O mundo que construímos e percebemos

A partir de duas premissas publicadas nas pesquisas cognitivas e da explicação da vida formuladas por Maturana e Varela nos anos 70, me vieram alguns pensamentos sobre a nossa percepção do mundo e o nosso lugar na sociedade:

A primeira premissa:

A percepção e, mais geralmente, a cognição não representam uma realidade exterior, mas, em vez disso, especificam uma, por meio do processo de organização circular do sistema nervoso. Ele postulou que o sistema nervoso é não somente auto-organizador, mas também continuamente auto-referente, de modo que a percepção não pode ser vista como a representação de uma realidade externa, mas deve ser entendida como a criação contínua de novas relações dentro da rede neural: “As atividades das células nervosas não refletem um meio ambiente independente do organismo vivo e, consequentemente, não levam em consideração a construção de um mundo exterior absolutamente existente.”

Ou seja, é uma explicação da cognição, que mostra que não somos capazes de perceber um mundo externo como ele é na sua completude, isto não é possível para nós. Somos apenas capazes de especificar uma realidade, extraí-la do total, e assim, criar a nossa visão, seja do mundo em geral, seja de situações específicas, a partir das nossas experiências de vida e por conseqüência, das relações cognitivas do nosso cérebro. A partir disso, também podemos perceber que é impossível que outras pessoas consigam perceber o mundo e situações específicas do mesmo modo que nós, pois tiveram experiência diferentes e por conseqüência, modelaram a sua capacidade de perceber o mundo de forma diferente.

Acabei de ter uma visão gráfica disto e fiz o desenho abaixo pra representar:

quadrados perceptivos

Minha visão foi exatamente um túnel perceptivo na frente dos olhos, formado de muitos quadrados. Cada quadrado representa nossas experiências em um âmbito do conhecimento e por conseqüência nossa percepção a respeito daquilo. Como por exemplo, o Eu, a Vida, a Família, o Trabalho, os Amigos, a Cidade, a Natureza, a Existência, Deus…

Por isso, quando pensamos apenas nos nós individuais destas estruturas, os percebemos como estruturas desorganizadas e desconectadas, e por conseqüência temos pequenas visões fragmentadas do mundo. Mas, quando percebemos que tudo faz parte de um grande sistema de relações, começamos a encaixar as peças do quebra-cabeça, em modo a percebermos como este sistema se organiza e se auto regula em muitos níveis, com muitas características diferentes, mas sempre com um propósito em comum. Quando descobrimos este propósito, que por enquanto penso ser a felicidade, a realização e a iluminação (evolução), organizamos todos os quadrados formando um círculo amplo, coerente e contínuo e formamos a nossa percepção geral da vida, da existência, do todo. Quem sabe, se conseguíssemos formar um círculo perfeito, teríamos chegado a verdade.

O outro princípio que eles levantaram foi que: A organização de um sistema vivo é o conjunto de relações entre os seus componentes que caracteriza o sistema como pertencendo a uma determinada classe.

Disso me veio uma visão social. Já que, a partir da nossa relação e experiência com a realidade criamos a nossa percepção, do mesmo modo, é da nossa relação com as outras pessoas, que criamos o nosso lugar na sociedade. A partir das pessoas com quem nos relacionamos, somos classificados de um determinado modo. Mas não somente as relações entre os componentes da sociedade que nos definem, mas também as relações entre os componentes do nosso próprio eu, ou seja: o que falamos, como falamos, como nos comportamos, como nos vestimos, que lugares freqüentamos. É exatamente da relação entre estes componentes que criamos nossa personalidade e nossa rede de relacionamentos e, por conseqüência, a percepção do mundo a respeito de nós.

No fim esta relação acaba virando cíclica, pois, a partir das nossas experiências, das pessoas que freqüentamos, das coisas que falamos e pensamos, que vamos criando nossa visão do mundo. E a partir da nossa visão do mundo que escolhemos com quem estar e sobre o que falar e pensar…

Por isso tantas vezes mudamos completamente as pessoas no nosso círculo de amigos, pois, com a mudança da nossa percepção do mundo, acabamos querendo pessoas que as compartilhem. E por fim, criamos sempre grupos de pessoas com os mesmos propósitos e visões do mundo, que externamente são percebidos e classificados.

Esta percepção me levou ao pensamento que, mesmo parecendo óbvio é muito importante. Devemos saber aquilo que queremos nos tornar. Precisamos de uma meta, em modo a lermos, estudarmos, pensarmos e aprimorarmos nossa percepção do mundo, e nos tornarmos como aquelas pessoas que temos como exemplo, em modo a percebermos o mundo do mesmo modo como elas percebem, nos circundarmos tanto de suas características como de outros iguais a nós, e por fim sermos percebidos como tal.

Vou dar dois exemplo, exagerando suas características para percebermos melhor:

O primeiro é um empresário executivo. Este vai ler sobre administração, economia, investimento, liderança, organização, inovação, atualidade. Vai se vestir de terno e gravata, carregar sua pasta executiva, usar sapatos, utilizar um determinado tipo de carro, freqüentar determinados clubes e si circundar de outros empresários em modo a falarem sobre negócios e aprenderem mutuamente como ganhar mais dinheiro e fazer mais negócios. Assim, a sua visão do mundo vai se afunilar e classificar tanto as pessoas como as situações em modo a como estas podem ser aproveitadas ou não para gerar lucro.

Como segundo exemplo pensamos em um monge. Este vai ler os livros sagrados e ensinamentos de outros monges e mestres que já chegaram à iluminação, ou Samadhi. Vai praticar meditação, contemplação, caridade, yôga, ações devocionais, rezas ou mantras. Vai se vestir com sua túnica, seus chinelos, seu rosário ou japa… E vai se circundar por pessoas que estejam aprendendo e estudando as mesmas coisas, com os mesmo interesses. E vai perceber o mundo e as situações como relações karmicas e desafios que o levem à iluminação, ou, a ajudar as pessoas a descobrirem este mundo que ele também está buscando.

Assim, quando decidirmos em que fundamentos centrar toda a nossa percepção, temos que escolhê-los em modo que englobem o maior número de relações possíveis. Deste modo somos capazes de perceber se estamos indo no caminho certo. Se alguma coisa que fazemos ou pensamos não podem ser compartilhadas com outros quadrados de percepção, deve ser porque alguma coisa está errada, seja o modo como posicionamos os quadrados, seja o centro onde os estamos tentando alinhar. Ou seja, se uma coisa que fazemos no trabalho não podemos compartilhar com nossa família, é porque estamos centralizando os quadrados de trabalho e família em centros diferentes, e algum dos dois, ou mesmo os dois estão ocupando uma posição errada.

Por fim, quando olhamos as pessoas, as observamos e classificamos a partir da nossa percepção do que são e buscam. Isto, muitas vezes por falta de informação ou experiência não condiz àquilo que elas realmente são ou buscam, mas só a como as percebemos. São apenas um reflexo de nós mesmos. E, talvez por isso as filosofias mais profundas nos dizem para não julgarmos, pois somos incapazes de perceber completamente o mundo do mesmo modo como os outros o percebem e por isso, somos incapazes de entender completamente os porquês das ações de quem as pratica. E julgando suas ações, não estamos julgando eles, mas sim a nós mesmos, a nossa percepção.

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