Irmã via Orkut

O fato de
eu ter uma terceira irmã chamada Luciana nunca foi um segredo. Ela foi concebida antes do casamento de meu pai com minha mãe. Por isso ela é a mais velha de todos os seis irmãos. No entanto sempre foi apenas um fato, não uma realidade. Principalmente por nunca termos tido contato. Mas confesso que muitas vezes a constava na resposta da corriqueira pergunta: quantos irmãos você tem? Era sempre uma longa explicação…

 

Em outro contexto, dentro dos computadores, num mundo digital também distante e simultaneamente vizinho existe a comunidade virtual Orkut. Onde com poucos clicks temos acesso a detalhes, pensamentos, fotos, vidas alheias. Tantos desconhecidos passam por nosso perfil e sempre damos uma espiadinha básica pra saber como chegaram a nós. Mas grande parte das vezes não sabemos quem são, o que fazem, de onde vêm e se quer damos bola. Assim foi com Luciana. Só que alguns dias depois de sua visita, fui relembrado de seu nome e de sua existência. E assim um dos desconhecidos criou identidade.

 

No entanto, ela só entrou para espiar, não me cumprimentou. E eu agi da mesma forma, primeiramente porque não sabia quem fosse de início. E também, como se pode conhecer uma irmã via Orkut?

 

Tudo isso veio a tona agora simplesmente porque acabei de ver uma novelinha “draminha” cheia de atrizes americanas famosas ótimas. E o capítulo de hoje era sobre uma situação mais ou menos similar. Da filha desconhecida da amante do marido falecido que aparece depois de vinte anos. Claro que tenho que enfatizar que  a situação de amante não tem nada a ver com a situação presente. Mas sim o contexto da descoberta de uma irmã adulta que repentinamente faz-se conhecer.

 

E agora Luciana aos poucos começa a conhecer os membros da nossa família. Mas eu moro a 12 mil kilômetros de distância! Não estou preparado para conhecer uma irmã via Orkut. Não que eu não queira conhecê-la. Mas acho um meio muito frio pra consolidar uma relação assim importante. Por isso vim escrever sobre isso, o ato de escrever me ajuda a me auto analisar e descobri as ramificações de minhas incógnitas em busca de seus esclarecimentos e soluções.

 

A dificuldade dessa situação é que Luciana é uma pessoa desconhecida, mas ao mesmo tempo muito próxima. Afinal um irmã deveria ser próxima, não? Acho que se ela fosse mais nova, como meu irmão, seria mais fácil de assimilar. Mesmo porque eu vi crescer, mesmo não vivendo juntos é meu irmão. Eu sinto. No entanto é difícil saber como enquadra-la dentro das relações cognitivas no meu cérebro. Pois um irmão é associado com uma infinidade de laços cognitivos diversos, que dão o significado ao senso de irmão. E esse na verdade é o problema do momento: como linkar cognitivamente um significado a tanto tempo desenvolvido e amadurecido, de acordo com as personalidades de minhas irmãs que sempre vivi junto, a uma nova pessoa completamente desconhecida.

 

Também porque o significado irmã não tem um único significado. Mas sim vários:

 

Irmã de sangue: filha do meu pai ou de minha mãe ou dos dois.

Irmã de criação: pessoa criada como uma irmã de sangue, compartilhando da vida de família, mas não compartilhando de laços consangüíneos.

Minhas irmãs: Carla e Kamile (que foram as que eu sempre conheci). E agora será adicionada mais uma: Irmã Luciana.

Irmãs da minha mãe: minhas tias.

Irmãs da minha vó: tias avós (aquelas que tenho contato).

 

 

Dessa forma, além de ser uma palavra com muitos significados, não possui um significado genérico em sua variação: minha irmã. Mas sim, suas duas variações conhecidas: Irmã Carla e Irmã Kamile. Que por terem personalidades diversas, idades diversas, ou seja, por serem pessoas diversas, dão conotações diferentes a palavra irmã. No entanto, esses conceitos, foram linkados por uma infinidade incontável de sinapses conectadas e re-conectadas durante meus 26 anos de vida. E continuam se estruturando e modificando com o passar dos anos, a maturação de nossas relações e de nós mesmos. Ou seja, foi um conceito elaborado durante todo o tempo da minha existência. Como vincular o mesmo conceito a uma outra pessoa completamente desconhecida? Não pelas suas características, mas sim pela complexidade das informações que não tive acesso. E que por não ter a capacidade geográfica de conhecer no momento não tenho como formar novas sinapses. O que faz com que seja vinculada apenas a sinapse genérica do conceito de irmã de sangue. E que vagarosamente se conectará com outras informações, dando o sentido de minha irmã.

 

Acho que esse problema de fraternidade foi ao menos esclarecido no meu cérebro. Não tem nada a ver com um problema de aceitação ou não de Luciana como sendo minha irmã. Porque eu não faço esse tipo de julgamento. Sendo minha irmã de sangue ela é automaticamente aceita como tal. O problema é apenas cognitivo. Que para ter o mesmo peso cognitivo da palavra minha irmã, ao menos tenho que conhece-la.

 

E foi assim que vi minha irmã pelo Orkut. Mas ainda não a conheço.

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