Amputados de nós mesmos. A divisão entre o corpo, a mente, os outros, a biosfera e o mundo.

Três pensamentos se juntaram e ampliaram a minha necessidade de explorar uma consciência maior.

O primeiro pensamento já é antigo. Há um tempo atrás eu pensei na aparição do intelecto, na nossa descoberta do livre arbítrio, como a nossa primeira separação entre o Eu e o inconsciente ou consciente coletivo, seja ele Deus ou Gaia. Ou seja, quando começamos a pensar por nós mesmos começamos a nos separar do inconsciente coletivo, da consciência que gera a vida no nosso planeta e a mantém.

Muitos povos antigos viviam em harmonia com o planeta, o respeitando e adorando. Isto foi por muito tempo esquecido e até considerado primitivo por muito pensadores modernos. Os quais colocavam o homem acima do resto. No entanto, a partir do início do século XX, novas teorias e conhecimentos foram surgindo, e com estes a Teoria de Gaia. A qual descreve o nosso planeta como um organismo vivo, capaz de auto regular sua temperatura, mantendo a vida de si mesmo e de todos os seres que o povoam. E que esta regulação é feita por um complexo mecanismo que une tanto a parte biológica, como aquilo que sempre pensei não ter vida e não influir em nossas vidas, as pedras. Toda a estrutura do planeta, não é apenas uma base sem vida sobre a qual nasce a vida, mas sim uma estrutura que interage e garante a possibilidade desta existir. O oxigênio é formado pela interação das bactérias e das rochas. As montanhas são consumidas para produzir oxigênio. E é o oxigênio o responsável por regular e manter a temperatura do planeta estável desde o começo da vida neste. Do mesmo modo como nós regulamos nossa temperatura corporal, o planeta, talvez inconscientemente como nós, também regula a sua. Este conhecimento, baseado nas teorias cada dia mais difundidas do Projeto Gaia, me foi passado pelo livro A teia da Vida, de Fritjof Capra. E esta foi a segunda base para o meu pensamento de hoje.

Outro dia estava vendo um filme antigo onde a personagem olhava para um daqueles espelhos feito de prata polida e sua imagem se refletia borrada. E ai pensei. Imagina vivermos em um mundo sem espelhos. Será que o fato de não conseguirmos ver os nossos próprios rostos não é uma mensagem. Será que não deveríamos nos preocupar mais com os outros, ao invés de vivermos na frente de espelhos, preocupados com a nossa própria aparência?

Nos reconhecemos e somos reconhecidos pelo nosso rosto, mas paradoxalmente não podemos nos ver sem a ajuda de outros objetos. Quando olhamos para baixo e vemos nosso corpo pensamos: esse é o meu corpo, meu braço, minha perna. Quando olhamos no espelho e vemos nosso rosto pensamos, este sou eu. Como se fossemos nosso rosto e possuíssemos um corpo. Como se, mesmo juntos, fossem coisas desassociadas. Como se o rosto representasse o Eu. Todos os nossos sentidos que se acumulam exatamente ali, nossa boca que fala e sente gosto, nossos ouvidos que escutam, nosso nariz que sente cheiro e respira e nossa própria consciência parece partir dali. Para o corpo restou o tato. Mas falamos, ouvimos, degustamos muito, e temos sentido pouco, mesmo sendo nosso corpo maior que nossa cabeça, o usamos proporcionalmente menos.

Como se cada vez mais desassociássemos o corpo ao Eu e associássemos nossa identidade individual apenas aos objetos dos sentidos e ao pensamento. Quando trabalhamos o dia inteiro na frente do computador, o corpo é completamente obsoleto, serve apenas para possibilitar ao intelecto de comunicar seus pensamentos. Quando vivemos em redes sociais, vivemos com a idéia e imagem das pessoas, mas seus corpos desapareceram. Acho que tudo isso começou com a igreja católica e outras religiões que associam o corpo ao pecado e divinizam o intelecto e alma. Todo este pensamento nos fez querer negar o corpo, aniquilar o corpo e assim, aniquilar nós mesmos.

Dai veio o terceiro pensamento. Nossa dissociação entre nós, nossa parte intelectual, capaz de observar, comandar, decidir, pensar e nosso corpo que executa. Após termos separado nós mesmo do resto do planeta, agora separamos nós da outra parte de nós, o corpo. Ao mesmo tempo que a mente tem a capacidade de criar mundos e universos, ela também está completamente conectada com o corpo, que por sua vez está conectado com a biosfera, e por fim, com o nosso planeta vivo.

O último pensamento surgiu ontem e escrevendo uniu todos.

No yôga, quando respiramos, nos concentramos na inalação do ar, e com este, na absorção da bioenergia. Esta frase, junto com o segundo pensamento, me fez pensar na respiração como a nossa ligação constante com o planeta terra, Gaia. É através da respiração que a cada instante nos conectamos com a massa de energia que mantém o planeta vivo e em equilíbrio. E também, talvez através dela que nos conectemos ao inconsciente coletivo, voltando a fazer parte do todo. Do mesmo modo como a alimentação nos uni a todo o resto da cadeia da vida, biosfera. A nossa conexão com o todo e por conseqüência com o inconsciente coletivo é o ar. Somos um sistema aberto, que precisa de ar, nutrientes e amor para se manter. E, é exatamente a partir destas necessidades que nos conectamos ao todo.

Talvez por isso, o conhecimento oriental sempre prega a consciência da respiração, pois, se a respiração é a nossa comunicação com o todo. A nossa porta de entrada para a energia do planeta. Então, se controlarmos esta troca, talvez consigamos entender essa comunicação e voltamos a viver conectados a nossa consciência maior, o próprio planeta. Controlando nossa alimentação, tendo consciência daquilo que comemos nos conectamos a biosfera. Desenvolvendo a nossa consciência corporal nos conectamos ao nosso corpo. E, nos desconectando ao nosso rosto, a nossa aparência, ao nosso narcisismo, ao nosso ego, abrimos nossa percepção para o resto do mundo, para o resto das pessoas e nos conectamos ao amor. Equilibrando todas essas porções de nós mesmo ficamos mais conscientes do Eu.

Somos sistemas abertos e precisamos de ar, alimento e amor para sobrevivermos. E talvez seja exatamente por isso que não vejamos nós mesmos. Pois, se prestarmos mais atenção a tudo que nos circunda, vamos estar mais consciente desta interação e mais sintonizado com o todo. Cultivaremos nosso amor por tudo e por conseqüência, recebendo muito amor em troca.

Conecte-se com o mundo, com a biosfera, com os outros. Conecte-se consigo mesmo para conectar-se a vida.

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