Pulsão de Morte

As vezes nos sentimos derrotados não porque não realizamos nada de importante em nossas vidas. Mas sim porque não conseguimos controlar nossos desejos e impulsos. Principalmente o desejo sexual que, segundo Freud é a fonte de todas as nossas decisões. E se o conseguíssemos controlar, esse seria o primeiro passo para percebermos que podemos fazer tudo.

 

Cada dia, principalmente a partir da observação e da convivência com os outros, percebo o desejo de autodestruição que muitas vezes alimentamos dentro de nós. Gostamos de alimentar a dor e o sofrimento como se fosse isto nos fizesse sentir vivos. Como quando vamos na academia e gostamos que doa os músculos no dia seguinte, para lembramos que temos um corpo. Lembro que uma vez li Merleau Ponty e ele falava da pulsão de vida e da pulsão de morte. Um sofrimento constante que sentimos dentro, uma dor que não dói. Mas queremos sentí-la, e por isso nos machucamos. Cada um tem sua forma de se machucar, seja com amores impossíveis, vidas sexuais insaciáveis, esportes radicais, autonegação dos sonhos, exacerbação de pequenos defeitos, e tantos outros. Estes podem se desenvolver ainda patologicamente, criando verdadeiras doenças. Ou também, podemos busca por pequenas doses de sofrimento que nos satisfaça, seja no sexo, seja no cigarro, seja no álcool… Uma belíssima bebedeira nos garante a cota de sofrimento da semana, uma belíssima ressaca. Como satisfaz. Dor de cabeça, vomito, se sentir verdadeiramente mal para quando tudo passar se sentir bem.

O impulso de morte assume vários disfarces, tantas vezes mesmo sabemos que ele está ali, fazemos de tudo para que ele continue. Alimentamos uma pequena dor constante, como que reservando pequenos elixires da felicidade: esse probleminha eu deixo pra resolver depois, assim quando preciso me sentir feliz resolvo e tudo fica perfeito, mas pro momento estou bem obrigado. Essa atitude guia decisões cotidianas como por exemplo: Tenho que lavar a roupa… não precisa ainda, tenho mais uma cueca… ai mas se não lavar hoje amanhã vou ter que usar bem aquela que não gosto. Tenho que fazer esse trabalho, ai faço depois. O que é essa bolinha aqui no meu peito? Será que é alguma coisa grave… magina se precisa ir no médico por isso… Ai será que é grave? Trepei sem camisinha será que peguei alguma coisa? Ai tenho medo de fazer o teste agora. Prefiro ficar sofrendo de ansiedade e talvez não ser nada ao invés de saber que peguei alguma coisa realmente. Odeio o meu trabalho, mas o que que eu posso fazer? É a única coisa que eu sei fazer… Tantas e tantas decisões que tomamos no nosso dia a dia que servem apenas para nos fazerem infelizes. Isso sem contar com televisão, violência, criminalidade, fome, morte, envelhecer, guerras…

Imagina se pudéssemos agendar uma doença. Por exemplo. Um ano atrás eu marquei que semana passada eu ia ficar doente. Foi impressionante. Marquei que ia ficar muito mal durante todo o final de semana. Nem sabia o que iria acontecer verdadeiramente porque cada um de nós reage de forma diferente a cada uma dessas reservas. Mas chegou sábado a noite e tudo andava bem. Começava uma febre, que delicia. Tinha esperado tanto por ela. Porque eu sou sempre tão saudável que pra ficar doente só mesmo com tudo agendado precedentemente. Tomei dois comprimidos porque doença não é doença sem precisar tomar remédio. Tava lá sozinho em casa, sem amigos, sem família, sentindo febre, vendo tv embaixo da coberta. Me sentindo verdadeiramente miserável. Ai como era bom tudo aquilo. Tinha esperado tanto tempo. Toda aquela ansiedade. Afinal sofri todo o ano esperando aquele momento. Agora sofria claro, mas parecia ser aquilo que eu queria. Mas dae aconteceu uma coisa muito estranha. Eu lembrei que eu não era esse corpo. E tava lá de meia, de moletom, embaixo da coberta me sentindo doente. Que bom me sentir doente pensava. Mas como eu posso me sentir doente. Nem mesmo sou esse corpo. Porque tenho que me sentir doente. Dae refleti: ai ta bom, isso é tudo uma palhaçada. Se eu não sou esse corpo. Se sou imortal e indestrutível, como posso ficar na cama me sentindo miserável. De repente tudo passou. Naquele minuto. Minha belíssima febre que eu tinha esperado literalmente por todo o ano ainda estava ali, mas eu não me sentia mais doente. Tive que sair de baixo da coberta, tirar as meias, o moletom, abrir as janelas, lavar o rosto, comer 2 pratos de paella, queijo ricota (que eu mesmo tinha feito), 3 pães e suco. Lá no fundo ainda me sentia estranho, doente, mas não entendia porque tinha que sofrer por isso.

 

Somos a alma eterna e indestrutível que habita nesse corpo. Quem escolheu de vir para o mundo material fomos nós, mas agora é hora de voltar para casa. Tudo isso que eu contei não foi uma metáfora. Talvez você não entenda que isso possa acontecer mas foi exatamente o que aconteceu. E tantas vezes fazemos isso sem perceber. Mas quando percebemos temos sempre duas alternativas, perceber que todo esse sofrimento não faz parte de nós. Que tudo isso que sentimos dentro de nós é a nossa energia de vida, o amor que desperdiçamos. E através da pulsão de morte, o negamos, negando assim nossa felicidade. Uma vez negando o amor, precisamos transformar essa nossa energia interna em alguma outra coisa, assim criamos a dor, sofrermos para fazer com que essa energia que sentimos desapareça. Tudo isso porque esquecemos quem somos. Que somos a alma que mora ali dentro do nosso coração. E nos perdemos ali dentro nesse cinema, como se esse corpo fosse real, e observamos ali dentro da sala escura, todo esse filme que passa ao externo e nos identificamos com ele, e pensamos que esse filme seja a nossa vida. Mas não é. Ali dentro do cinema estamos junto com nosso amigo Deus, que está sempre do nosso lado tentando nos acordar, tentando nos trazer de volta: esquece esse filme, volta pra vida real – nos diz Deus. Não, esse filme sou eu, esse filme é a minha vida, eu sofro com ele, eu rio com ele eu sinto prazer com esse filme. Mas esse filme não é o que você é. Esse filme é apenas um filme. Na verdade um filme de terror, e você sabe disso, mas você tenta esquecer. Mesmo que você saiba que seja um filme de terror e que todos morrem no final, todos. Você não acredita.

Descobrir a pulsão de morte que domina nossa vida é um primeiro pequeno passo para grandes descobertas e revelações.

Hare Krishna

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