si mesmos duas concepções — a da força da vida e a da atividade da consciência.
Nas línguas dos velhos tempos, essas duas idéias são expressas por meio da metáfora do sopro da vida. De fato, as raízes etimológicas de “alma” e “espírito” significam “sopro”, “alento”, em muitas línguas antigas. As palavras para “alma” em sânscrito (atman), em grego (pneumá) e em latim (anima} significam, todas elas, “alento”. O mesmo é verdadeiro para a palavra que designa “espírito” em latirn (spiritus), em grego (psyche) e em hebraico (ruah). Todas essas palavras também significam “alento”.
A antiga intuição comum que está por trás de todas essas palavras é a da alma ou espírito como o sopro da vida. De maneira semelhante, a concepção de cognição na teoria de Santiago vai muito além da mente racional, pois inclui todo o processo da vida. Descrevê-la como o sopro da vida é uma perfeita metáfora.

Ciência Cognitiva
Assim como a concepção de “processo mental”, formulada independentemente por Gregory Bateson3, a teoria da cognição, de Santiago, tem suas raízes na cibernética. Foi desenvolvida no âmbito de um movimento intelectual que aborda o estudo científico da mente e do conhecimento a partir de uma perspectiva interdisciplinar sistêmica que se situa além dos arcabouços tradicionais da psicologia e da epistemologia. Essa nova abordagem, que ainda não se cristalizou num campo científico maduro, é cada vez mais conhecida como “ciência cognitiva”.
A cibernética proporcionou à ciência cognitiva o primeiro modelo de cognição.
Sua premissa era a de que a inteligência humana assemelha-se à “inteligência” do computador em tal medida que a cognição pode ser definida como processamento de informações — isto é, como uma manipulação de símbolos baseada num conjunto de regras.5 De acordo com esse modelo, o processo de cognição envolve representação mental. Assim como um computador, pensa-se que a mente opera manipulando símbolos que representam certas características do mundo.6 Esse modelo do computador para a atividade mental foi tão convincente e poderoso que dominou todas as pesquisas em ciência cognitiva por mais de trinta anos.
Desde a década de 40, quase tudo na neurobiologia foi modelado por essa idéia de que o cérebro é um dispositivo de processamento de informações. Por exemplo, quando estudos sobre o córtex visual mostraram que certos neurônios respondem a certas características dos objetos percebidos — velocidade, cor, contraste, e assim por diante — acreditava-se que esses neurônios com características específicas captassem informações visuais vindas da retina e as transferissem a outras áreas do cérebro para processamento posterior. No entanto, estudos subseqüentes com animais tornaram claro que a associação entre neurônios e características específicas só pode ser feita com animais anestesiados, em ambientes internos e externos rigidamente controlados. Quando um animal é estudado enquanto está desperto e exercendo seu comportamento em circunvizinhanças mais normais, suas respostas neurais tornam-se sensíveis a todo o contexto dos estímulos visuais, e não podem mais ser interpretadas em termos de processamento de informações realizado etapa por etapa.7
O modelo do computador para a cognição foi finalmente submetido a sério questionamento na década de 70, quando surgiu a concepção de auto-organização. A motivação para submeter a hipótese dominante a uma revisão proveio de duas deficiências amplamente reconhecidas da visão computacional. A primeira é a de que o processamento de informações baseia-se em regras seqüenciais, aplicadas uma de cada vez; a segunda é a de que ele é localizado, de modo que um dano em qualquer parte do sistema resulta numa séria anormalidade de funcionamento do todo. Ambas as características estão em patente contradição com as observações biológicas. As tarefas visuais mais comuns, até mesmo as que ocorrem em insetos minúsculos, são executadas mais depressa do que é fisicamente possível fazê-lo simulando-as seqüencialmente; e é bem conhecida a elasticidade do cérebro, que pode sofrer lesões sem que isso comprometa todo o seu funcionamento.
Essas observações sugeriram uma mudança de foco — de símbolos para conexidade, de regras locais para coerência global, de processamento de informações para as propriedades emergentes das redes neurais. Com o desenvolvimento concorrente da matemática não-linear e de modelos de sistemas auto-organizadores, essa mudança de foco prometia abrir novos e intelectualmente instigantes caminhos para as pesquisas. De fato, no início da década de 80, modelos “conexionistas” de redes neurais tornaram- se muito populares.8 Estes são modelos de elementos densamente interconexos planejados para executar simultaneamente milhões de operações que geram interessantes propriedades globais, ou emergentes. Como Francisco Varela explica: “O cérebro é … um sistema altamente cooperativo: as densas interações entre seus componentes requerem que, no final, tudo o que esteja ocorrendo seja uma função daquilo que todos os componentes estão fazendo. … Em conseqüência disso, todo o sistema adquire uma coerência interna em padrões intrincados, mesmo que não possamos dizer exatamente como isso acontece.”
A Teoria de Santiago
A teoria da cognição de Santiago originou-se do estudo das redes neurais e, desde o princípio, esteve ligada com a concepção de autopoiese de Maturana.10 A cognição, de acordo com Maturana, é a atividade envolvida na autogeração e na autoperpetuação de redes autopoiéticas. Em outras palavras, a cognição é o próprio processo da vida. “Sistemas vivos são sistemas cognitivos”, escreve Maturana, “e a vida como processo é um processo de cognição.”11 Em termos de nossos três critérios fundamentais para os sistemas vivos — estrutura, padrão e processo — podemos dizer .que o processo da vida consiste em todas as atividades envolvidas na contínua incorporação do padrão de organização (autopoiético) do sistema numa estrutura (dissipativa) física.
Uma vez que a cognição é tradicionalmente definida como o processo do conhecer, devemos ser capazes de descrevê-la pelas interações de um organismo com seu meio ambiente. De fato, é isso o que a teoria de Santiago faz. O fenômeno específico subjacente ao processo de cognição é o acoplamento estrutural.
Como vimos, um sistema autopoiético passa por contínuas mudanças estruturais enquanto preserva seu padrão de organização semelhante a uma teia. Em outras palavras, ele se acopla ao seu meio ambiente de maneira estrutural, por intermédio de interações recorrentes, cada uma das quais desencadeia mudanças estruturais no sistema.12 No entanto, o sistema vivo é autônomo. O meio ambiente apenas desencadeia as mudanças estruturais; ele não as especifica nem as dirige.
Ora, o sistema vivo não só especifica essas mudanças estruturais mas também especifica quais as perturbações que, vindas do meio ambiente, as desencadeiam. Esta é a chave da teoria da cognição de Santiago. As mudanças estruturais no sistema constituem atos de cognição. Ao especificar quais perturbações vindas do meio ambiente desencadeiam suas mudanças, o sistema “gera um mundo”, como Maturana e Varela se expressam. Desse modo, a cognição não é a representação de um mundo que existe de maneira independente, mas, em vez disso, é uma contínua atividade de criar um mundo por meio do processo de viver. As interações de um sistema vivo com seu meio ambiente são interações cognitivas, e o próprio processo da vida é um processo de cognição. Nas palavras de Maturana e de Varela: “Viver é conhecer.”
É óbvio que estamos lidando aqui com uma expansão radical da concepção de cognição e, de maneira implícita, da concepção de mente. Nessa nova visão, a cognição envolve todo o processo da vida — incluindo a percepção, a emoção e o comportamento — e não requer necessariamente um cérebro e um sistema nervoso. Até mesmo as bactérias percebem certas características do seu meio ambiente. Elas sentem diferenças químicas em suas vizinhanças e, conseqüentemente, nadam em direção ao açúcar e se afastam do ácido; sentem e evitam o calor, se afastam da luz ou se aproximam dela, e algumas bactérias podem até mesmo detectar campos magnéticos.14 Desse modo, até mesmo uma bactéria cria um mundo — um mundo de calor e de frio, de campos magnéticos e de gradientes químicos. Em todos esses processos cognitivos, a percepção e a ação são inseparáveis, e, uma vez que as mudanças estruturais e as ações associadas que se desencadeiam no organismo dependem da estrutura do organismo, Francisco Varela descreve a cognição como “ação incorporada”.15
De fato, a cognição envolve dois tipos de atividades que estão inextricavelmente ligadas: a manutenção e a persistência da autopoiese e a criação de um mundo. Um sistema vivo é uma rede multiplamente interconexa cujos componentes estão mudando constantemente e sendo transformados e repostos por outros componentes. Há grande fluidez e flexibilidade nessa rede, que permite ao sistema responder, de uma maneira muito especial, a perturbações, ou “estímulos”, provenientes do meio ambiente. Certas perturbações desencadeiam mudanças estruturais específicas — em outras palavras, mudanças na conexidade através de toda a rede. Este é um fenômeno distributivo. Toda a rede responde a uma perturbação determinada rearranjando seus padrões de conexidade.
Cada organismo muda de uma maneira diferente, e, ao longo do tempo, cada organismo forma seu caminho individual, único, de mudanças estruturais no processo de desenvolvimento. Uma vez que essas mudanças estruturais são atos de cognição, o desenvolvimento está sempre associado com a aprendizagem. De fato, desenvolvimento e aprendizagem são dois lados da mesma moeda. Ambos são expressões de acoplamento estrutural.
Nem todas as mudanças físicas num organismo são atos de cognição. Quando uma parte de um dente-de-leão é comida por um coelho, ou quando um animal é machucado num acidente, essas mudanças estruturais não são especificadas e dirigidas pelo organismo; elas não são mudanças de escolha, e portanto não são atos de cognição. No entanto, essas mudanças físicas impostas são acompanhadas por outras mudanças estruturais (percepção, resposta do sistema imunológico, e assim por diante) que são atos de cognição.
Por outro lado, nem todas as perturbações vindas do meio ambiente causam mudanças estruturais. Os organismos vivos respondem a apenas uma pequena fração dos estímulos que se imprimem sobre eles. Todos nós sabemos que podemos ver ou ouvir fenômenos somente no âmbito de uma certa faixa de freqüências; em geral, no nosso ambiente, não percebemos coisas nem eventos que não nos dizem respeito, e também sabemos que aquilo que percebemos é, em grande medida, condicionado pelo nosso arcabouço conceituai e pelo nosso contexto cultural.
Em outras palavras, há muitas perturbações que não causam mudanças estruturais porque são “estranhas” ao sistema. Dessa maneira, cada sistema vivo constrói seu próprio mundo, de acordo com sua própria estrutura. Como se expressa Varela: “A mente e o mundo surgem juntos.”16 No entanto, por meio de acoplamentos estruturais mútuos, os sistemas vivos individuais são parte dos mundos uns dos outros. Eles se comunicam uns com os outros e coordenam seus comportamentos.17 Há uma ecologia de mundos criados por atos de cognição mutuamente coerentes.
Na teoria de Santiago, a cognição é parte integrante da maneira como um organismo vivo interage com seu meio ambiente. Ela não reage aos estímulos ambientais por meio de uma cadeia linear de causa e efeito, mas responde com mudanças estruturais em sua rede autopoiética não-linear, organizacionalmente fechada. Esse tipo de resposta permite que o organismo continue sua organização autopoiética e, desse modo, continue a viver em seu meio ambiente. Em outras palavras, a interação cognitiva do organismo com seu meio ambiente é interação inteligente. A partir da perspectiva da teoria de Santiago, a inteligência se manifesta na riqueza e na flexibilidade do acoplamento estrutural de um organismo.
A gama de interações que um sistema vivo pode ter com seu meio ambiente define seu “domínio cognitivo”. As emoções são parte integrante desse domínio. Por exemplo, quando respondemos a um insulto ficando zangados, todo esse padrão de processos fisiológicos — um rosto vermelho, a respiração acelerada, tremores, e assim por diante — é parte da cognição. De fato, pesquisas recentes indicam vigorosamente que há uma coloração emocional para cada ato cognitivo.
À medida que a complexidade de um organismo vivo aumenta, seu domínio cognitivo também aumenta. O cérebro e o sistema nervoso, em particular, representam uma expansão significativa do domínio cognitivo de um organismo, uma vez que eles aumentam em grande medida a gama e a diferenciação de seus acoplamentos estruturais. Num certo nível de complexidade, um organismo vivo acopla-se estruturalmente não apenas ao seu meio ambiente mas também a si mesmo, e, desse modo, cria não apenas um mundo exterior, mas um mundo interior. Nos seres humanos, a criação desse mundo interior está intimamente ligada com a linguagem, com o pensamento e com a consciência.
Ausência de Representação, Ausência de Informação
Sendo parte de uma concepção unificadora da vida, da mente e da consciência, a teoria da cognição de Santiago tem profundas implicações para a biologia, para a psicologia e para a filosofia. Entre essas implicações, sua contribuição à epistemologia, o ramo da filosofia que trata da natureza do nosso conhecimento a respeito do mundo, é talvez o seu aspecto mais radical e controvertido.
A característica singular da epistemologia implicada pela teoria de Santiago está no fato de que ela se opõe a uma idéia que é comum à maior parte das epistemologias, mas só raras vezes é explicitamente mencionada — a idéia de que a cognição é uma representação de um mundo que existe independentemente. O modelo do computador para a cognição como processamento de informações foi apenas uma formulação específica, baseada numa anologia errônea, da idéia mais geral de que o mundo é pré- dado e independente do observador, e que a cognição envolve representações mentais de suas características objetivas no âmbito do sistema cognitivo. A imagem principal, de acordo com Varela, é a de “um agente cognitivo que desceu de pára-quedas num mundo pré-dado” e que extrai suas características essenciais por intermédio de um processo de representação.20
De acordo com a teoria de Santiago, a cognição não é a representação de um mundo pré-dado, independente, mas, em vez disso, é a criação de um mundo. O que é criado por um determinado organismo no processo de viver não é o mundo mas sim um mundo, um mundo que é sempre dependente da estrutura do organismo. Uma vez que os organismos no âmbito de uma espécie têm mais ou menos a mesma estrutura, eles criam mundos semelhantes. Além disso, nós, seres humanos, partilhamos um mundo abstrato de linguagem e de pensamento por meio do qual criamos juntos o nosso mundo.21
Maturana e Varela não sustentam que há um vazio lá fora, a partir do qual criamos matéria. Há um mundo material, mas ele não tem nenhuma característica predeterminada. Os autores da teoria de Santiago não afirmam que “nada existe”
(nothing exists); eles afirmam que “não existem coisas” (no things exists) que sejam independentes do processo de cognição. Não há estruturas que existam objetivamente; não há um território pré-dado do qual podemos fazer um mapa — a própria construção do mapa cria as características do território.
Por exemplo, sabemos que gatos ou pássaros vêem árvores de maneira muito diferente daquela como nós vemos, pois eles percebem a luz em diferentes faixas de freqüências. Dessa maneira, as formas e as texturas das “árvores” que eles criam serão diferentes das nossas. Quando vemos uma árvore, não estamos inventando a realidade. Mas as maneiras pelas quais delineamos objetos e identificamos padrões a partir da multidão de entradas (inputs) sensoriais que recebemos depende da nossa constituição física. Como diriam Maturana e Varela, as maneiras pelas quais podemos nos acoplar estruturalmente ao nosso meio ambiente, e portanto o mundo que criamos, dependem da nossa própria estrutura.
Junto com a idéia de representações mentais de um mundo independente, a teoria de Santiago também rejeita a idéia de que as informações são características objetivas desse mundo que existe independentemente. Nas palavras de Varela:
Devemos pôr em questão a idéia de que o mundo é pré-dado e de que cognição é representação. Na ciência cognitiva, isso significa que devemos pôr em questão a idéia de que as informações existem já feitas no mundo e de que elas são extraídas por um sistema cognitivo.22
A rejeição da representação e da informação como sendo relevantes para o processo do conhecer são ambas difíceis de se aceitar, porque usamos constantemente ambos os conceitos. Os símbolos da nossa linguagem, tanto a falada como a escrita, são representações de coisas e de idéias; e na nossa vida diária consideramos fatos tais como a hora do dia, a data, o boletim meteorológico, o número do telefone de um amigo como pedaços de informação que são relevantes para nós. De fato, toda a nossa época tem sido, muitas vezes, chamada de a “era da informação”. Portanto, como podem Maturana e Varela alegar que não existe informação no processo da cognição?
Para entender essa afirmação aparentemente enigmática, devemos nos lembrar de que, para os seres humanos, a cognição envolve a linguagem, o pensamento abstrato e conceitos simbólicos que não estão disponíveis para outras espécies. A capacidade de abstrair é uma característica fundamental da consciência humana, como veremos, e, devido a essa capacidade, podemos, e realmente o fazemos, usar representações mentais, símbolos e informações. No entanto, estas não são características do processo geral de cognição que é comum a todos os sistemas vivos. Embora os seres humanos usem freqüentemente representações mentais e informações, nosso processo cognitivo não se baseia nelas.
Para adquirir uma perspectiva adequada a respeito dessas idéias, é muito instrutivo olhar mais de perto para o que se entende por “informação”. A visão convencional é a de que a informação, de alguma maneira, está “situada lá fora”, pronta para ser colhida pelo cérebro. No entanto, esse pedaço de informação é uma quantidade, um nome ou uma breve afirmação que nós abstraímos de toda uma rede de relações, de um contexto no qual ela está encaixada e que lhe dá significado. Sempre que tal “fato” estiver encaixado num contexto estável que encontramos com grande regularidade, podemos abstraí-lo desse contexto, associá-lo com o significado inerente no contexto e chamá-lo de “informação”. Estamos tão acostumados com essas abstrações que tendemos a acreditar que o significado reside no pedaço de informação, e não no contexto do qual ele foi abstraído.
Por exemplo, não há nada de “informativo” na cor vermelha, exceto o fato de que, por exemplo, quando encaixada numa rede cultural de convenções e na rede tecnológica do tráfego da cidade, ela está associada com o ato de parar num cruzamento. Se pessoas vindas de uma cultura muito diferente chegam a uma de nossas cidades e vêem uma luz vermelha de tráfego, isso pode não significar nada para elas. Não haveria informação alguma transmitida. De maneira semelhante, a hora do dia e a data são abstraídas de um complexo contexto de conceitos e de idéias, inclusive de um modelo do Sistema Solar, de observações astronômicas e de convenções culturais.
As mesmas considerações se aplicam às informações genéticas codificadas no ADN. Como explica Varela, a noção de um código genético foi abstraída de uma rede metabólica subjacente na qual o significado do código está incorporado: Durante muitos anos, os biólogos consideraram as seqüências de proteínas como sendo instruções codificadas no ADN. No entanto, é claro que tripletos de ADN são capazes de especificar previsivelmente um aminoácido numa proteína se e somente se eles estiverem incorporados no metabolismo da célula, isto é, nas milhares de regulações enzimáticas numa rede química complexa. É apenas devido às regularidades que emergem dessa rede como um todo que podemos destacar esse background metabólico e, dessa maneira, tratar os tripletos como códigos para aminoácidos.

Ausência de Representação, Ausência de Informação
Sendo parte de uma concepção unificadora da vida, da mente e da consciência, a teoria da cognição de Santiago tem profundas implicações para a biologia, para a psicologia e para a filosofia. Entre essas implicações, sua contribuição à epistemologia, o ramo da filosofia que trata da natureza do nosso conhecimento a respeito do mundo, é talvez o seu aspecto mais radical e controvertido.A característica singular da epistemologia implicada pela teoria de Santiago está no fato de que ela se opõe a uma idéia que é comum à maior parte das epistemologias, mas só raras vezes é explicitamente mencionada — a idéia de que a cognição é uma representação de um mundo que existe independentemente. O modelo do computador para a cognição como processamento de informações foi apenas uma formulação específica, baseada numa anologia errônea, da idéia mais geral de que o mundo é prédado e independente do observador, e que a cognição envolve representações mentais de suas características objetivas no âmbito do sistema cognitivo. A imagem principal, de acordo com Varela, é a de “um agente cognitivo que desceu de pára-quedas num mundo pré-dado” e que extrai suas características essenciais por intermédio de um processo de representação.20

De acordo com a teoria de Santiago, a cognição não é a representação de um mundo pré-dado, independente, mas, em vez disso, é a criação de um mundo. O que é criado por um determinado organismo no processo de viver não é o mundo mas sim um mundo, um mundo que é sempre dependente da estrutura do organismo. Uma vez que os organismos no âmbito de uma espécie têm mais ou menos a mesma estrutura, eles criam mundos semelhantes. Além disso, nós, seres humanos, partilhamos um mundo abstrato de linguagem e de pensamento por meio do qual criamos juntos o nosso mundo.21

Maturana e Varela não sustentam que há um vazio lá fora, a partir do qual criamos matéria. Há um mundo material, mas ele não tem nenhuma característica predeterminada. Os autores da teoria de Santiago não afirmam que “nada existe” (nothing exists); eles afirmam que “não existem coisas” (no things exists) que sejam independentes do processo de cognição. Não há estruturas que existam objetivamente; não há um território pré-dado do qual podemos fazer um mapa — a própria construção do mapa cria as características do território.

Por exemplo, sabemos que gatos ou pássaros vêem árvores de maneira muito diferente daquela como nós vemos, pois eles percebem a luz em diferentes faixas de freqüências. Dessa maneira, as formas e as texturas das “árvores” que eles criam serão diferentes das nossas. Quando vemos uma árvore, não estamos inventando a realidade.

Mas as maneiras pelas quais delineamos objetos e identificamos padrões a partir da multidão de entradas (inputs) sensoriais que recebemos depende da nossa constituição física. Como diriam Maturana e Varela, as maneiras pelas quais podemos nos acoplar estruturalmente ao nosso meio ambiente, e portanto o mundo que criamos, dependem da nossa própria estrutura.

Junto com a idéia de representações mentais de um mundo independente, a teoria de Santiago também rejeita a idéia de que as informações são características objetivas desse mundo que existe independentemente. Nas palavras de Varela: Devemos pôr em questão a idéia de que o mundo é pré-dado e de que cognição é representação. Na ciência cognitiva, isso significa que devemos pôr em questão a idéia de que as informações existem já feitas no mundo e de que elas são extraídas por um sistema cognitivo.

A rejeição da representação e da informação como sendo relevantes para o processo do conhecer são ambas difíceis de se aceitar, porque usamos constantemente ambos os conceitos. Os símbolos da nossa linguagem, tanto a falada como a escrita, são representações de coisas e de idéias; e na nossa vida diária consideramos fatos tais como a hora do dia, a data, o boletim meteorológico, o número do telefone de um amigo como pedaços de informação que são relevantes para nós. De fato, toda a nossa época tem sido, muitas vezes, chamada de a “era da informação”. Portanto, como podem Maturana e Varela alegar que não existe informação no processo da cognição?

Para entender essa afirmação aparentemente enigmática, devemos nos lembrar de que, para os seres humanos, a cognição envolve a linguagem, o pensamento abstrato e conceitos simbólicos que não estão disponíveis para outras espécies. A capacidade de abstrair é uma característica fundamental da consciência humana, como veremos, e, devido a essa capacidade, podemos, e realmente o fazemos, usar representações mentais, símbolos e informações. No entanto, estas não são características do processo geral de cognição que é comum a todos os sistemas vivos. Embora os seres humanos usem freqüentemente representações mentais e informações, nosso processo cognitivo não se baseia nelas.

Para adquirir uma perspectiva adequada a respeito dessas idéias, é muito instrutivo olhar mais de perto para o que se entende por “informação”. A visão convencional é a de que a informação, de alguma maneira, está “situada lá fora”, pronta para ser colhida pelo cérebro. No entanto, esse pedaço de informação é uma quantidade, um nome ou uma breve afirmação que nós abstraímos de toda uma rede de relações, de um contexto no qual ela está encaixada e que lhe dá significado. Sempre que tal “fato” estiver encaixado num contexto estável que encontramos com grande regularidade, podemos abstraí-lo desse contexto, associá-lo com o significado inerente no contexto e chamá-lo de “informação”. Estamos tão acostumados com essas abstrações que tendemos a acreditar que o significado reside no pedaço de informação, e não no contexto do qual ele foi abstraído.

Por exemplo, não há nada de “informativo” na cor vermelha, exceto o fato de que, por exemplo, quando encaixada numa rede cultural de convenções e na rede tecnológica do tráfego da cidade, ela está associada com o ato de parar num cruzamento. Se pessoas vindas de uma cultura muito diferente chegam a uma de nossas cidades e vêem uma luz vermelha de tráfego, isso pode não significar nada para elas. Não haveria informação alguma transmitida. De maneira semelhante, a hora do dia e a data são abstraídas de um complexo contexto de conceitos e de idéias, inclusive de um modelo do Sistema Solar, de observações astronômicas e de convenções culturais.

As mesmas considerações se aplicam às informações genéticas codificadas no ADN. Como explica Varela, a noção de um código genético foi abstraída de uma rede metabólica subjacente na qual o significado do código está incorporado: Durante muitos anos, os biólogos consideraram as seqü.ncias de proteínas como sendo instruções codificadas no ADN. No entanto, é claro que tripletos de ADN são capazes de especificar previsivelmente um aminoácido numa proteína se e somente se eles estiverem incorporados no metabolismo da célula, isto é, nas milhares de regulações enzimáticas numa rede química complexa. É apenas devido às regularidades que emergem dessa rede como um todo que podemos destacar esse background metabólico e, dessa maneira, tratar os tripletos como códigos para aminoácidos.

Maturana e Bateson
A rejeição, por parte de Maturana, da idéia de que a cognição envolve uma representação mental de um mundo independente é a diferença-chave entre sua concepção do processo do conhecimento e a de Gregory Bateson. Maturana e Bateson, por volta da mesma época, toparam independentemente com a idéia revolucionária de identificar o processo de conhecer com o processo da vida.24 Mas a abordaram de maneiras muito diferentes — Bateson a partir de uma intuição profunda da natureza da mente e da vida, aguçada por cuidadosas observações sobre o mundo vivo; Maturana a partir de suas tentativas, baseadas em suas pesquisas em neurociência, para definir um padrão de organização que seja característico de todos os sistemas vivos. Bateson, trabalhando sozinho, aprimorou, ao longo dos anos, seus “critérios de processo mental”, mas nunca os desenvolveu numa teoria dos sistemas vivos. Maturana, ao contrário, colaborou com outros cientistas para desenvolver uma teoria da “organização da vida” que fornece o arcabouço teórico para se entender o processo da cognição como o processo da vida. Como se expressa o cientista social Paul Dell, em seu extenso artigo “Understanding Bateson and Maturana”, Bateson se concentrou exclusivamente na epistemologia (a natureza do conhecimento) em detrimento de lidar com a ontologia (a natureza da existência):

A ontologia constitui “a estrada não trafegada” no pensamento de Bateson. … A epistemologia de Bateson não tem ontologia sobre a qual se alicerçar. … É meu argumento que o trabalho de Maturana contém a ontologia que Bateson nunca desenvolveu.

Um exame dos critérios de processo mental de Bateson mostra que eles abrangem tanto o aspecto estrutura como o aspecto padrão dos sistemas vivos, o que pode ser a razão pela qual muitos dos alunos de Bateson acharam que eles eram um tanto confusos.

Uma leitura atenta dos critérios também revela a crença subjacente no fato de que a cognição envolve representações mentais das características objetivas do mundo dentro do sistema cognitivo.

Bateson e Maturana, independentemente um do outro, criaram uma concepção revolucionária de mente, uma concepção que está arraigada na cibernética, tradição que Bateson ajudou a desenvolver na década de 40. Talvez fosse devido ao seu envolvimento íntimo com idéias cibernéticas durante o tempo de sua gênese que Bateson nunca transcendeu o modelo do computador para a cognição. Maturana, ao contrário, deixou esse modelo para trás e desenvolveu uma teoria que vê a cognição como o ato de “criar um mundo” e a consciência como estando estreitamente associada com a linguagem e com a abstração.

 

Computadores Revisitados

Nas páginas anteriores, enfatizei repetidas vezes as diferenças entre a teoria de Santiago e o modelo computacional de cognição desenvolvido em cibernética. Poderia agora ser útil olhar novamente para os computadores à luz do nosso novo entendimento da cognição, a fim de dissipar uma parte das confusões que cercam a “inteligência do computador”.

Um computador processa informações, e isso significa que ele manipula símbolos com base em certas regras. Os símbolos são elementos distintos introduzidos no computador vindos de fora, e durante o processamento de informações não ocorrem mudanças na estrutura da máquina. A estrutura física do computador é fixa, determinada pelo seu planejamento e por sua construção.

O sistema nervoso de um organismo vivo funciona de maneira muito diferente.

Como temos visto, ele reage a seu meio ambiente modulando continuamente sua estrutura, de modo que em qualquer momento sua estrutura física é um registro de mudanças estruturais anteriores. O sistema nervoso não processa informações provenientes do mundo exterior mas, pelo contrário, cria um mundo no processo da cognição.

A cognição humana envolve linguagem e pensamento abstrato, e, portanto, símbolos e representações mentais, mas o pensamento abstrato é apenas uma pequena parcela da cognição humana, e geralmente não é a base para as nossas decisões e as nossas ações. As decisões humanas nunca são completamente racionais, estando sempre coloridas por emoções, e o pensamento humano está sempre encaixado nas sensações e nos processos corporais que contribuem para o pleno espectro da cognição.

Como os cientistas especializados em computadores Terry Winograd e Fernando Flores assinalam em seu livro Understanding Computers and Cognition, o pensamento racional filtra a maior parte desse espectro cognitivo e, ao fazê-lo, cria uma “cegueira de abstração”. Como antolhos, os termos que adotamos para nos expressar limitam o âmbito da nossa visão. Num programa de computador, explicam Winograd e Flores, diversos objetivos e tarefas são formulados sob a forma de uma coleção limitada de objetos, de propriedades e de operações, coleção essa que incorpora a cegueira que surge com as abstrações envolvidas na criação do programa. No entanto: Há restritos domínios de tarefas nos quais essa cegueira não impede um comportamento que se mostra inteligente. Por exemplo, muitos jogos são acessíveis a uma aplicação de … técnicas [capazes de] produzir um programa que derrota os oponentes humanos. … São áreas nas quais a identificação das características relevantes é direta e a natureza das soluções é clara.27

Uma boa dose de confusão é causada pelo fato de os cientistas do computador usarem palavras tais como “inteligência”, “memória” e “linguagem” para descrever computadores, implicando com isso que essas expressões se referem aos fenômenos humanos que conhecemos bem a partir da experiência. Trata-se de um grave equívoco.

Por exemplo, a essência mesma da inteligência consiste em agir de maneira adequada quando um problema não é claramente definido e as soluções não são evidentes. Nessas situações, o comportamento humano inteligente baseia-se no senso comum, acumulado pelas experiências vividas. No entanto, o senso comum não está disponível aos computadores devido à cegueira destes à abstração e às limitações intrínsecas das operações formais, e, portanto, é impossível programar computadores para serem inteligentes.

Desde os primeiros dias da inteligência artificial, um dos maiores desafios tem sido o de programar um computador para entender a linguagem humana. Porém, depois de várias décadas de trabalhos frustrantes sobre esse problema, pesquisadores em inteligência artificial estão começando a entender que seus esforços estão fadados a continuar inúteis, que os computadores não podem entender a linguagem humana num sentido significativo.29 A razão disso é que a linguagem humana está embutida numa teia de convenções sociais e culturais, a qual fornece um contexto de significados não expresso em palavras. Nós entendemos esse contexto porque é senso comum para nós, mas um computador não pode ser programado com senso comum e, portanto, não entende a linguagem.

Esse ponto pode ser ilustrado com muitos exemplos simples, tais como este texto utilizado por Terry Winograd: “Tommy tinha acabado de receber um novo conjunto de blocos de montar. Ele estava abrindo a caixa quando viu Jimmy chegando.” Como Winograd explica, um computador não teria uma pista a respeito do que existe dentro da caixa, mas supomos imediatamente que ela contém os novos blocos de Tommy. E supomos isso porque sabemos que os presentes freqüentemente vêm em caixas e que abrir a caixa é a coisa adequada a fazer. E o mais importante: nós supomos que as duas sentenças no texto estão ligadas, ao passo que o computador não vê razão para vincular a caixa com os blocos de armar. Em outras palavras, nossa interpretação desse simples texto baseia-se em várias suposições de senso comum e em várias expectativas que não estão disponíveis ao computador.

O fato de que um computador não pode entender a linguagem não significa que ele não pode ser programado para reconhecer e para manipular estruturas lingü.sticas simples. De fato, muitos progressos têm sido feitos nessa área em anos recentes. Os computadores hoje podem reconhecer algumas centenas de palavras e de frases, e esse vocabulário básico continua se expandindo. Desse modo, as máquinas são utilizadas, cada vez mais, para interagir com as pessoas por meio das estruturas da linguagem humana, a fim de executar tarefas limitadas, Por exemplo, posso discar para o meu banco pedindo informações sobre a minha conta bancária, e um computador, incitado por uma seqü.ncia de códigos, dará o meu saldo, o número e as quantias dos cheques e dos depósitos recentes, e assim por diante. Essa interação, que envolve uma combinação de palavras faladas simples e de números perfurados, é muito conveniente e muito útil, sem que isso implique, de qualquer maneira, que o computador do banco entenda a linguagem humana.

Infelizmente, há uma notável dissonância entre avaliações críticas sérias da inteligência artificial e as projeções otimistas da indústria do computador, que são fortemente motivadas por interesses comerciais. A onda mais recente de pronunciamentos entusiásticos provém do projeto de quinta geração lançado no Japão.

No entanto, uma análise dos seus grandiosos objetivos sugere que eles são tão irrealistas quanto projeções anteriores semelhantes, mesmo que o programa venha provavelmente a produzir numerosos subprodutos úteis.31

A peça principal do projeto de quinta geração e de outros projetos de pesquisa semelhantes é o desenvolvimento dos assim chamados sistemas expert, que serão planejados para rivalizar com o desempenho de especialistas humanos em certas tarefas.

Este é, mais uma vez, um uso infeliz da terminologia, como assinalam Winograd e Flores:

Chamar um programa de “expert” é tão enganador quanto chamá-lo de “inteligente” ou dizer que ele “entende”. Essa imagem falsa pode ser útil para aqueles que estão tentando obter fundos para pesquisa ou vender esses programas, mas pode levar a expectativas inadequadas por parte daqueles que tentam utilizá-los.32

Em meados da década de 80, o filósofo Hubert Dreyfus e o cientista do computador Stuart Dreyfus empreenderam um estudo exaustivo da perícia humana, contrastando-a com os sistemas expert de computadores. Eles descobriram que … temos de abandonar a visão tradicional segundo a qual um iniciante começa com casos específicos e, à medida que se torna mais habilidoso, abstrai e interioriza um número cada vez maior de regras sofisticadas. … A aquisição de habilidades move-se no sentido exatamente oposto — de regras abstratas para casos particulares. Parece que um principiante faz inferências usando regras e fatos, assim como um computador heuristicamente programado, mas com talento e com uma grande dose de experiências envolvidas, o principiante evolui tornando-se um especialista que, intuitivamente, vê o que fazer sem precisar aplicar regras.33

Essa observação explica por que os sistemas expert nunca têm um desempenho tão bom quanto o de especialistas humanos experientes, que não operam aplicando uma seqü.ncia de regras, mas atuam com base em sua apreensão intuitiva de toda uma constelação de fatos. Dreyfus e Dreyfus também notaram que, na prática, sistemas expert são planejados perguntando-se a especialistas humanos a respeito das regras relevantes. Quando isso é feito, os especialistas tendem a mencionar as regras de que se lembram desde o tempo em que eram principiantes, mas que deixaram de usar quando se tornaram especialistas. Se essas regras são programadas num computador, o sistema expert resultante desempenhará suas tarefas melhor que um principiante humano usando as mesmas regras, mas nunca poderá rivalizar com um verdadeiro especialista.

Imunologia Cognitiva
Algumas das mais importantes aplicações práticas da teoria de Santiago serão aquelas que, provavelmente, emergirão de seu impacto na neurociência e na imunologia.

Como foi previamente mencionado anteriormente, a nova visão da cognição esclarece, em grande medida, o velho enigma a respeito da relação entre mente e cérebro. A mente não é uma coisa, mas um processo — o processo da cognição, que é identificado com o processo da vida. O cérebro é uma estrutura específica por cujo intermédio esse processo opera. Desse modo, a relação entre mente e cérebro é uma relação entre processo e estrutura.

O cérebro não é, de maneira alguma, a única estrutura envolvida no processo da cognição. No organismo humano, assim como nos organismos de todos os vertebrados, o sistema imunológico está sendo cada vez mais reconhecido como uma rede tão complexa e tão interconexa quanto o sistema nervoso, e cumpre funções coordenadoras igualmente importantes. A imunologia clássica concebe o sistema imunológico como o sistema de defesa do corpo, dirigido para fora e, com freqü.ncia, descrito por metáforas militares — exércitos de glóbulos brancos do sangue, generais, soldados, e assim por diante. Recentes descobertas feitas por Francisco Varela e por seus colaboradores na Universidade de Paris têm desafiado seriamente essa concepção.34 De fato, alguns pesquisadores acreditam hoje que a visão clássica, com suas metáforas militares, tem sido um dos principais obstáculos à nossa compreensão de doenças auto-imunológicas tais como a AIDS.

Em vez de se concentrar e de se interligar por meio de estruturas anatômicas tais como o sistema nervoso, o sistema imunológico está disperso no fluido linfático, permeando cada um dos tecidos isolados. Seus componentes — uma classe de células denominadas linfócitos, conhecidas popularmente como células brancas do sangue — se movimentam muito depressa e se ligam quimicamente uns aos outros. Os linfócitos constituem um grupo de células extremamente diversificadas. Cada tipo é distinguido por marcadores moleculares específicos denominados “anticorpos”, que se salientam de suas superfícies. O corpo humano contém bilhões de diferentes tipos de glóbulos brancos, com uma enorme capacidade para se ligar quimicamente a qualquer perfil molecular de seus meios ambientes.

De acordo com a imunologia tradicional, os linfócitos identificam um agente intruso, os anticorpos se prendem a ele e, ao fazê-lo, o neutralizam. Esta seqü.ncia implica o fato de que os glóbulos brancos reconhecem perfis moleculares estranhos. Um exame mais pormenorizado mostra que ela também implica alguma forma de aprendizagem e de memória. No entanto, na imunologia clássica, esses termos são utilizados de maneira puramente metafórica, sem levar em consideração quaisquer processos cognitivos efetivos.

Recentes pesquisas têm mostrado que, em condições normais, os anticorpos que circulam pelo corpo se ligam a muitos (se não a todos) tipos de células, inclusive a si mesmos. Todo o sistema se parece muito mais com uma rede, mais com pessoas falando umas com as outras, do que com soldados lá fora procurando um inimigo. Pouco a pouco, os imunologistas têm sido forçados a mudar sua percepção de um sistema imunológico para uma rede imunológica.

Essa mudança de percepção apresenta um grande problema para a visão clássica.

Se o sistema imunológico é uma rede cujos componentes se ligam uns aos outros, e se entendemos que os anticorpos eliminam qualquer coisa a que se liguem, deveríamos todos estar nos destruindo. Obviamente, não o estamos. O sistema imunológico parece capaz de distinguir entre as células de seu próprio corpo e agentes estranhos, entre eu e não-eu. Mas, uma vez que, na visão clássica, o fato de um anticorpo reconhecer um agente estranho significa ligá-lo quimicamente e, por isso, neutralizá-lo, continua um mistério o fato de como o sistema imunológico pode reconhecer suas próprias células sem neutralizá-las (isto é, sem destruí-las funcionalmente).

Além disso, do ponto de vista tradicional, um sistema imunológico só se desenvolverá quando houver perturbações externas às quais ele possa responder. Se não houver ataque, nenhum anticorpo se desenvolverá. Experimentos recentes têm mostrado, no entanto, que até mesmo animais que estão completamente blindados contra agentes causadores de doenças ainda assim desenvolverão sistemas imunológicos plenamente maduros. Com base no novo ponto de vista, isto é natural, pois a principal função do sistema imunológico não é responder a desafios externos, mas sim relacionarse consigo mesmo.

Varela e seus colaboradores argumentam que o sistema imunológico precisa ser entendido como uma rede cognitiva autônoma, responsável pela “identidade molecular” do corpo. Interagindo uns com os outros e com outras células do corpo, os linfócitos regulam continuamente o número de células e seus perfis moleculares. Em vez de simplesmente reagir contra agentes estranhos, o sistema imunológico desempenha a importante função de regular o repertório celular e molecular do organismo. Como explicam Francisco Varela e o imunologista Antônio Coutinho, “a dança mútua entre sistema imunológico e corpo … permite que o corpo tenha uma identidade mutável e plástica ao longo de toda a sua vida e seus múltiplos encontros”.36

A partir da perspectiva da teoria de Santiago, a atividade cognitiva do sistema imunológico resulta de seu acoplamento estrutural com seu meio ambiente. Quando moléculas estranhas entram no corpo, elas perturbam a rede imunológica, desencadeando mudanças estruturais. A resposta resultante não é a destruição automática das moléculas estranhas, mas a regulação de seus níveis dentro do contexto das outras atividades reguladoras do sistema. A resposta variará e dependerá de todo o contexto da rede.

Quando os imunologistas injetam grandes quantidades de um agente estranho no corpo, como o fazem em experimentos-padrão com animais, o sistema imunológico reage com a resposta defensiva maciça descrita na teoria clássica. No entanto, como assinalam Varela e Coutinho, essa é uma situação de laboratório altamente artificiosa.

Em seu habitat, o animal não recebe grandes quantidades de substâncias nocivas. As pequenas quantidades que entram em seu corpo são incorporadas de maneira natural no andamento das atividades reguladoras de sua rede imunológica.

Com esse entendimento do sistema imunológico como uma rede cognitiva, autoorganizadora e auto-reguladora, o enigma da distinção eu/não-eu é facilmente resolvido.

O sistema imunológico não distingue, e não precisa distinguir, entre células do corpo e agentes estranhos, pois ambos estão sujeitos aos mesmos processos reguladores. No entanto, quando os agentes estranhos invasores são tão generalizados que não podem ser incorporados à rede reguladora, como por exemplo no caso de infecções, eles desencadearão no sistema imunológico mecanismos específicos que eqüivalem a uma resposta defensiva.

Pesquisas têm mostrado que essa resposta imunológica bem conhecida envolve mecanismos quase automáticos que são, em grande medida, independentes das atividades cognitivas da rede.37 Tradicionalmente, a imunologia tem-se preocupado quase que exclusivamente com essa atividade imunológica “reflexiva”. Limitar-nos a esses estudos corresponderia a limitar as pesquisas sobre o cérebro ao estudo dos reflexos. A atividade imunológica defensiva é muito importante, mas na nova visão é um efeito secundário da atividade cognitiva do sistema imunológico, a qual é muito mais fundamental, mantendo a identidade molecular do corpo.

O campo da imunologia cognitiva ainda está em sua infância, e as propriedades auto-organizadoras das redes imunológicas não são, em absoluto, bem entendidas. No entanto, alguns dos cientistas em atividade nesse campo de pesquisas em crescimento já começaram a especular a respeito de instigantes aplicações clínicas para o tratamento de doenças auto-imunológicas.38 É provável que futuras estratégias terapêuticas venham a se basear no entendimento de que doenças auto-imunológicas refletem uma falha na operação cognitiva da rede imunológica e podem envolver várias técnicas novas planejadas para reforçar a rede intensificando sua conexidade.

No entanto, essas técnicas requerem um entendimento muito mais profundo da rica dinâmica das redes imunológicas antes de poderem ser aplicadas de maneira efetiva. A longo prazo, as descobertas da imunologia cognitiva prometem ser tremendamente importantes para todo o campo da saúde e da cura. Na opinião de Varela, uma concepção psicossomática (“mente-corpo”) sofisticada da saúde não será desenvolvida até que entendamos o sistema nervoso e o sistema imunológico como dois sistemas cognitivos em interação, dois “cérebros” em conversas contínuas.39

Uma Rede Psicossomática
Um elo crucial nesse quadro foi proporcionado, em meados da década de 80, pela neu-rocientista Candace Pert e seus colaboradores no National Institute of Mental Health, em Maryland. Esses pesquisadores identificaram um grupo de moléculas, denominadas peptídios, como os mensageiros moleculares que facilitam o diálogo entre o sistema nervoso e o sistema imunológico. De fato, Pert e seus colaboradores descobriram que esses mensageiros interligam três sistemas distintos — o sistema nervoso, o sistema imunológico e o sistema endócrino — numa única rede.

Na visão tradicional, esses três sistemas são separados e executam diferentes funções. O sistema nervoso, que consiste no cérebro e numa rede de células nervosas por todo o corpo, é a sede da memória, do pensamento e da emoção. O sistema endócrino, que consiste nas glândulas e nos hormônios, é o principal sistema regulador do corpo, controlando e integrando várias funções somáticas. O sistema imunológico, que consiste no baço, na medula óssea, nos nodos linfáticos e nas células imunológicasque circulam pelo corpo, é o sistema de defesa do corpo, responsável pela integridade dos tecidos e controlando a cura das feridas e os mecanismos de restauração dos tecidos.

De acordo com essa separação, os três sistemas são estudados em três disciplinas separadas — neurociência, endocrinologia e imunologia. No entanto, a recente pesquisa sobre peptídios tem mostrado, de maneira dramática, que essas separações conceituais são artefatos meramente históricos que não podem mais ser mantidos. De acordo com Candace Pert, os três sistemas devem ser vistos como formando uma única rede psicossomática.40

Os peptídios, uma família de sessenta a setenta macromoléculas, foram originalmente estudados em outros contextos e receberam outros nomes — hormônios, neurotransmissores, endorfinas, fatores de crescimento, e assim por diante. Demorou muitos anos para se reconhecer que eles constituem uma única família de mensageiros moleculares. Esses mensageiros consistem numa curta cadeia de aminoácidos, que se prendem a receptores específicos, os quais existem em abundância na superfície de todas as células do corpo. Interligando células imunológicas, glândulas e células do cérebro, os peptídios formam uma rede psicossomática que se estende por todo o organismo. Eles constituem a manifestação bioquímica das emoções, desempenham um papel de importância crucial nas atividades coordenadoras do sistema imunológico e interligam e integram atividades mentais, emocionais e biológicas.

Uma dramática mudança de percepção começou no início da década de 80, com a descoberta controvertida de que certos hormônios, que se supunha serem produzidos por glândulas, são peptídios e também são produzidos e armazenados no cérebro. Por outro lado, cientistas descobriram que um tipo de neurotransmissores denominados endorfinas, que se pensava serem produzidas somente no cérebro, são igualmente produzidas em células imunológicas. À medida que um número cada vez maior de receptores de peptídios eram identificados, foi-se verificando que praticamente qualquer peptídio conhecido é produzido no cérebro e em várias partes do corpo. Desse modo, Candace Pert declara: “Não posso mais fazer uma distinção nítida entre cérebro e corpo.”41

No sistema nervoso, os peptídios são produzidos nas células nervosas, descendo em seguida pelos axônios (os longos ramos de células nervosas) para serem armazenados em pequenas bolas no fundo, onde esperam pelos sinais corretos para

liberá-los. Esses peptídios desempenham um papel vital nas comunicações por todo o

sistema nervoso. Tradicionalmente, pensava-se que a transferência de todos os impulses nervosos ocorresse através das lacunas, denominadas “sinapses”, entre células nervosas adjacentes. Mas esse mecanismo mostrou-se de importância limitada, sendo utilizado principalmente para a contração muscular. Em sua maior parte, os sinais vindos do cérebro são transmitidos através dos peptídios emitidos por células nervosas. Ao se prenderem a receptores afastados das células nervosas onde se originaram, esses peptídios atuam não apenas por toda a parte em todo o sistema nervoso, mas também em outras partes do corpo.

No sistema imunológico, as células brancas do sangue não só têm receptores para

todos os peptídios como também fabricam peptídios. Os peptídios controlam os padrões de migração de células imunológicas e todas as suas funções vitais. É provável que essa descoberta, assim como aquelas em imunologia cognitiva, gerem instigantes aplicações terapêuticas. De fato, Pert e sua equipe descobriram recentemente um novo tratamento para a AIDS, denominado Peptídio T, que criou grandes expectativas.42 Os cientistas têm por hipótese que a AIDS está arraigada numa ruptura da comunicação entre peptídios. Eles descobriram que o HIV entra nas células por meio de receptores de peptídios particulares, interferindo nas funções de toda a rede, e planejaram um peptídio protetor que se prende a esses receptores e, desse modo, bloqueia a ação do HIV. (Os peptídios ocorrem naturalmente no corpo, mas também podem ser planejados e sintetizados.) O Peptídio T imita a ação de um peptídio que ocorre naturalmente e é, portanto, completamente não-tóxico, ao contrário de todos os outros medicamentos contra a AIDS. Atualmente, essa droga está passando por uma série de testes clínicos. Se for comprovado que é eficiente, poderá exercer um impacto revolucionário no tratamento da AIDS.

Outro aspecto fascinante da recém-reconhecida rede psicossomática é a descoberta de que os peptídios são a manifestação bioquímica das emoções. A maior parte dos peptídios, talvez todos eles, altera o comportamento e os estados de humor, e atualmente os cientistas têm por hipótese que cada peptídio pode evocar um “tom” emocional único. Todo o grupo de sessenta a setenta peptídios pode constituir uma linguagem bioquímica universal das emoções.

Tradicionalmente, os neurocientistas têm associado emoções com áreas específicas no cérebro, principalmente com o sistema límbico. Isso, de fato, está correto. O sistema límbico evidencia-se extremamente rico em peptídios. No entanto, esta não é a única parte do corpo onde se concentram os receptores de peptídios. Por exemplo, todo o intestino está revestido com receptores de peptídios. É por isso que temos “sensações na barriga”. Nós, literalmente falando, sentimos nossas emoções na barriga.

Se é verdade que cada peptídio é mediador de um determinado estado emocional, isso significaria que todas as percepções sensoriais, todos os pensamentos e, na verdade, todas as funções corporais estão coloridas emocionalmente, pois todas elas envolvem peptídios. Na verdade, os cientistas têm observado que os pontos nodais do sistema nervoso central, que ligam os órgãos sensoriais com o cérebro, são ricos em receptors de peptídios que filtram e dão prioridade a certas percepções sensoriais. Em outras palavras, todas as nossas percepções e os nossos pensamentos são coloridos por emoções. Isso, naturalmente, é também a nossa experiência comum.

A descoberta dessa rede psicossomática implica o fato de que o sistema nervosonão está estruturado de maneira hierárquica, como se acreditava antes. Como se expressa Candace Pert: “Células brancas do sangue são pedacinhos do cérebro flutuando pelo corpo.”43 Em última análise, decorre disso que a cognição é um fenômeno que se expande por todo o organismo, operando por intermédio de uma intrincada rede química de peptídios que integra nossas atividades mentais, emocionais e biológicas.

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