Meu novo Conto.

Esse é o primeiro conto que finalizo. Espero que gostem.

 

 

Juice, Suco de Sangue

GLAUBER N. SERAFIM

 

 

O silêncio velava todo o condado de Newcastle como se todos estivessem a espera do grito de horror que cortaria a noite. A umidade impregnava a pele, escoria pelos cabelos e condensava a respiração curta e rápida de Juice. A ansiedade dominava seu corpo, seu coração batia forte, o ar pesava em seus pulmões, seus olhos irrequietos buscavam um foco em vão e o tremor das suas mãos eram apenas atenuados pelo peso reconfortante do facão de cozinha de sua falecida mãe. A morte de Melissa já não produzia nenhum efeito em sua alma, era como se nunca tivesse existido. Inexplicavelmente as coisas desapareciam de sua memória, se confundiam com eventos imaginados, com as notícias da televisão e as histórias que escutava no bar. Sua personalidade se fundia com suas fantasias e nas fases crônicas de seu delírio não conseguia nem mesmo perceber se estava acordado ou sonhando. Era como se não sentisse nada, e não se pode viver muito tempo sem sentir nada. Morria a cada passo e respirava em vão para um corpo sem energia, sem força ou poder. Ele precisava reenergizar-se. Sentir o sangue pulsando em sua garganta, a saliva enchendo sua boca, o ar enregelando suas narinas dilatadas, o suor escorrendo por suas costas, todo aquele cheiro de vida e morte se fundindo para dar sentindo a sua existência. Os olhos de Melissa lhe mostraram a pureza da verdade, como se ao menos num último momento, todo seu corpo, gestos e pensamentos exprimissem a completa e absoluta realidade, o medo da morte iminente.

 

Ao mesmo tempo que seu corpo permanecia em uma agitação constante, como num estado de alerta, uma busca interminável pelo gosto de sangue, sua mente estava tranqüila e inativa, toda a noite já estava escrita, os destinos traçados. Era como se ele tivesse sido designado a executar o inevitável. Ele não sabia ao certo por quem ou porque o haviam escolhido, mas se sentia destinado a fazê-lo. As vezes parecia que uma força imaterial vinha ao seu ouvido, dentro de sua mente, e lhe dizia exatamente o que fazer, passo a passo onde ir, quem encontrar, o que falar, que personagem interpretar. Tudo aquilo lhe convencia de como estúpidas eram as pessoas, só ele podia ver dentro dos outros e ler seus pensamentos, seus desejos, suas mais profundas angústias.

 

Juice morava numa modesta casa no sul da cidade. Um bairro tranqüilo, residencial, com pequenas casas coloridas e jardins impecáveis. Nada que lhe chamasse a atenção. Desde a morte de sua mãe num fatídico acidente domestico, tinha se refugiado no ressentimento armazenado naquelas paredes brancas amareladas. Sua alma descascava como a tinta das paredes e se umidecia com as goteiras inquietantes provenientes do telhado desconjunto. Há tempos tinha perdido o contato com os vizinhos, evitava circular no bairro durante o dia para não ter que cumprimentar todas aquelas pessoas hipócritas. Todos com seus sorrisos no rosto, respondendo automaticamente, estou ótimo e você? Como se ele não conseguisse sentir a desilusão, a melancolia e a incapacidade que eles tinham de resolver os mais fúteis problemas. Sempre reclamando da vida injusta, dos filhos que iam mal na escola, da mulher que não sentiam mais tesão, do
vazamento da torneira do banheiro, do carro velho que não funciona. Tudo isso resumido naquele cumprimento automático, naquele sorriso amarelado, estou ótimo e você? Aquilo o enojava, lhe fazia subir o sangue, seus pulmões congelavam, seu coração inchava e um sorriso de desgosto camuflado tentava se manifestar sob seus olhos vermelhos tencionados de indignação. Estou bem!

 

Eram precisamente dez horas da noite e Juice não podia mais ficar em casa, sentia a noite lhe chamar, a luz vindo por debaixo da porta, pelas frestas da janela e lhe dizendo que era chegada a hora. Sem perder um segundo sequer ele arranjou todos os detalhes com uma precisão obsessiva: seus óculos de grau falsos, seus cabelos negros e oleosos minuciosamente penteados para o lado direito, sua camisa estampada em xadrez vermelho e preto sistematizada dentro de suas calças jeans desbotadas e sua bota de couro negro devidamente engraxada. Conferiu o brilho de seus olhos, o branco de seus dentes e mesmo os pêlos de seu nariz. Um perfume masculino, porém doce, o anel de um casamento que jamais suportaria honrar e sem falta a faca recém afiada de sua falecida mãe. Sim, Juice estava perfeitamente pronto e não tinha porque esperar nem mais um minuto depois das dez horas da noite. Caminhou lentamente até seu Mustang vermelho modelo de 1968 que tinha comprado por uma verdadeira pechincha na feira anual de carros usados na cidade vizinha. O escolheu pela aparência deplorável da lataria, que seria uma ótima desculpa para pedir ajuda a uma dama desafortunada. Girou a chave. O ronco do motor acalmou seu espírito perturbado e o cheiro embriagante da gasolina se misturou com o aroma adocicado de sangue seco proveniente do banco de trás do automóvel. Seus olhos tencionados se fixavam no lento movimento do portão da garagem que se abria automaticamente com o clique no botão direito do controle remoto preso ao para-sol do motorista. Enquanto pressionava de maneira precisa e pungente sua língua contra seus dentes incisivos superiores, passando-a de canino à canino num impulso explicito de dor e autoflagelação. Seu personagem ganhava vida.

 

Àquela hora, seus vizinhos costumavam estar confortavelmente em seus sofás vendo televisão; segundo seu conceito, o mal do século. Todos desperdiçando suas vidas em frente a uma janela de luz, hipnotizados por seu falso entretenimento, iludidos pelas notícias fatídicas, paralíticos cerebrais seduzidos pela publicidade de produtos recém lançados que nunca necessitaram. E acima de tudo, mesmo assistindo a tantos telejornais, a tantas mortes, assassinatos e desaparecimentos, tal grau de brutalidade era tão divergente de suas realidades, que inconscientemente fugiam da verdade, secretamente buscavam o falso conforto m suas mentes, que lhes garantia que nada daquilo jamais lhes aconteceria. Era como em sua vida, um sonho. Acordados, porém sonâmbulos. Todos sabiam de sua existência, mas se quer imaginavam que pudesse se encontrar tão perto. Mas sim, ele estava ali fora e a morte estava longe de ser uma lenda, ele a conhecia bem, já tinha visto sua face e era sua foice. Talvez fosse ela a comandar-lhe os passos, a dosar a força de seus braços, a precisar seus golpes e lapidar as
minúcias de suas mentiras.

 

Continuou guiando por cerca de meia hora, esperando sentir o momento exato, o ponto exato, a pessoa exata. A estrada estava escura, mal iluminada, os pinheiros dominavam a paisagem e cercavam a região. Não, aquela estrada era aterrorizante demais para seu plano, ele precisava de um lugar mais simples, mais movimentando, longe de qualquer suspeita. Sim, um supermercado… ele precisava mesmo fazer compras. Lembrou que o estacionamento do Supermercado Imperial era grande suficiente para passar desapercebido e não haviam câmeras ou seguranças. Ficava na parte posterior do grande estabelecimento, a céu aberto, num bairro movimentado, mas não àquela hora da noite. Quem seria sua vitima? Um dona empreendedora, que não tinha tempo durante o dia para fazer suas compras? Uma jovem que a caminho da casa de seu namorado passou para escolher o vinho que mancharia para sempre sua alma de tinto? Ele não podia mais esperar. O som do forte ar expelido por suas narinas, os faróis dos carros entrando profundamente em seus olhos, suas mãos segurando obstinadamente o volante. O tempo era perfeito, uma noite linda, sem nuvens, mas também sem lua. Poucas estrelas apareciam no céu devido a claridade emitida pela cidade iluminada. A placa da publicidade lhe informou que faltavam apenas três quilômetros para chegar ao seu destino. A lista de compras veio a sua mente: luvas vermelhas de borracha,
maças maduras da estação, tomates enlatados sem pele, uma garrafa de vinho Cabernet reserva especial de 1995, seu preferido e batatas fritas congeladas para comer com catchup antes de dormir ainda aquela noite.

 

Seja bem vindo ao Supermercado Imperial, saudava o banner logo a frente do estabelecimento. O portão alaranjado se encontrava aberto e sem qualquer vigilância como previsto. Uma senhora de meia idade, com seus cabelos estilo Channel tingidos de loiro caramelo, vestindo uma bata branca bordada com pequenas flores do campo ao redor de seu decote e uma calça jeans preta por dentro de sua bota de camurça, passava com seu carrinho repleto de mantimentos enquanto o toc toc de seus saltos de madeira maciça ecoavam por entre os carros. Como se o tempo não existisse descarregava suas compras no porta-malas de seu Chevrolet azul celeste. Ali, concentrada em seus problemas domésticos não imaginava que aquela noite trágica mudaria para sempre sua vida. Uma infinidade de sacolas preenchia o carrinho, ela deveria ter uma família grande. Todos a esperando como sempre a esperavam, prontos para reclamar que ela não
comprara a marca de margarina que um gostava, ou que trouxera a bolacha de chocolate ao invés da de morango como haviam tantas vezes enfatizado, o refrigerante de laranja, bem o que ela tanto gostava, mas a quem interessava, eles tinham pedido para comprar o de uva. Ela trabalhava todos os dias das oito horas da manhã às seis da tarde, sempre com o objetivo de dar o melhor que pudesse para seus filhos. Mesmo que ela não soubesse demonstrar seu amor, todos sabiam que ela lhes amava. Ela nunca foi muito de dizer eu te amo, e desde que seu marido morreu o luto tomou conta de sua vida. Mais e mais sacolas preenchiam o porta malas. Juice estacionou seu Mustang 1968 bem próximo da senhora embriagada em seus pensamentos. As rugas de seus olhos mostravam o cansaço dos últimos dias e o quanto era duro sustentar seus filhos agora que seu marido se fora. Não tinha muitos amigos, seus familiares moravam distante, mudara-se para a cidade em busca de mais portunidades para seu marido, que com a graça de Deus logo conseguiu um bom trabalho. Mas agora tudo eram lembranças, tantas boas, outras tristes.

 

Juice a saudou sem palavras, apenas com um sorriso forçado e um leve movimento com a cabeça. Ela desinteressadamente retrucou ao cumprimento mas sentiu um despontar de alegria frente ao interesse de um estranho. Energicamente terminou de descarregar seus mantimentos imersa em devaneios autoconfiantes; talvez não estivesse assim tão velha como pensava, ainda era atraente, interessante… Mas irremediavelmente seu alter ego avassalador lhe trouxe de volta aos seus conceitos estabelecidos: quem se envolveria com uma mulher de meia idade com três filhos, e também ela não tinha tempo nem energia para se apaixonar, sem contar que os meninos jamais consentiriam em outro homem freqüentar sua casa. Fechou o porta malas e com o cardápio da janta em sua mente estressada com as responsabilidades do próximo dia foi automaticamente empurrando o carrinho em direção ao supermercado e sentindo a vibração em suas mãos ao passar pelas irregularidades do chão de cimento cinza com faixas amarelas do estacionamento.

 

– Não se incomode senhora. Eu lhe porto o carrinho dentro.

 

– Muita gentileza sua. É difícil encontrar pessoas assim educadas hoje em dia.

 

– Para mim será um prazer. E sorriu maliciosamente.

– Tenha uma ótima noite e dirija com cuidado, a essa hora da noite nunca se sabe quem podemos encontrar pelo caminho.

 

– Boa noite. Respondeu contrariada. Aquele comentário tinha sido um pouco demasiado para um cavalheiro que se quer conhecia, mas o noticiário sempre lhe avisava para ter cautela. Mas um homem com olhos tão frágeis jamais lhe faria mal.

 

Despediu-se com um sorriso meio indeciso e retornou um pouco insegura para seu carro sem olhar para trás. Ao inserir a chave na fechadura de seu Chevrolet azul celeste foi surpreendida pela voz rouca de Juice logo atrás de si.

 

– Desculpe-me incomodá-la…

 

Ela se sobressaltou com a intervenção e com a mão sobre o coração virou imediatamente a cabeça para conferir do que se tratava.

 

… mas a senhora esqueceu isso no carrinho.

 

Ficou surpreendida do homem ter lhe seguido todo aquele percurso somente para lhe entregar o tíquete de compras. Um mal pressentimento tomou conta de seu corpo. Primeiro aquele aviso, agora isso. Ela não queria demonstrar medo e com um sorriso nervoso falou que não era necessário ele ter se incomodado, mas que tinha sido muita gentileza da sua parte. Ela notou que uma gota de suor escorria pela testa de Juice e que sua mão estava tremula ao segurar o tíquete de supermercado. O que aquele homem pretendia? Tudo aquilo já estava ficando muito estranho e ela estava com medo de se virar, abrir a porta de seu carro e finalmente voltar para a segurança de sua casa. O que fariam seus filhos se alguma coisa acontecesse com ela. Quem cuidaria deles?

 

– Tia Margaret!!!

 

Era sua sobrinha Betty que recentemente retornara de uma viagem de estudos na Europa e estava na cidade por alguns dias antes de voltar para casa. Margaret deu um suspiro de alívio. A chegada de sua sobrinha poria fim a toda aquela agonia. Enquanto Betty se aproximava para cumprimentar sua tia, Juice sentiu a indignação tomar conta de seu corpo, suas pernas perderam ligeiramente a força e por um segundo não soube ao certo que ação tomar. Aquilo não estava nos planos. Ou… talvez a velha senhora Margaret não fosse sua verdadeira vítima, mas apenas um sinal, um guia. Imediatamente se recompôs e gentilmente manuseou o recibo à perturbada senhora.

 

– Me desculpe se a assustei, não era minha intenção.

 

Virou as costas para a senhora, examinou meticulosamente a jovem sobrinha como num estudo clínico pré-operatório e continuou seu caminho, concentrando toda sua raiva em sua mandíbula cerrada. Fechou tão fortemente suas mãos que pode ouvir o estralar de seus ossos, como se sentisse a pele macia do pescoço de Melissa novamente espremendo-se entre seus dedos.

 

Relaxa. Pensou consigo mesmo. E encaminhou-se diretamente para o setor de frutas onde escolheu as mais vermelhas maçãs que pôde encontrar, seu vinho Cabernet e as batatas fritas congeladas, que por sorte estavam em promoção. Enquanto pagava a conta com suas notas velhas e amassadas foi surpreendido pela presença da bela Betty logo atrás de si. As vezes se maravilhava com a sincronicidade que o universo atendia seus desejos. Ensacou lentamente suas maças vermelhas em uma sacola a parte, o vinho e as batatas congeladas em outra, limpou com seu bafo adocicado a lente embaçada de seu óculos postiço e seguiu em passos lentos. Assim que virou à direita para cruzar a porta do estacionamento fez um rasgo preciso no fundo da sacola de aças. Sendo que, no instante seguinte, quando Betty desavisadamente atravessou a porta, todas suas maçãs transpassaram o buraco numa velocidade progressiva e tragicamente rolaram pelo chão de cimento cinza com faixas amarelas do estacionamento.

 

Fingindo uma completa surpresa e frustração frente a circunstância apresentada, Juice começou a recolher pacientemente as maçãs.

 

– Que falta de sorte, comentou Betty. E continuou andando em direção ao seu carro tomando cuidado para não pisar em nenhuma das inúmeras frutas espalhadas. Deixou suas compras no banco do passageiro a frente, pegou uma das maças que se encontrava bem ao lado da roda traseira de seu carro e se dirigiu a Juice.

 

– Penso que esta é sua.

 

– Muito obrigado. Como eu sou desastrado! Amanhã é aniversário do meu filho caçula e minha esposa fará uma deliciosa torta com essas maçãs. Você se importaria de me ajudar um instante a levá-las ao carro.

 

– Imagina, sem problema.

 

– Obrigado, desculpa-me incomodá-la. Pode só jogar no banco de trás, não tem problema, quando eu chegar em casa eu cato tudo.

 

– Como quiser.

 

Betty foi andando inocentemente em direção ao carro, pensando nas tortas repletamente decoradas que sua mãe fazia nas datas especiais e das felizes reuniões de família que tanto sentira falta na longa estadia na Europa. Lembrou da última festa de aniversário que comemorou junto com suas amigas no jardim de sua casa de praia num ensolarado domingo de verão e quase pôde sentir o gosto maduro dos morangos com calda de chocolate, sua sobremesa favorita. Todas aquelas sinapses e conexões liberadas a partir da simples visualização das suculentas maçãs vermelhas. Tudo em um instante, um único instante, antes que a garrafa de vinho Cabernet reserva especial 1995 fosse brutalmente estilhaçada em sua delicada nuca desprotegida, barbarizando seus devaneios e arremessando violentamente seu corpo desconexo em direção ao carro, que numa convulsão grotesca desaba como uma avalanche arrebatadora, atingindo o chão de forma irreversível. O licor pegajoso de vinho e sangue escorre por entre seus seios e costas. Seu corpo inerte jazido por entre os bancos sujos apodrecidos é rasgado pela chuva de estilhaços de cacos que tilintam nos metais, janelas e no chão de cimento cinza do estacionamento do supermercado Imperial.

 

Juice em um relance se certifica que ninguém foi testemunha do ocorrido e obsessivamente entra em seu Mustang 1968 despedaçando os coniventes fragmentos da garrafa assassina com sua bota negra minuciosamente engraxada. Apóia seu joelho esquerdo sobre o fétido banco traseiro e agarra o emaranhado de cabelos tintos de sua vítima apática erguendo seu corpo ensangüentado e desfigurado. O curva de maneira desumana, e, como um boneco de borracha, amordaça impiedosamente a massa inerte de carne craniana com três voltas rígidas de corda e friamente larga a caixa encefálica, que mais uma vez se funde ao chão. O sangue, o vinho e o vidro se juntava num cocktail de horror aos já esquecidos resíduos de Melissa. Habilmente, com a mesma corda, Juice ata seus pés e braços e dá partida ao carro rumo ao seu doce e decrépito lar.

 

Triiiiiiiim…. Triiiiim… Triiiim….

 

– Alô.

 

– Senhora Margaret?

 

– Sim?

 

– Desculpe incomodá-la a essa hora da madrugada. Aqui é o delegado J. Simons, da Delegacia Central. Os restos do corpo de sua sobrinha Betty foram encontrados nessa madrugada e a senhora é o único familiar na cidade que pode formalizar o reconhecimento.

 

O grito asfixiado de horror cortou o condado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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