Muamba

Ontem eu estava assistindo um documentário italiano sobre a alta moda. Não era um documentário sobre estilismo, ou fashionismo… nada disso… Era na verdade um levantamento policial dos negócios de produção têxtil e de calçados, que produzem as caríssimas coleções das principais e mais caras maisons do mundo.  Todas elas utilizando mão de obra ilegal de chineses imigrados, sem pagam as taxas e impostos. Assim, roubando o trabalho das empresar italianas legítimas, as quais foram responsáveis pelo alto valor agregado historicamente as marcas, que, por não poderem competir de forma leal com o baixo custo de produção oferecido pelo mercado ilegal, são obrigadas a fecharem suas portas. Evidente que não estou culpando os pobres chineses que vêm para a Itália em busca de oportunidades e são trancafiados dentro de fábricas, dormindo nos andares inferiores conjugados, sempre sujeitos ao medo de serem descobertos, deportados e trabalhando de forma semi-escrava por estipêndios ínfimos comparados à normalidade. Mas sim ao capitalismo desenfreado, que, em sua luta desesperada por lucro a qualquer custo, fez com que muitas empresas sérias fossem fechadas, muitas pessoas desempregadas e que a qualidade e tradição do trabalho artesanal manufatureiro fosse perdida.

 

Nesse mesmo contexto, saímos pelas ruas da cidade, e por todos os metrôs, calçadas e esquinas, encontramos centenas de Senegaleses a venderem bolsas, relógios, óculos, carteiras, cintos e outra infinidade de produtos, com as etiquetas das mesmas marcas. Independente do fato de eu nunca ter me interessado por comprar esses produtos tidos como falsificados, principalmente porque sempre tive a filosofia que para se carregar o status de uma marca se deve ao menos pagar por ela, sempre tive uma opinião duvidosa a respeito da pratica comercial paralela. Mas depois de assistir esse documentário, onde apareceram todas as marcas da alta costura mundial, pagando por custos de produção ínfimos, como 8 euros por par de sapatos ou bolsa, para depois revendê-los por 300… 1700 euros… assim impossibilitando um custo de produção competitivo. E vê que a qualidade dos produtos falsificados é quase a mesma, podendo mesmo ser feito pela mesma
empresa e equipe que produziu as peças originais. Você percebe que a idéia de crime é completamente manipulada na mente dos consumidores e que, independente de qualquer preconceito ou de leis de copyright; aquelas pessoas estão ali trabalhando dignamente como vendedores, independente de serem mercadorias consideradas ilegais. Lutando pra oferecer um produto de boa qualidade e por um preço justo.

 

Neste momento você descobre que os produtos originais que custam centenas, milhares de euros também vêm da produção e mão de obra ilegais. E que a própria empresa sabe disso, pois exige preços de produção que não podem ser competidos por empresas sérias que pagam os impostos. Você muda completamente seus paradigmas e definições de quem é bom ou mal, certo ou errado. E, se um dos objetivos da vida é perder a ingenuidade e descobrir a verdade por trás das coisas, sua maneira mais digna é entender o porquê das ações alheias ao invés de julgá-las preconceituosamente.

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