O doce sabor da chuva

O barulho da chuva entrava pela janela aberta da sala e trazia consigo as lembras de tempos passados. As gotas contrastadas pelas luzes dos postes lhe faziam pensar como seria bom um banho de chuva. No entanto não era verão ainda. Ela se lembrou das guerras de água dos dias quentes de verão, a diversão, amigos e um belíssimo sol encoberto por nuvens rosas alaranjadas. Tudo eram imagens, sons, sentimentos. Sentiu um balde d’água lhe banhando, sua cabeça movendo-se velozmente para o lado e seu cabelo sendo lançado pelo ar enquanto a água seguia o movimento numa rajada de gotas. E o peso dos maços de cabelo reencontrando seu corpo desnudo e despreocupado, refrescado-a. Crianças brincado de biquínis, shorts. Poucas roupas e poucos problemas. Depois de viajar por alguns lugares do mundo ela soube na prática o que tinha escutado tanto falar. Que o sol e calor mudam completamente o humor de um povo. Toda a humanidade subordinada ao seu poder. E os pseudo-intelectuais de hoje riem dos Egípcios que adorávam-lo como um Deus. É somente uma estrela incandescente, recitavam. E davam tanto valor ao bom tempo que ela se esqueceu como era bom apreciar a chuva. O tempo está horrível hoje, falava a senhora no ponto de ônibus. No entanto, ao invés de reclamar que deveria desligar o computador e a televisão para não queimarem caso um raio acertasse em cheio sua casa, ela simplesmente abriu a janela, apoiou seus braços cruzados sobre o parapeito de madeira branca, e fez um ninho para sua cabeça cheia de lembranças repousar e recordar do passado. O cheiro do ozônio liberado pelas gotas de água que encontravam o chão lhe trazia boas lembranças e uma sensação de limpeza e bem estar. O barulho da tempestade lhe acalmou o pensamento e lhe fez pensar no porquê dela ter convertido a chuva num ente maligno. Com o passar dos anos e as sempre crescentes responsabilidades e medos, a chuva foi tomando um caráter maligno em sua vida. O fato de estar chovendo não era a possibilidade de relaxar com o seu som ou apreciar seu odor. Mas sim a água lhe molhava, não mais lhe refrescava, o odor lhe asfixiava não mais lhe purificava, tudo simplesmente tinha mudado. Ela realmente não sabia quando, talvez não tenha sido um processo repentino mas sim a soma de vários fatores que não foram sendo valorados de modo verdadeiro. Ou talvez a chuva nunca tenha chegado a ser ruim, apenas algumas vezes inconveniente em determinadas situações. Um relâmpago cortou o céu, sua luz e beleza quase lhe cegaram, mas seu som e poder chegaram um segundo depois. Como tinha absolta certeza que os conceitos que ela tinha das coisas eram responsáveis por modular sua idéia de mundo ou ao menos o modo como ela via cada coisa determinada e suas interações, ficou feliz de achar dentro de si a beleza de uma lembrança esquecida e calmamente fechou a janela branca da sala e voltou aos seus afazeres.

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