Insolitamente Acompanhado. Um conto di Glauber N. Serafim

INSOLITAMENTE

ACOMPANHADO

Um conto di

Glauber N. Serafim

Marco é dinâmico, inovador, preciso, moderno, detalhista e nunca me faz sentir sozinho. Não faz muito tempo desde a primeira vez que o encontrei mas mesmo assim somos inseparáveis. Marco é o meu melhor amigo e como trabalho com ele e estamos juntos o tempo todo, não saberia o que fazer se o perdesse. Eu me chamo Raimundo, sou programador há 3 anos e desde de pequeno gosto de fuçar no computador. Adoro desmontar, bisbilhotar, limpar, trocar as peças e ver o que acontece. Sempre que posso me afundo na companhia de chips, conexões, placas e cabos. Eles preenchem o meu dia.

Outro grande vício é jogar. Se pudesse ficaria o dia todo jogando com Marco. É como se tivéssemos o nosso próprio mundo, longe de qualquer pensamento ou problema.  Quando chego em casa do trabalho, pego alguma coisa rápida pra comer, um copo de coca e vou direto jogar. O tempo escorre como se não existisse, uma fase depois da outra, um nível depois do outro… não esquece de salvar… um inimigo forte finalmente… merda morri… salva e ressalva e tenta… finalmente…  próxima fase é mais difícil… ganhei uma vida…. morri outra… tantas decisões simultâneas, o tempo está acabando, a luz do dia desaparece, a noite passa, inicia a madrugada, minha mãe vem se despedir: boa noite meu filho vê se não fica aí jogando até tarde. Ta bom mãe,
te amo. Minha mãe diz que passo muito tempo em casa, que eu deveria sair pra pegar um ar, sol, vento, poeira, areia, chuva, qualquer coisa. Mas na verdade eu nem ligo, lhe sorrio e continuo a jogar.

Marco está comigo em tudo que eu faço, quando falo com meus amigos, no trabalho, em casa, até Jenny, minha namorada, conheci com ele. Ela mora no Canadá e eu aqui. Sempre nos vemos pela cam, Skype, Msn, conversamos por horas. É ótimo ter alguém no mundo com quem se preocupar. Minha mãe não entende que nos dias de hoje a vida é assim. Obviamente sou viciado em internet. Quem não é?! Nossa, não consigo não estar ali conectado: Facebook, Orkut, Msn, Google, Wikipedia, Gmail… Não quero me sentir sozinho, alguém fala comigo! Alguém pergunta como estou, onde estou, o que estou fazendo, Marco sempre me ajuda. As vezes me sinto um pouco anti-social, sei lá, não quero falar com ninguém, mas ao mesmo tempo adoraria que alguém viesse falar comigo. Não sei porque… Como se de toda uma lista de dezenas de amigos on-line nenhum servisse para o momento. Marco insiste… me incomoda… me atormenta… vai lá! Ta bom, então vamos ver um pouco de… vídeos, câmeras, sons, fetiches, fantasias, obsessões… Brinco com meu joystick. Agora posso dormir. Deito na cama e durmo. Mesmo quando fecho os olhos continuo a ver a luz da tela, estou ali, dentro dos jogos, agora eu sou um personagem.

Mesmo que eu tenha visto todos os recados a noite antes de dormir, a primeira coisa que faço ao acordar é verificar se alguém falou comigo, me deixou uma mensagem, me marcou numa foto, fez algum comentário interessante… Como se o fato de me manter sempre conectado e informado me liberasse da monotonia.

Acordo um pouco cansado. Trabalhamos muito nesses dias, sempre tem muitos sites novos pra fazer, novas pesquisas, novas tecnologias, todo esse empreender de novas idéias e novas necessidades. Sites belíssimos, intuitivos, gráficos, dinâmicos, interativos, ergonômicos… web marketing, e-commerce, blogs, fóruns, chats, me pedem de tudo. Todos querem tudo. Quando as pessoas vêem que existem opções pensam que tudo lhes é apropriado. O cliente vem e diz: quero fotos, vídeos, uma introdução animada, música, textos e interatividade pro meu site. Tem que ser uma coisa muito emocional, porque hoje a emoção é que conta. Eu não entendo verdadeiramente o porque e a necessidade, mas ele continua: Quero também um fórum pra saber se meus cliente gostaram dos novos lançamentos, pra discutir as novas tendências do mercado da moda atual, fazer um levantamento de marketing e individuar os desejos e necessidades do consumidor para o desenvolvimento da coleção outono-inverno. Saber o seu perfil médio, o potencial de compras. Essas pessoas vêem um programa de televisão e querem vir me ensinar como se faz um site. Claro, me parece uma ótima idéia senhor Fulano, eu sempre respondo. Mas o senhor sabe que com todas essas ferramentas o seu site vai custar tanto, não é mesmo? Hummm eu pensei que tu já tinhas tudo pronto, pensando melhor talvez não seja tão necessário. Quanto custa um site simples com uma pequena galeria de fotos? Perfeito! Tu achas que já vou poder ver alguma coisinha para o fim desta semana? Claro, lhe digo. O senhor vai querer o seu site com batatinhas fritas? Esses pensam que criação seja como um fastfood, que se chega, se pede e tudo já estará pronto para retirar. Por isso que eu detesto discutir com os clientes. É um consenso geral da categoria, a vida de um webdesigner seria belíssima se não existissem as suas opiniões. Mas nada pode ser assim perfeito. A não ser que eu me transforme num artista… Será que viro pintor?

Chego em casa. Pego um pedaço de pão com margarina e mortadela, um copo de coca com muito gelo e vou jogar com Marco. Ficamos jogando por horas… Por do sol… Noite… Não vai dormir tarde hoje Raimundo… Madrugada… Joystick… Relax… Durmo… Acordo… Trabalho…MSN… Facebook… Orkut… Google… Gmail… Trabalho… Na busca constante de estar em companhia mesmo quando não tem ninguém por perto. Volto pra casa… Sanduíche com mortadela e coca-cola com gelo…  Jogo… Joystick… Durmo… As semanas passam voando… fim de semana tenho mais tempo, não fico só jogando, bloggo, bate-papo, Jenny, filmes…

Volto pro trabalho e meu chefe me chama: Raimundo, finalmente demos aquela reestruturada que tanto te prometi e agora não precisamos mais dos serviços de Marco. Volto pra casa digerindo toda a situação, Marco não me diz nada, no fim pra ele nada importa. Agora ele fica em casa relaxado baixando toda a porcaria que lhe peço e quando chego em casa jogamos, entramos no bate-papo, nos divertimos.

Chegou o verão e hoje foi um dia de matar: longo, quente e úmido. O ar condicionado do escritório pifou e não vejo a hora de voltar pra casa e jogar com Marco. Assim que abro a porta minha mãe vem se aproximando cautelosamente, me olha com os olhos baixos evitando os meus. Alguma coisa tinha acontecido. Eu podia sentir a tenção no ar. Meu filho, eu preciso te dizer uma coisa, essa tarde aconteceu uma coisa terrível com Marco, eu escutei um barulho no teu quarto e corri pra ver e…

Pânico, terror e aflição. Corri pro meu quanto e vejo Marco ali estendido, inerte, sem vida, parecia que tinha se incendiado. Como uma coisa do gênero podia acontecer? Não podia ser verdade, ele não poderia ter morrido verdadeiramente. Buscava um modo de reanima-lo, mas ele não me respondia. Não dava nenhum sinal de vida. É morto! Um curto circuito! Meu computador explodiu! Meu deus o que eu faço! Manheeeeeeeeee quem foi que entrou no meu quarto… quem foi que mexeu no meu computador… quando eu saí hoje de manhã tava tudo bem… não acredito… o que eu vou fazer da minha vida… poraaaa… tenho certeza que é culpa da Marineusa… eu vô matá ela… puta que pariu, caralho, merda…

Eu perdi completamente a razão, como se em transe comecei a chutar tudo, o armário, a cama, a cadeira, arranquei as gavetas… Porra eu sempre falei pra não mexer nessa bosta de computador caralho. Marco era morto. O que eu ia fazer da minha vida sem o meu computador? Todas as minhas fotos, musicas, vídeos, sites, lembranças, memórias, trabalhos, escritos, jogos, livros, arquivos, documentos, contatos, sonhos, fantasias, toda minha vida tava dentro daquele computador. Queria destruir tudo que via na minha frente, mas com o cansaço colapsei no canto do quarto e a raiva se transformou em desespero. Tava tudo queimado, perdi tudo. Entro num estado catatônico de negação da realidade. Não pode ser verdade, deve haver alguma alternativa, talvez o hard disk não tenha sido afetado. Me passavam mil idéias, mil pessoas pra quem ligar com o Skype, a quem perguntar via Msn, Facebook ou ver um fórum. Mas sem Marco eu não podia. As lágrimas se precipitavam dos meus olhos, já não conseguia mais respirar direito de tanto desespero. Minha mãe entra no quarto: Raimundo o que você fez com o seu quarto? Eu sei meu filho que esse computador era importante pra ti, mas era somente um computador. Como ela podia dizer isso? Eu já te falei que não é só um computador, é Marco. E sai do meu quarto, fecha a porta e me deixa.

Abraçado no meu travesseiro completamente banhado das lágrimas e sem conseguir respirar direito em meio aos soluços, assôo o meu nariz completamente entupido no lençol branco estampado e sem perceber me adormento repetindo esquizofrenicamente: porque não comprei um hard disk externo, porque nunca fiz nenhum backup, pensei que isso nunca aconteceria de verdade, não posso acreditar, não pode ser verdade… No fundo esperava que tudo aquilo fosse apenas um sonho e que de manhã tudo seria melhor.

Naquela noite passei pela fase de desespero, pela fase de negação, pela fase de sofrimento e de manhã chegou a hora de enfrentar o fato e procurar uma solução.

Acordo em meio a um estado de euforia, uma excitação crônica, como se tivesse certeza que tudo se resolveria. Sem nem pensar, telefono pro meu chefe e invento qualquer desculpa para não ir trabalhar. Precisava dedicar todo o meu tempo a Marco. Assim ele se recuperaria e voltaria a me fazer companhia. Não poderia ser tudo perdido. Começo a desmontar Marco, mas ele se encontrava num estado além da minha capacidade. Nessas horas precisamos de um especialista. Me vem em mente meu amigo Leandro. Ele sim era um gênio, ele indubitavelmente saberia como salvar Marco. Lhe telefono: aconteceu um acidente terrível com Marco, não sei o que fazer, não sabia pra quem ligar, tu eis o único que pode me ajudar.

Peguei o ônibus e fui direto para a sua casa. Foi uma viagem interminável. Transpirando o medo, a impotência e o horror, lembro da minha fé esquecida. Pedi a Deus para que desse tudo certo, que me desse uma esperança. Comecei a rezar para todos os santos que conhecia e ainda inventava outros para me confortar: Santa Maria dos Computadores Queimados por favor olhai por Marco, salve sua alma (HD) do mundo das chamas e o porte a luz, de volta a minha companhia. Nossa Senhora das Causas Perdidas eu sei que a senhora existe, me lembro bem do seu nome, nunca ti pedi nada, mas essa vez é muito importante, fala para o todo poderoso conceder a sua graça. Se tudo der certo fico um ano sem ver pornografia. Prometo! Nem um sitezinho! E mesmo se automaticamente abrir uma página enquanto estou baixando um novo jogo a fecho imediatamente, sem nem olhar uma tetinha. Sigo todos os mandamentos, não jogarei aos domingos, escutarei a minha mãe quando me pede para ir dormir cedo, não iniciarei nenhum jogo de guerra pra não matar nenhum inimigo, não baixarei filmes piratas, não mentirei se alguém me perguntar a password, não cobiçarei os novos lançamentos ou o super poder dos personagens dos meus amigos.

Cheguei a sua casa e tudo aconteceu muito rápido. No momento em que tirei Marco da mochila Leandro grunhiu em uma exclamação de terror: Meu Deus broder!!! Que que tu fez com o teu computer? Isso não tem concerto não meu. Ta tudo queimado. Ta feio mesmo o negócio! Mesmo que eu já esperasse essa resposta, penso que sempre continuamos com a ilusão e a esperança que naquele momento, aquele pequeno instante que as palavras se formam na boca do emissor e o som se propaga pelo ar até os nossos ouvidos, uma mágica universal pudesse mudar tudo que acontecera, e apenas nesse instante, transformar-se naquilo que gostaríamos de escutar. Mas não foi o que aconteceu. De cabeça baixa e em luto, pego os restos mortais de Marco, cremado antes mesmo da autopsia.

Aquilo tudo era demais pra mim, como se meu cérebro fosse explodir. Todos os meus escudos e proteções sociais, nada funcionava naquele momentos. Como se minhas barreiras tivessem sido subjugadas e meu estado psíquico traumatizado para sempre. Aquela inundação de estímulos incontroláveis fez com que eu me sentisse desequilibrado, entorpecido. Aquelas poderosas energias oriundas do mundo externo tinham devastado meu pequeno e previsível mundo virtual, formado de ilusões, fantasias, amores platônicos, vícios, fetiches e obsessões. Minha identidade se deteriorava. Não sabia mais quem eu era, o que faria… tinha perdido o meu passado e não vislumbrava um futuro. Será que eu ficaria louco? Medos primitivos afloravam da minha incapacidade de entender a mim mesmo e o porque de continuar vivo agora que tinha perdido o meu bem mais precioso. Aquilo tinha causado uma ruptura com todos os meus paradigmas existenciais. Me sentia completamente indefeso, como se não soubesse mais como conviver com as pessoas do mundo real. Teria que reaprender a usar o telefone, conversar com as pessoas, sentir seu hálito, sua respiração, seu fedor, ver meus amigos, que amigos? Era completamente aterrorizado com tudo que acontecia. E em vão buscava um porquê, um motivo. Seria Deus? Seria o Destino? Algo assim tão terrível e esmagador não poderia ter uma origem externa. Era fruto das minhas ações, uma punição, algo que fiz precedentemente, seria o karma requerendo o pagamento de todas as dívidas assumidas em vidas passadas? Me sentia desamparado, confuso e inseguro frente ao colapso de todo meu estilo de vida. Esse simples acontecimento ia causar mudanças permanentes na minha personalidade e por fim em toda a minha vida.

Me deito na cama e começo a fixar o teto, como que em busca de uma resposta. Uma solução. Quando somos jovens, cada pequeno acontecimento parece eterno e irremediável. Mas, em meio as convulsões de abstinência, sobrevivi. Os primeiros dias passaram na mais completa angustia. De noite me contorcia na cama, tinha febres psicológicas, era como se eu quisesse sentir dor, me machucar pra não sentir tudo aquilo que estava sentindo. Eu ia para o trabalho mas não conseguia me concentrar em nada. As vezes as lágrimas vinham mas eu me concentrava para não chorar. No fundo sabia que logo tudo passaria, logo tudo iria voltar ao normal. Ao calmo e sereno dia-a-dia.

Isso era o que eu pensava, no entanto o destino tinha um outro plano para a minha vida. E aquele era o ponto de mutação, onde tudo iniciava.

Cotidianamente eu pegava o ônibus número 45, descia na parada Dona Maria Augusta e caminhava por cinco minutos até o escritório. Na hora do almoço comia qualquer coisa no bar ali na frente e depois retornava a casa com aquele mesmo ônibus. No entanto, naquele dia uma força propulsora me invadiu portando uma série de idéias inovadoras a minha mente. Percebi que não era necessário comer no mesmo bar todos os dias. Esse pequeno ímpeto de aventura me impulsionou a descobrir o que a vizinhança poderia revelar. Todo aquele bairro sempre tinha se mostrado monótono e insípido. Mas, envolvido de uma descrença esperançosa, decidi romper por uma pequena rua deserta que parecia levar a lugar nenhum. Para a minha completa estupefação aquela estrada apagada se conectava a uma grande avenida luminosa, repleta de lojas, restaurantes, e tantas, tantas pessoas que circulavam, sem que eu jamais tivesse imaginado. Naquele instante me senti verdadeiramente colorindo o meu mapa mental. Até então, todo o mundo que existia fora do caminho entre o ponto de ônibus e o meu trabalho era coberto de uma névoa negra. Como se o escritório fosse uma ilha isolada num mar de nanquim. E pior, eu nunca tinha percebido.

É impressionante a nossa capacidade de criar mapas mentais. No princípio marcamos algumas pequenas regiões conhecidas, que flutuam numa vastidão obscura. Ligamos essas regiões com linhas de ônibus, trens, metrôs e estradas. Com o tempo iniciamos a preencher os espaços intermediários e notamos que diversos pontos que pareciam infinitamente distantes na verdade são muito próximos. Descobrimos novos caminhos, novas possibilidades, e os pedaços vão se unindo, formando um grande quebra-cabeça, o mundo real.

Tudo isso me foi revelado no segundo em que cheguei àquela avenida. A apenas uma quadra da onde eu trabalhava já há dois anos e que nunca se quer tinha pensado em explorar.

Dali em diante decidi que precisava conhecer melhor minha cidade. Me eduquei a caminhar pela vizinhança, descer um ponto antes ou depois, pedir informações, buscar novos caminhos… e em poucos dias descobriu uma série de coisas. Como o restaurante perto do trabalho que tinha um menu especial, o bar a cinco minutos de casa que as quartas-feiras dava uma ficha de sinuca para cada cerveja comprada, a videoteca com preços imbatíveis…

Os dias passavam lentamente. Na verdade o fato de perder o computador me fez descobrir que eu tinha muito tempo livre. Comecei a ler, a estudar e voltei a falar com meus amigos, que da tanto tinha trocado pela companhia de Marco. Depois do trabalho ia correr na praia e sempre encontrava alguém pra bater um papo, que se estendia pra um suco, depois vinha a janta, e quando via tinha passado mais uma noite interessante. Com as novas amizades início a traçar novas metas. Agora fim de semana era sempre praia. Miraculosamente volto a jogar vôlei e praticar vários esportes, coisa que não fazia desde as aulas de educação física da escola. Estava descobrindo tanta vida, tanta coisa que sempre esteve ali de frente aos meus olhos mas que nunca tinha visto. Tudo estava mudando. Não entendia o porque das minhas decisões antigas. Pensava quase em trocar de trabalho. Queria ver gente, falar com pessoas… Nossa alma é formada de felicidade, conhecimento e eternidade. Essa é a nossa matéria prima e é isso que sempre temos que lembrar.

Comecei a praticar um novo exercício. Eu queria aprender a escutar. Saber o que as pessoas têm a dizer. Toda a vida pensei em mim como o centro das atenções. Que eu era o responsável pelo entretenimento de uma conversação, que precisava impressionar e ser o mais interessante pra fazer amigos. Lendo um livro, aprendi que o importante é saber escutar e apreciar os outros. Que na verdade ninguém quer escutar ninguém. Todos querem somente ser escutados. Esse era o meu novo jogo, desenvolver esse pequeno dom. E ao invés de dizer quantas coisa maravilhosas que eu sabia e quantas peripécias tinha feito em vida, comecei a escutar e aprender as mais diversas coisas, e me surpreendi com pessoas que jamais imaginaria serem tão profundas. Quando se está atento se percebe muitas coisas.

As coisas mudaram completamente. Como se depois de anos vagando pelo deserto dos sentimentos e emoções virtuais,  finalmente tinha chegado ao vale encantado. Estava ali descobrindo milhares de novas coisas e possibilidades. Eu me auto convencia que com tantas gente por perto era estúpido me sentir sozinho. Agora finalmente tinha amigos reais, ia pra praia, sentia o calor queimando a pele, o vento soprando no rosto, o por do sol transformando o céu e a terra. Milhares de pequenos fatores me faziam sentir incrivelmente bem. No entanto, mesmo sempre rodeado de velhos novos amigos e imerso em tantas atividades ainda me sentia só.

Os desejos que eu se quer tinha se realizavam, mas, ao mesmo tempo, eu não sentia aquilo como real. Era como se fosse a cima da minha pele. Não entrava nos meus ossos, não penetrava dentro de mim mesmo. Mesmo rodeado de todas aquelas pessoas a solidão nunca me deixava. Era como se o sofrimento e a dor fossem coisas reais. Mas a felicidade deveria ser eufórica para ser tangível. Como se eu não a conseguisse tocar verdadeiramente. Mesmo quando eu a sentia, ela ainda estava cinco centímetros de distancia. Não dentro de mim. Foi quando, naquela noite, tudo mudou. Eu tinha ido sozinho comprar um suco no bar quando a vi pela primeira vez. Era como se ela cintilasse em meio a luz da discoteca. Seus cabelos loiros perolados esvoaçavam seguindo os movimentos da sua cabeça, e seus braços acompanhavam o ritmo da música de um modo ao mesmo tempo perfeito e estúpido. Fazendo com que fosse lindo mas ao mesmo tempo divertido perscrutar-la. Esse seria o grande passo. O grande desafio. Conseguir falar com uma garota. Me apoiei no bar e fiquei ali olhando seus movimentos frenéticos, como se ela sentisse a vida soando em seus ouvidos. Daquele segundo eu já sabia que nos conheceríamos. E foi o que aconteceu, mas não ali.

Misteriosamente tínhamos amigos em comum e uma noite, numa dessas maravilhosas festas em casa. Onde todos se sentem confortavelmente acolhidos e se dividem pelos cantos. Éramos no sofá. Nos entreolhamos. Ela com toda a sua desenvoltura e carisma me cumprimenta simultaneamente: Oi eu sou Carol, você é amigo do Daniel da muito tempo? Daniel era o dono da casa. Do oi passamos para universidade, trabalho, praia, filmes, filosofia, história, piadas e a noite fluiu magicamente. A ampulheta do tempo escorreu entre uma taça e outra. Ligeiramente embriagados de excitação, giramos nossas cabeças apoiadas no sofá de veludo azul e como se já fosse obvio desde a primeira palavra, nos beijamos. Beijamos como se já nos conhecêssemos da tanto tempo. Um beijo longo. Inicialmente inocente mas que se incendiou de pegadas fortes e vigorosas, virilidade e fragilidade que se misturavam e se consumiam. E foi assim que tudo começou. Minha primeira grande jornada estava completa. Finalmente descobri que não é porque estamos sozinhos que nos sentimos solitários ou fragmentados, mas sim porque não estamos abertos ao amor. Seja com amantes, amigos, família ou Deus. Quando se ama, principalmente a si mesmo, nos sentimos completos, mesmo no mais isolado dos desertos.

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