O Talento do Sr. Ninguém

Oi gente, semana passada li essa reportagem na revista italiana L’espresso, intitulada Il Talento di Mr. Nessuno (O talento do Sr. Ninguém) e achei super importante e interessante e me ajudou a delinear várias coisas que eu gostaria de mudar profissionalmente e mesmo pessoalmente, e a listar meus objetivos para o ano de 2009, que até então não tinha conseguido individualizar. E por isso decidi transcrever para vocês em português. Espero que gostem e que lhes seja útil. Hare Krishna

 

Existe ou não o gênio? É um dom de poucos? Não para um estudo americano. Mas existem pessoas capazes de tudo. Por determinação feroz. No rastro de “Yes, we can”.

Escrito por Veronica Salaroli

 

Os americanos têm pressa. Nem se dão conta de passarem ao lado de um dos músicos mais bem pagos, aclamados e geniais do mundo. Fariam um financiamento só para poderem ir ao teatro escutar Joshua Bell e seu Stradivarios de 1713 de 4 milhões de dollares, no entanto, alguns meses atrás quando o “Washington Post” organizou um concerto em uma estação de metrô da cidade, em 43 minutos de música Joshua arrecadou 32 dollares. Apenas uma pessoa parou rapidamente para
escutá-lo: uma criança de 3 anos subitamente carregada pela mãe. O objetivo do jogo era verificar se as pessoas que passavam teriam reconhecido ele, mas sobretudo o enorme, inacreditável talento que li vem atribuído. Bell é um desses homens que consideramos tocados dessa coisa sutil no ar, que pousa sobre alguns seres humanos. Dom? Graça? Alguma coisa a mais ao menos. Que não está aqui na terra, mas paira entre humano e divino. Que gera imediato consenso, que não podemos não reconhecer, sempre unânime. Mas então, o que aconteceu em
Washington aquele dia?

 

O talento é supervalorizado, afirmaria Geoff Colvin, escritor e editor de “Fortune”, citando o título o seu último livro Talent is overrated, apenas lançado nos Usa. A hipótese é simples e descreve um dos sensos comuns mais difundidos, que existe a genialidade, inata e dada uma vez por todas. E que essa genialidade seja evidente sempre e de qualquer forma.

 

Baseados na idéia que o talento seja um dom e não uma conquista e que, untados da graça, os poucos escolhidos façam as coisas instintivamente e com facilidade, a maior
parte de nós se contenta com um consolidada mediocridade que, se de uma parte pode gerar frustração, da outra é uma fácil desculpa que nos faz pensar que ir além dos nossos limites seja impossível. E não por culpa nossa.

 

Mozzart? Era um cdf

Diga “talento” e o primeiro nome é sempre o seu. Aos cinco anos compõe as primeiras músicas, aos oito já fazia concertos públicos. A mitologia é riquíssima. Se
Amadeus não era um talento, então quem? Possui todos os pré-requisitos para colocá-lo num mundo a parte e para demonstrar que gênio se nasce. No entanto, revendo de modo menos romântico a sua história, achamos o pai Leopold, compositor e autor de um importante manual para o ensinamento do violino, que começa o aprendizado do pequeno Amadeus aos três anos. Todos os dias música e música, transcrevia ele (e não o pequeno) as primeiras composições (não originais, mas impressionantes arranjos). Até a aparição do concerto número 9, que Mozart compõe aos 21 anos. Isto é, depois de 18 anos de trabalho, cansaço e concentração. Qualquer pai de pequeno gênio poderia desapontar-se descobrindo que Mozart tenha se transformado em Mozart trabalhando furiosamente duro, disse Alex Ross, critico musical do “New Yorker”.

 

Pode ser que mesmo esta seja uma leitura estrema do fenômeno Mozart. Mas muito experimentos recentes que confrontaram classes de jovens músicos, nas quais os
ditos talentos precoces foram misturados aos alunos normalmente dotados, demonstraram que as melhores performances foram atingidas pelos grupos que estudaram com método, concentração e objetivos precisos. Normalmente atrás do sucesso de alguém tem a figura forte de um pai-mentor. Não apenas na história de Mozart, mas na de Picasso, ou de esportistas como Tiger Woods e Michael Phelps, ou de atores como Jodie Foster. Normalmente se trata de pais que seguem a mesma profissão dos filhos e neles despejam expectativas, trabalho tenaz e capacidade de individuar os pontos negativos. Quanto seja importante ter perto uma figura forte de referimento poderia testemunhar também Barack Obama, que deve sua candidatura a força do seu “Yes, we can” proveniente de sua avó com quem viveu desde pequeno, morta um dia antes de ser eleito. Quanto ao gênio
precoce, basta ler a biografia dos homens que marcaram o nosso tempo. De John D. Rockefeller o seu biografo diz: não tinha nele nada de inusitado, tinha as mesmas fantasias de milhões de outros rapazes. Queria se tornar rico. E uma de suas professoras enfatiza: não me lembro que se destacasse em qualquer coisa, mas se aplicava duramente a tudo que fazia. Não falava muito, mas estudava com muito empenho.

 

De Jack
Welch, que “Fortune”
elegeu o executivo mais influente do século passado, e que até sua
graduação era considerado por seus colegas como um medíocre, a Bill Gates, que fez muita fadiga, indiferente a lenda, a achar um cliente para suas primeiras invenções, a história de hoje é pincelada por talentos em construção mais que por gênios inatos. E se hoje qualquer atleta universitário pode igualar muitos dos recordes que há 60-70 anos faziam maravilhar o mundo, é porque agora a possibilidade de treinar profissionalmente está mais acessível a muitos. Que se trate de tocar extraordinariamente um instrumento musical ou administrar um empresa de sucesso, aquilo que faz a diferença não é o dom inato. Aprendemos a tornarmos melhores. Querendo.

 

Treinar duro. E não dar mole

Se diz que as medidas não contam. O famoso índice QI, que ainda faz notícia, na verdade representa um modo restrito e incompleto de delimitar apenas algumas das faculdades que formam a inteligência. Andy Warhol totalizou 86, George Bush, mesmo que seja feio dizer, tinha apenas 8 pontos menos de Bill Clinton. Bill Gates obteve 160, como Einstein, que na escola média ia mal em matemática. Piadas que no entanto abriram caminhos a novos pensamentos a respeito da inteligência e do talento. Por exemplo, o teste de QI não mede o pensamento crítico, a honestidade, a sabedoria, a tolerância. E gente como Howard Gardner com a teoria da inteligência múltipla, ou Daniel Goleman con o livro sobre a inteligência emocional, deixam mais complexa a idéia do que seja o talento.

 

Caindo na realidade, mesmo as empresas deixaram de recrutar personagens mirabolantes, outsiders da quem se espera a magia do espetáculo. “O talento, dentro uma
organização, é uma combinação de fatores”, disse Cíntia Tommasi, leadership & talent Line leader di Hay Group, sociedade de consultoria em recursos humanos. “ Uma pessoa é avaliada no papel que desempenha e colocada dentro um contexto. E a mesma pessoa pode ter muito espaço para expressar-se em uma situação e revelar-se inadequada em outras”. Curiosidade, capacidade de pensar além dos parâmetros, inteligência emocional e equilíbrio emotivo, diz Tommasi, são os fatores cruciais para atingir aquilo que Colvin chama “alta
performance”. E assim, se o talento não existe, porque apenas alguns emergem e tantos outros ficam na metade do caminho? A estrada para o sucesso é uma subida. E se chama: “deliberate practice”.

 

Trabalho Duro. Pouco divertimento

Se trata, segundo Colvin, de exercitar-se intensamente. Não se trata de simples “trabalho pesado”, mas de treinamento cotidiano (aprendam a não desistir, também ajudados de quem sabe mais). Precisa ser constante, saber verificar aquilo que se está assimilando, manter um altíssimo nível de concentração física e psicológica. Mas uma coisa, diz Colvin, sobre tudo: a deliberate practice não é divertida. Ao contrario de tudo que é inato, é um quebra-cabeça que cada um deve montar a partir daquilo que sabe e que se é. O primeiro ponto é projetar e si re-projetar. Quase todos, mantém Colvin, se contentam em manter um nível de competência-capacidade atingidos há muito tempo. Ao invés disso, projeto significa saber exatamente ao ponto em que se está, e depois se deslocar a um nível mais elevado. Muitos músicos e atletas individualizam os pontos de fraqueza para exercitarem-se de maneira obsessiva até superar-los, e esse é o segundo ponto da estratégia: obstinação e repetição. E depois, quem lhes dirá se o que vocês estão fazendo funciona? Se o saque desempenhado no jogo foi verdadeiramente perfeito, se a entrevista de trabalho foi exatamente como prevista? Feedback, assim chama
Colvin: significa ter alguém perto que nos ajude a julgar aquilo que estamos fazendo. Somem a tudo isso concentração. Parece uma banalidade, mas ao invés disso (sobretudo se vocês forem alguém de talento…) a facilidade com que vocês fizeram as coisa até hoje pode ser um obstáculo, assim como é o fato de considerar fácil e divertido o trabalho. A maior parte de nós afronta com leveza e superficialidade o cotidiano. Ao invés disso, para Colin, na deliberate practice
não tem
nada de divertido: não se trata de refazer aquilo que já fazemos bem, mas sim colocar o dedo na ferida e afrontar os pontos fracos, vocês se divertirão pouquíssimo. Mesmo porque conhecer o próprio conhecimento, pensar os próprios pensamentos, fixar objetivos, verificar se aquilo que estamos fazendo seja a coisa justa, requer um enorme controle de si mesmo e do mundo ao redor. Finalmente chega o momento de verificar o resultado do trabalho realizado. Depois da reunião de balanço ou com um determinado cliente, uma negociação, é possível
que as coisas não tenham andado como deveriam, explica Colin: “ acontece até mesmo com os melhores: o problema é o depois. A maioria das pessoas reage pensando que no futuro fará de tudo para não evitar de encontra-se na mesma situação, porque não é em grado de individuar o ponto fraco no processo. Quem
ao contrario afronta o problema, saberá no futuro adequar-si, reconhecer o problema e solucioná-lo. Autoconfiança e querer, obstinação e vontade. Assim se chega ao topo.

 

A competição é sempre mais globalizada

O trabalho de Colvin não é apenas o livro do momento de base psico-sociológica. Nas entrelinhas do seu trabalho existem razões ligadas ao presente, ao mercado veloz, a competição feroz ao nosso pequeno mundo ocidental onde essa cultura da graça divina está causando efeitos devastadores sobre a capacidade coletiva de gerar profissionais capazes de competir a um nível global. “No século passado à produtividade faltava os recursos financeiros”, diz: “Hoje falta o capital humano”. Traduzindo, existem muito poucas pessoas muito capazes de desempenhar suas próprias atividades. E o mundo, que pede sempre coisas melhores e novas, serviços feitos com mais atenção, arriscamos de sermos expulsos de um mercado
em guerra, onde os paises emergentes farão o papel do leão. A desregionalização de muitas profissões, que, graças as novas tecnologias não limitam mais as empresas a uma localização geográfica, indicam a nova realidade, onde em algum lugar do mundo existe alguém que trabalha melhor que você.

 

Parece uma ameaça? Mas a verdade é que a prestação de serviços profissionais técnicos (arquitetos, engenheiros) terceirizados, vindos diretamente do oriente, estejam
se tornando standard de muitas empresas. Profissões criativas, que usam uma linguagem universal (o design, a fotografia, por exemplo), já superaram as barreiras geográficas. Agora a competição não é mais com o colega da sala ao lado, mas com qualquer um que esteja a milhares de quilômetros de distância. E o fato é que ele não tem mais talento que você, porque o talento não existe: simplesmente estudou mais e melhor. Em uma economia interconectada, globalizada, os negócios e as pessoas se confrontam com o melhor que existe no mundo. E no fim vence o melhor.

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