A chave de ouro

Acabou o filme as 22:35 horas. E como indicado pela sinalização no canto direito da tela, deveríamos sair pela porta ao lado. Uma pequena escada, desprovida de qualquer adorno estético desembocava na saída lateral do cinema, numa pequena ruela sem saída. Os pingos caíam dos parapeitos das janelas e dos andaimes que durante o dia suportavam os operários nas obras de reforma. Parecia que a forte chuva anunciada pela negras nuvens carregadas tinha lavado a cidade enquanto me entretinha com o espetáculo cinematográfico. Tirei minha jaqueta de nilon verde militar de dentro de minha bolsa também verde e caminhei até a Via del Tritone, onde uma bela fonte de um tritão bebendo água de uma concha de caramujo iluminava a praça ao centro da avenida.

 

O ar primaveril refrescado pelo odor da água que ainda escorria pelas calçadas trazia consigo uma sensação de frescor para dentro dos pulmões viciados pelo ar da sala fechada.  E um desejo de novidade formigou por todo o corpo sendo guiado pela força cósmica que rege todas as coincidências. Comecei descendo a rua em direção a suntuosa Fontana di Trevi, roteiro básico que sempre repito automaticamente. No entanto, uma luz amarelada provinda das paredes de um verdejante restaurante recoberto de trepadeiras me convidou a mudar de direção. Seguindo as mesma leis citadas, que ensinam que devemos sempre escolher os lugares que se iluminam para nós, pois são esses os caminhos que nos foram designado, fui absorvido pelo silêncio daquela estreita rua medieval deserta. A areia molhada que cobria a estrada de pedras negras trepidava em contato com o sapato, me recordando o doce som da simplicidade. Somente depois de alguns minutos a vida voltou à rua. Garçons limpavam as mesas dos restaurantes que estavam por fechar, turistas retornavam para os seus hotéis, indianos caminhavam a esmo. Chego na esquina e me deparo com uma construção faraônico. Mais parecia uma fortaleza medieval. Seus primeiros dez metros formavam uma parede branca, maciça e sem janelas, seguida por quatro andares de janelas bem separadas. A edificação continuava a tangenciar a estreita ladeira que subia adiante, onde um grande portão parecia dar entrada a um dos magnificentes palácios dos tempos antigos. Virei a esquerda, ainda contornando o grande edifício em busca de alguma informação que me revelasse a verdadeira natureza daquela fortificação. Mas o edifício nada me disse. No entanto, no fim da ruela, uma placa de mármore branco entalhada com letras maiúsculas serifadas indicava o nome da rua, Via delle Scuderie, ou seja, devia ter alguma função militar em alguma ponto da história. Na próxima esquina mais uma surpresa, um túnel branco, de cerca trezentos metros ligava Barberini à Via Nazionale. Como nunca tinha passado andando por dentro de um túnel certamente foi bem o que decidi experimentar. Tive um pouco de receio de morrer asfixiado com o monoxido de carbono armazenado ali, mas era provavel que àquela hora não tivesse tráfego suficiente para causar algum mal. Ao caminhar pelo túnel minha audição pareceu se amplificar dezenas de vezes por causa da acústica. Cada carro que passava produzia um ruído imenso junto ao asfalto, mais parecendo uma frota de caminhões ao invés de um simples carro de passeio. Imaginei como seria se tivéssemos toda aquela potência normalmente, no mínimo seríamos muito mais cuidadosos com o barulho.

 

Ao fim do túnel uma imensa escadaria de pedra levava às ruas acima. Vi vários jardins públicos fechados para a visitação noturna. Voltei pra casa relaxado escutando um sambinha de João Gilberto. Feliz pela exploração de ambientes tão lindo e a apenas uma rua de distância dos
lugares que passo diariamente. Durante o passeio pensei: Somos todos artistas que com nossas escolhas no decorrer da vida esculpimos nosso próprio ser, formamos um ser humano todo nosso, ou seja, nós mesmos. E que talvez essa escultura que fizemos seja uma chave, com a qual um dia deveremos abrir a porta que nos leva para algum lugar. Espero que a estejamos fazendo de maneira precisa, de outro modo será preciso que façamos outra.

Anúncios