Se tudo fosse silêncio, o que sobraria?

Pra variar, ontem tive uma iluminação e sempre me empolgo e quero dividir com todo mundo, pra ver o que vocês acham, se concordam, se já pensaram em alguma coisa do gênero, e para contribuírem no desenvolvimento da iluminação…

Tudo começou com um simples pensamento conhecido: na vida, a principal luta é contra nós mesmos. No entanto, ontem, essa frase recorrente me faz pensar… Como assim devo lutar contra eu mesmo? Seguindo um raciocínio lógico, pra ter uma luta devem ter ao menos duas pessoas. Se sou somente eu, então eu sou dividido em partes? Quem são essas partes de mim que lutam? E porque lutam? E se lutam, quem tem razão? Por fim, veio a resposta também recorrente: esta luta constante é entre os diferentes eus, ou seja, a alma e a mente.

Comecei a refletir no porquê era importante esta luta…
Na verdade, nós, como alma, sempre temos uma idéia completa do que queremos, de quem somos, ou gostaríamos de ser, e por fim, quais as mudanças que deveríamos fazer em nossas vidas para conseguirmos realizá-las. No entanto, mesmo sabendo as respostas, depois de um segundo, a mente nos inunda de pensamentos aparentemente incontroláveis: E se isso? Mas tu não podes fazer isso por causa daquilo! e assim por diante… e acabamos, muitas vezes, mudando de idéia, mesmo sabendo exatamente o que gostaríamos. Desistimos de nós mesmo por culpa da mente.

Foi ai que começou o objeto da iluminação: E se tudo fosse silêncio, o que restaria? Se não existissem palavras ou pensamentos… Se a mente não existisse, eu ainda existo? Comecei a me concentrar no mais profundo silêncio, não escutava nada, nem palavras, nem pensamentos, mi concentrando apenas nesta pergunta. Percebi que se tudo fosse silêncio, grande parte do nosso dia seria muito estranha de entender. Porque, sem a comunicação, o que sobraria? Corpos que se movem, que precisam estar juntos, que precisam comer, beber, defecar, se reproduzir… Sem a comunicação ou a mente tudo se transforma em uma simplicidade absurda. Sem a mente não existem dúvidas, sem o pensamente existe apenas a ação.

Eu comecei a examinar todas as nossas ações cotidianas. Se precisamos estar junto de outras pessoas, e por isso precisamos nos comunicar com elas, porque não estamos sempre junto? Percebi, que com a comunicação, preferimos estar junto com a idéia de pessoa, sem nos preocuparmos tanto com a necessidade de estarmos fisicamente perto da pessoa em si. Ou seja, analisando uma pessoa que fala ao telefone, ou que se comunica pelo computador ou mesmo que assiste televisão, eles não estão junto com pessoas, eles não estão fisicamente perto de outras pessoas, mas sim junto com a idéia da pessoa em si. Paradoxalmente, estar junto com a idéia da pessoa, sua voz, sua imagem, ou mesmo junto com o texto sobre uma tela de computador ou uma carta que foi escrita por uma pessoa querida, nos traz conforto. Se pensarmos, esta última é uma abstração completa do que uma pessoa pode ser, e, para nós, naquele momento, aquelas letras não são apenas pixels ou tinta, mas sim a pessoa em si, e, independente de ser apenas a mais absoluta das abstrações, ela nos traz conforto, nos faz pensar que não estamos sozinhos, que, mesmo separados pelo espaço, naquele momento estamos juntos. O outro paradoxo é que, quando entramos em uma festa lotada ou quando estamos em meio a uma grande multidão, mesmo estando completamente cercado de pessoas, podemos nos sentir sozinhos. Como é possível? Analisando tudo no silêncio completo, como é possível que uma pessoa mesmo sozinha, se sinta acompanhada e uma pessoa acompanhada se sinta sozinha? Voltamos sempre a mesma resposta: é a mente, nossa arqui-inimiga. Essa maldita que temos que vencer para ganharmos a guerra mais importante e talvez a única que precisaríamos realmente lutar nesta existência. No silêncio fica tão simples entender que deveríamos estar perto de quem amamos e também abertos a novas amizades. Pois, assim, quando sozinhos utilizaríamos a solidão para conhecermos a nós mesmos e quando em companhia, mesmo de desconhecidos, aproveitaríamos o tempo para conhecê-los melhor, ou simplesmente da sua companhia.

Depois de questionar a mente, eu questionei o corpo. E se não existisse o corpo, eu ainda existiria? Subitamente eu percebi que, sem a mente, esse corpo parecia estéril, vazio, uma simples máquina que precisa apenas comer, fuder, cagar e dormir. Fechando os olhos, conseguimos abstrair o corpo, e, nos concentrando, não pensamos que somos a pele que o cobre ou os órgãos que o fazem funcionar. Somos alguma outra coisa que está além do corpo. Com os olhos abertos ou fechados, eu existia, em algum lugar. Quem eu era realmente? Quando eu fecho os olhos e me concentro, todo o resto do mundo pode desaparecer, mas a sensação de identidade, de quem sou, se concentra em algum lugar no alto do corpo, na cabeça. Mais especificamente em dois pontos, entre os olhos onde dizem existir o terceiro olho e no topo da cabeça, que agora que penso, exatamente no lugar onde os judeus colocam o chapeuzinho, o kipá. Me concentrei ainda mais, tentando descobrir onde eu realmente estava. O terceiro olho desapareceu e a sensação de eu, ficou apenas concentrada ali, no topo da cabeça. Era dali que vinham os pensamentos, da parte mais alta do meu corpo, do alto da cabeça. Me veio súbito a idéia, será que é por isso que todas as idéias de Deus e de sabedoria e de tudo mais são relacionadas com o céu, ou com o cara lá de cima, ou o ser superior. Será que esse ser superior que devemos nos conectar não seria nós mesmo, que na verdade estamos sempre ali, no alto? Na parte mais alta de nós mesmos.

Por isso veio a outra pergunta… Mas onde estou? Estou verdadeiramente dentro desse corpo? Ao mesmo tempo que eu sentia que sim, ao mesmo tempo era como se, daquele ponto, do alto da cabeça, tivesse uma conexão, como feixe de luz, ou alguma coisa do gênero que me ligasse a algum outro lugar, alguma outra coisa. Comecei a seguir o feixe pra ver onde chegava, mas me desconcentrei.

Me aprofundando nos pensamentos de ontem, agora refleti sobre uma outra coisa. Os Hare Krishna sempre me disseram que quando uma pessoa diz o MaraMantra – Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare – a palavra Krishna não é apenas uma palavra que representa Krishna, mas sim, o próprio Krishna na forma de som. Eu nunca tinha completamente entendido isso. Entendia o que eles queriam dizer, mas sempre ficava aquela duvida, como assim? Hoje, desenvolvendo o pensamento que as palavras escritas pela pessoa, representam para nós a própria pessoa. Percebi que, quando amamos, o seu nome também a representa. E por isso, quando uma pessoa repete um mantra, ou se concentra no nome de Krishna, ou de Deus em geral, com amor, é como se o próprio estivesse perto. Do mesmo modo como quando pensamos em alguém querido.

Vou tentar me aprofundar em tudo isso. Acho que sem querer finalmente descobri o que é a meditação.

Tentem se concentrar nesta idéia: Se tudo fosse silêncio, o que sobraria?
E me digam o que encontraram. Ou quem encontraram…
Um beijo e boas descobertas.

Anúncios