Premonitório

Misteriosamente todas as previsões tornavam-se realidade. Como se o pensamento constantemente se materializasse na certeza de seus poderes premonitórios. Como se os espíritos falassem por seus lábios, musicassem seus ouvidos. Ele sempre soubera o que deveria fazer. Desde de sempre. Desde antes que nascera. Como se a liberdade lhe desse asas e a sociedade o ancorasse. Inexplicavelmente ele sentia como se soubesse mais que os outros. Não por ser mais inteligente, ou mais estudado, mas por ter acesso a conhecimentos que não eram seus, compartilhados por outros, outros que ele não via mas sabia que existiam além dos 5 sentidos. Que o rodeavam, o guiavam e protegiam.

 

No entanto, não se vive apenas dentro de si mesmo, mas sim, se é influenciado por vozes vivas e televisivas, ensinamentos vagos que parecem profundos, verdades viciadas que suprem fracas convicções. Tantas pessoas que não sentem suas vozes e que precisam de microfones e auto-falantes para escutarem a si mesmas. Berros silenciosos. Com todo esse barulho, aos poucos se deixa de ouvir a música. E aquelas vozes, antes tão reais, se esfumam num eco quase inaudível, que indiferente ao passar dos anos continua a ressonar; esperando o momento, quando calado, cansado de buscas vãs em lugares distantes, recomeçará a escutá-las, no fundo de si mesmo.

 

Ele não sabia se todos possuíam as mesmas vozes. Talvez cada um tenha a sua, ou busque por uma própria, ao invés de continuamente repetir a dos outros. Na verdade ele nunca tinha refletido sobre aquilo. Sempre havia pensado naquelas vozes como se fossem uma verdade, “o sentido da vida”. No entanto, naquele momento de solidão ele começou a questionar-se: seriam aquelas vozes o sentido da vida ou um objetivo pessoal? Talvez fossem metas pré-fixadas antes mesmo de sua existência. “Não precisamos todos conquistarmos o mundo”, ele pensou, talvez cada um se auto-imponha os objetivos a serem alcançados. Uns nascem como reis outros como camponeses. Cada ponto de partida deve impor metas distintas.

 

Com toda a mobilidade social da atualidade, desde que a burguesia tomou o poder, em tempos aparentemente remotos, todos assumiram uma idéia capitalista dos extratos sociais. Entretanto talvez estes tenham sua função e uma origem mais longa que a própria historia. Não é apenas a conta bancaria que traz o status de riqueza. Mas talvez uma honra ao mérito. É mais fácil sair da pobreza que
tirar a pobreza de dentro de si. O problema desse discurso “nos dias de hoje” é que os extratos de base não possuem o mínimo necessário para sobreviver. Numa sociedade ideal todos teriam um trabalho e a recompensa pelo seu esforço. A sociedade ideal não é quando todos são iguais, porque isso nunca seremos. Cada um tem um objetivo, cada um tem uma responsabilidade. Existem aqueles que governam, outros que guerreiam, outros que administram, outros que trabalham. Cada um com sua função indispensável.

 

Independente de nossa irrevogável identidade única, andamos rumo a mesma direção. Alguns diriam que é a morte, eu diria a vida eterna.

 

Com o passar do tempo deparou-se com as revelações socráticas e viu que talvez não soubesse nada. Não que entendesse muito bem tudo aquilo, mas se resignava a sabedoria alheia. O tempo, inexoravelmente e implacável, passa e com ele novos conhecimentos se acumulam e se transformam. Lidos de escritos antigos contrastam com a cultura contemporânea, conhecimentos e enganos se mesclam num amalgama indecifrável. Todos parecem buscar a felicidade. Poucos estão dispostos a pagar o preço para obtê-la. No fim talvez seja essa a realidade humana, a constante preguiça de enfrentar o destino. Afinal, cada segundo do nosso tempo investimos em nós mesmo, cada palavra proferida será recordada, cada gesto quantificado. Os jovens, sentem-se mais inteligentes que as instituições e os professores, como se os ensinamentos fossem vazios, ou pertencentes a uma realidade antiga, já ultrapassada. Apenas existente para lhes tolher a liberdade…

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