Quanto pagas?

Pela primeira vez desde a quebração da bolsa mundial fiquei feliz por ter pouco dinheiro e ter perdido só metade de tudo. Isso porque estava lendo o blog de meu amigo Maurício sobre um causo de outro companheiro investidor. Digamos, um dos mais ricos do mundo, que perdeu bilhões e possuía algumas centenas de milhares de funcionários, acionistas e dependentes que contam com as suas decisões. Com a queda da bolsa e toda a crise desencadeada, nosso amigo não soube como administrar o problema e se suicidou. Penso que todos vimos alguns casos como este nos últimos meses, este em particular era o nono homem mais rico da Alemanha e um dos cem mais ricos do mundo.

 

Com isso não estou querendo dizer que é bom ser pobre. Muito pelo contrário, ainda quero ter minha empresa, meus funcionários e minha belíssima conta de banco recheada. Mas espero não ter o mesmo fim.

 

Logo após ler essa reportagem comecei a pensar várias coisas simultaneamente. Em coisas bobas como a extinção da classe mais rica do mundo, que, por já terem nascido ricos não saberiam como viver sem dinheiro e em meio a crise iriam todos se suicidarem. E outras coisas mais substanciosas como nos valores que atribuímos às coisas. No valor do dinheiro, das ações… e simplificando: de tudo.

 

Quando estamos imerso em um dos nossos milhares de mundos paralelos em nosso planeta, circundados por pessoas que pensam da mesma forma, gostam das mesmas coisa e gastam com as mesmas coisas, perdemos o vínculo com os valores externos ao nosso grupo. Deste modo, tantas vezes somos iludidos por preços superficiais de mercado e completamente alienados do seu real valor. Um exemplo perfeito para isso são as coleções. Por exemplo, as pessoas que colecionam selos podem pagar rios e rios de dinheiro por um selo antiqüíssimo o qual foram impressos apenas uma pequena quantidade de exemplares, os quais estão distribuídos por um número muito  restrito de colecionadores. Enquanto que, para uma outra pessoa, que não tem o menor interesse por selos, não pagaria nem mesmo 1 centavo pelo mesmo pedaço de papel
velho. Leilões milionários surrealistas. Além dos selos podemos citar: jóias, obras de arte, antiguidades, carros… até as coisas mais corriqueiras como o valor do aluguel ou de um apartamento no centro da cidade. E paralelamente o
escândalo que acontece em alguns centros urbanos, que, submersos na crise e abalados com a explosão da bolha de especulação acionária e imobiliária, vendem casas por literalmente 1 real.

 

E recomeço a refletir… Temos alguns valores imutáveis em nossa vida. Como por exemplo a morte. Claro que acidentes acontecem, mas teoricamente vamos ter uns 80 anos de
vida. Ou seja, esse tempo é irrevogável, se não aproveitarmos, não teremos outra chance. Teremos outras vidas, mas nessa vida, nesse tempo, nesse momento, junto com aqueles que nos rodeiam agora, só temos a oportunidade do presente. Assim, se trabalhamos a vida inteira em troca de dinheiro, e esse dinheiro, que nada mais é que nossos segundos, minutos, horas, dias e anos, quantificados na moeda local e impressos no papel oficial do governo, gastamos com as mais completas futilidades, ainda super valorizadas pelas suas marcas, cortes e estilos…
estamos trocando nosso tempo de vida por um sofisticadíssimo nada. Claro temos que nos vestir, claro que nos sentimos iludidos pelo falso prazer de roupas novas, por poder expressar a nós mesmo através de nossas roupas. Claro que em um segundo julgamos aqueles que conhecemos por causa de sua aparência… Mas… Somente mas… será que  a isso vale a pena comercializamos nossa única e mais preciosa mercadoria. O nosso tempo vivos nesse planeta. Afinal é a coisa mais rara do mundo só existe por um segundo, ou ainda menos e quem não estava lá naquele segundo, naquele momento, pode escutar falar, pode ver fotos, filmes, livros, risadas, choros e suspiros, mas não poderá, com nenhum dinheiro do mundo, nem mesmo com 50 vidas de trabalho, viver aquilo novamente.

 

O interessante é que, para as coisas terem um valor, as pessoas têm que acreditar que valha a pena gastar o seu dinheiro naquilo. Por isso que hoje não se vendem mais sofás, mas sim a possibilidade de relaxar em casa, de receber amigos, o aconchego do lar… se coisifica as emoções e espiritualiza as coisas.

 

Não apenas os eletrodomésticos, casas, viagens têm um preço, mas o próprio dinheiro e as ações da bolsa de valores. Se as pessoas não soubessem que atrás daquele pedaço de papel existisse uma reserva monetária nacional que garanta o seu valor e que, aquele pedaço de papel valha a quantia a ser pagada, nem com todo o dinheiro impresso no mundo se poderia comprar um simples pedaço de pão. Uma das coisas que eu achei muito interessante quando cheguei em Londres foi que em cada cédula de Libra está impresso que a rainha dá a sua palavra que aquele pedaço de papel vale a valor quantificado e que ela restituirá aquele valor ao portador daquela cédula. I promese to pay the bearer on demand the sum of twenty pounds. Ou seja, a Rainha, aquela que recebe todos os impostos do povo, aquela que possui toda a reserva monetária do país, deixa indubitável que se aquele pedaço de papel for apresentado ela pagará a quantia impressa, que neste caso era de vinte libras.

 

Da mesma forma, as pessoas acreditam. Investem a areia de suas ampulhetas da vida, em ações. Que são nada mais nada menos do que uma fração do preço de mercado de uma empresa que te garante que possui rendimento, posses, produtos e tecnologia para valer aquele montante. Se na verdade, isso for mentira. Como muitas vezes acontecem com empresas fraudulentas que falsificam suas prestações de contas para manter seu valor no mercado e a empresa vem a falência, todos ficam chupando o dedo. Porque agora, aquele papel chamado de ação, pelo qual tantos trocaram seu dinheiro ou tempo de vida na terra, perdeu completamente o seu valor, ou seja, ninguém mais acredita que aquele documento represente tanto tempo de vida. E se as pessoas não acreditam, seja o dinheiro, seja a ação,  passam a ser apenas um simples pedaço de papel sujo de tinta.

 

Quando você descobre o valor real das coisas, você deixa de ser iludido e vê o quanto é absurdo trocar a vida por objetos. Claro que eu também sou iludo pela idéia de valor, afinal quando estamos imersos na névoa do consumo, acabamos nos perdendo nela. Mas cada vez mais tento me desapegar desses falsos valores.

 

Hare Krishna para todos.

Anúncios