UMA GAROTA TEMPESTUOSA. Um conto de Glauber Serafim

UMA
GAROTA TEMPESTUOSA



Um
conto de

Glauber N. Serafim

Roberto diz que ela é molhada e gostosa. Já Marco, que quando a vê chegando preferi evitá-la. Jonas a trás sempre pra casa. Mateus falou que ano passado ficou doente por ela. Mas o pior aconteceu com Jorge, ela o arruinou, lhe levou a casa, o carro, a família, não lhe deixou nada.

Ela é imprevisível, impulsiva e incontrolável. As vezes a gente espera, espera e ela nada. Mesmo que todo mundo esteja falando dela e que tenha certeza que ela aparecerá. Não se pode confiar, ela não tá nem aí. Vive no mundo das nuvens e nem liga para o que os outro pensam. Outras vezes, sem que ninguém espere, chega berrando, violenta, cai com tudo, de cabeça e na cabeça. Salve-se quem puder. Os incomodados que se retirem. Não é fácil não. Quando ela tá furiosa então, vixe! Sai da frente que vem pancada. Destrói tudo. E seus amigos? Um trovejar de insultos. Não resta nada em pé.

Falando bem ou falando mal, a verdade é que ninguém consegue viver sem ela. É como se ela trouxesse consigo a vida. Não tem uma pessoas no mundo que não a conheça. Ela tá sempre na TV, nos jornais, nas revistas. Tá na boca de todos. Quando não se tem nada pra dizer, então falamos dela. O assunto universal. É imbatível, você chega no ponto de ônibus e a senhora do seu lado te pergunta: você acha que ela vai descer hoje? E um bate-papo descontraído começa, mesmo com alguém
que você nunca tenha encontrado anteriormente. Tem quem se irrite, acha banal:
Por favor, não me venha falar dela!

Ela é muito egocêntrica. Adora deixar seus rastros pela cidade e ser o centro das atenções. Todo mundo é obrigado a saber quando ela passa. A maioria das vezes é
rápida, efêmera, ninguém nem dá bola. Mas tem vezes que ela faz a festa. Agora sim. Nossa senhora. Dias e dias pra limpar toda a sua folia, concertar os seus estragos, reorganizar a sua bagunça… reaparecem os fotógrafos, os jornalistas, as entrevistas, as reportagens, as primeiras páginas. Faz inveja a qualquer celebridade.

Tanta gente, em meio a um dia atarefado já berra no primeiro segundo que a encontra: Ai não, agora não. Me da cinco minutos por favor. De novo não. Não acredito, bem hoje que tô com esse sapato. Eles reconhecem que seu encargo seja de importância vital, mas preferiam não vê-la. Secretamente desejam que ela estivesse do outro lado da cidade. Ou no máximo, que viesse quando eles estivessem no escritório, relaxados e tranqüilos. Alí sim eles podem esperá-la passar e calmamente escutá-la por horas e horas. Mas no meio da rua? Por favor, não me aporrinha que eu tenho mil coisas pra fazer e, ainda por cima, já tô atrasado.

Seu perfume é inconfundível. Já de longe sabemos que está se aproximando, que vem chegando ou que já passou. Seu toque dá arrepios. Os pêlos se ouriçam. Dizem
que pode ser cortante como canivetes ou transgressivamente dourada. Corroer como o ácido ou incandescente como os meteoros. Mas ela é meio louca. Mais precisamente desvairada. Sem que você lhe faça nada, pode aparecer cheia de pedras, te destruir a casa e ir embora. Assim. Sem nenhuma explicação. Nada.

A sua personalidade agressiva faz com que muitos a temam. Conscientes disso, povos inteiros esperam incansavelmente pela sua misericórdia. Se não aparece por alguns meses começam a se preocupar: rezam por ela, sonham com ela, pedem por ela. E finalmente quando chega, fazem de tudo para tocá-la, para senti-la, ou ainda melhor, se as circunstâncias permitirem, penetrá-la. Multidões se deslocam pelos seus caprichos. Para nós, que a encontramos continuamente, é estranho pensar em todas
essas pessoas assim sedentas para revê-la. E ainda por cima são supersticiosos. Dizem que ela faz milagre, que sem ela a vida não tem sentido e que longe dela tudo inicia a minguar. Que a sua presença é envolvente e transforma completamente o dia. Como se a vida renascesse da aridez da sua ausência. Tudo muda de cor e de sabor. E em contato com o seu amor e compaixão, vemos despontarem arco-íris pelo céu, flores pelos campos, rios em meio ao deserto de nossos sentimentos. O ar fica mais limpo e o mundo suportável.

Em outros lugares ela se aloja por meses. Milhares de pessoas ficam completamente condicionadas a sua agenda. Até as estações a esperassem para mudar. Todos os dias, por horas e horas a escutam. E sua música, de relaxante, começa a preocupar. A cidade se enche com a sua presença e ela convida a todos a saírem de casa. É uma calamidade não obedecê-la. Ela é tão convincente que literalmente nos afogamos na sua determinação.

Por todas essas suas peculiaridades tem quem já desenvolveu seu próprio jeito de pressenti-la: é uma fisgada no joelho, uma dorzinha no dedão do pé, um arranhar na garganta. É quase um super-poder: Dona Maria, a senhora pensa que ela vem essa noite? Oi meu querido, hoje não, sabes que não tem erro, sempre que ela tá chegando eu sinto aquela coceirinha no nariz. Sim, sim, a senhora nunca erra.

Depois têm os preguiçoso. Para eles não tem nada melhor que uma coberta, uma televisão e passar o dia com ela. Mesmo porque, se ela te pega de jeito, te mete na cama súbito. Desde pequeno, quando Fulano ia encontrá-la, sua mãe com toda a tranqüilidade desses tempos modernos lhe perguntava sem embaraços: Ta levando proteção meu filho? Ele timidamente desconversava: Ai mãe não vou fazer nada, não precisa. Mas ela insistia: nunca se sabe meu filho. É melhor prevenir. Não quero te ver doente. Ele odiava e, pra piorar, nenhum dos seus amigos usava. E quando ele tentava explicar que fora sua mãe que lhe comprara, daí sim que eles riam da sua cara. Mas, o tempo passou e a sua relação com ela mudava gradualmente. Mesmo conhecendo-a da uma vida ele percebeu que era melhor encontrá-la prevenido. Nunca se sabe o que pode acontecer. Ela adora esses encontros casuais. E por fim, a maturidade trouxe consigo uma nova resposta: não se preocupa mãe, tá na bolsa.

Outros dias ela fingia não querer nada. Ficava ali fora fazendo finta de ignorá-lo. Vinha de leve, suave, delicada. Era diferente do normal, não o inunda com a sua presença avassaladora. Seu jeito malicioso fazia com que tantos se submetessem ao seu charme e por isso ganhara a fama de “engana  bobo”. Esses pensavam que ela não lhes pegaria, mas, quando se davam conta estavam completamente subjugados. O pior era voltar pra casa. Ela tinha deixado suas marcas por toda parte. Ele tentava limpar-se rapidamente mas a sua esposa chegava implacável e lançava a avalanche de perguntas: Você esteve com ela, não é? E ainda sem proteção? Mas você é estúpido? Quer ficar doente é? E depois tem a cara de pau de vir pra cama comigo e passar pra mim. Ela está por tudo em você. Vai tomar um banho imediatamente! Resignado, ele obedece sua mulher, seguro que ela vai lhe perdoar.

Para fugir dessas situações, ele fazia de tudo para evitá-la: mudava de direção, atravessava a rua, corria, cobria o rosto, sempre buscava um modo de escapar. Mas
naquele dia era incontrolável. Um calor asfixiante o sufocava, e ele sabia que só ela poderia aliviá-lo. A vontade lhe dominava, era excitado só de pensar. Queria se sentir dentro dela, senti-la escorrendo pelo seu corpo, seu toque, seu perfume, seu sabor. Banhar-se na sua intensidade. Ela o esperava ali fora. Não conseguia resistir. Se desvencilhou de todas as suas barreiras sociais e se entregou completamente a sua companhia. E assim, sem pensar, a penetra, com os olho fechados, concentrado, bem no meio da rua, ela vem enlouquecida, por cima dele, giram, juntos e na frente de todo mundo ele sente sua umidade, intensa, insubstituível. Em um segundo ele estava ensopado, as gotas lhe escorriam por tudo. O prazer lhe inundava. Era relaxante, transgressivo, desintegrava todos os compromissos, os problemas, as precauções. Era como se fossem só os dois, ali, um dentro do outro, um junto do outro. Ele queria berrar o seu nome, mas se conteve. Mesmo que a conhecesse de tantos modos: tempestade, enxurrada, tromba d’água… naquele momento simplesmente sussurrou: Chuva.

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