Capítulo 5

 

04.07.07 ::: Quarta-feira
::: Padova – Firenze

 

Depois de uma noite meio
mal dormida e um pouco fria, finalmente rumaria para Firenze. Acordamos todos
por volta das 7h e após o café da manhã caminhamos juntos à estação. Júlio e
Hanna viajavam para Veneto e embarcavam na mesma estação.

 

Meu trem levou cerca de
três horas para chegar a Firenze e logo fiz amizade com os passageiros da
cabine que me ajudaram a saltar na estação certa. Dez minutos depois embarcava
em minha conexão à Santa Maria Novella, a estação central de Firenze e em sete
minutos andando já caminhava pela Via Sole, onde encontrava-se o hostel que
Leandro tinha me indicado. Embora tenha 
sido completamente rude ao telefone, ao vivo o manager do hostel foi até
simpático. Isso porque não existia recepção, apenas um aviso com o telefone do
proprietário, ou gerente, não sei ao certo, e quando ligávamos ele vinha de sua
casa atender-nos.

 

O quarto era para seis pessoas
e o banheiro dividia-se com mais dois quartos, mas, tudo bem, a localização do
edifício era completamente central e ao lado da estação de trem.

 

Logo fui fazer meu tour…
visitei a igreja Santa Maria del Fiori, a principal da cidade, e admirei o batistero,
com uma cúpula dourada, finamente adornada com o mosaico do diabo comendo os
pecadores. Tipo, com as perninhas saindo da boca dele e tudo mais. Almocei num
restaurante ótimo e relativamente barato. De entrada crepe a la fiorentina, que
é feito com espinafre e queijo e de prato principal filé de porco com batata
soute. Delicia!

 

Completamente satisfeito
voltei ao hostel para deixar algumas coisas desnecessárias e conheci duas das
minhas companheiras de quarto, uma canadense e uma inglesa, que me forneceram
três informações preciosas: 1. que Leandro estava dormindo na cama ao lado. 2.
que eu podia pegar um mapa da cidade de graça na central de informações
turísticas em frente da estação de trem e 3. que todos os museus eram de graça
hoje, pois era aniversário de Garibaldi.

 

Deixei um recado pra
Leandro com meu número e fui pra Galleria degli Uffizie. Por sorte, foi rápido.
Em cerca de 15 minutos de espera entrei e em outros trinta vi tudo. Na verdade
O Nascimento de Vênus deixou a desejar, me pareceu meio simples com o fundo
azul chapado, sei lá, não me impressionou como eu imaginei que o faria. As
vezes agente coloca muita expectativa no ato, o que acaba comprometendo o
desfrute.

 

Passei pela Ponte Velha,
onde o Corredor Vasariano, projetado em 1565, eleva-se sobre as joalherias da
ponte. Este  foi criado para que os
Médici pudessem circular entre o Palazzo Vecchio e o Palazzo Pitti através da
Galleria degli Uffizie, sem precisarem misturar-se com a plebe. Poder! Enquanto
isso, jóias belíssimas e trançados de ouro ornamentam as vitrines ao longo da
ponte e fazem os olhos brilharem de tão elaborados e bem acabados.

 

Depois disso, fui à
Internet pesquisar por algum entretenimento para a noite, e Leandro me ligou.
Volto pro hostel, e lá, para minha surpresa, no mesmo quarto, estava também
Pedro, o mexicano que ocupava a cabine vizinha no trem Praga-Veneza.

 

Saímos em busca de comida,
e no caminho, na Piazza della Segnoria, encontramos duas brasileiras já
conhecidas de Leandro. Após muito andar e sem nenhuma opção que preenchesse os
requisitos bom e barato, encontramos um café que nos conquistou. Comi uma pasta
vegetariana de alcachofras e tomates secos. E a vendedora brasileira,
simpaticíssima pos sinal, além de nos dar um copo de cerveja de graça, cobrou-nos
apenas metade do preço, cinco euros cada. Foi ótimo.

 

Ficamos um tempo na Piazza
Duomo esperando uma amiga portuguesa das meninas, e quando esta chegou, elas
resolveram ir dormir. Nós, sem destino, encontramos um Pub Irlandês pelas
redondezas e claro, aproveitamos o chopp. Três americanas que estudavam Food
and Wine em Firenze se juntaram a nós à mesa e conversamos por um tempo. No
entanto, como estávamos cansados e principalmente econômicos, assim que elas
foram embora, com o segundo chopp na mão, fomos para o hostel dormir.

 

05.07.07 ::: Quinta-feira
::: Firenze

 

Hoje, depois de dois dias
acordando de madrugada, tudo que eu queria era ficar na cama até mais tarde. E,
mesmo com o barulho do pessoal se arrumando no quarto, estendi um pouco mais
minha preguiça.

 

Me despedi de Leandro, que
partiu para Roma, e logo saí. Comi um panino e suco de laranja e me dirigi pra
fila da Galleria degli Academia. Lá, nas mais de três horas de espera, debaixo
de um sol de rachar, entre meio-dia e quatro da tarde, fiz amizade com dois
grupos de brasileiros, um casal de franceses da Bretanha (região oeste da
França) e uma família de chilenos que mora em Dubai, Índia. Esses últimos dois
adolescentes de 15 e 17 anos, muito simpáticos e sua mãe, que além de ser um
amor também, falava seis idiomas. Para o meu deslumbre, os meninos me guiaram
até o restaurante pra eu comprar a mesma pizza que eles e depois, mesmo tendo
entrado no museu quase meia hora depois, refizeram todo o percurso e me
acompanharam por grande parte da exposição. Adorei…

 

Depois de abraços e
despedidas calorosas, me dirigi a Piazza Michelangelo.

 

A estatua do Davi é linda
linda linda… vale a pena esperar três horas na fila. Detalhes da aventura na
fia e do museu… 1. um dos brasileiros me emprestou protetor solar, graças a
Deus; 2. eu tava com o guarda-chuva na bolsa, então todos os meus novos amigos
vieram pra baixo pra fugir do sol. Mas mesmo assim acho q foi muito sol, porque
tava realmente muito quente; 3. o museu é minúsculo com apenas quatro ou cinco salas,
enfatizando que o único objetivo é ver o Davi; 4. não se pode bater foto do
Davi; e 5. o ingresso custa dez euros e sem desconto de estudante.

 

Pra se chegar à Piazza
Michelangelo deve-se cruzar o rio e subir uma colina um tanto alta. E, do topo,
onde se encontrava a Piazza, vê-se toda a cidade. Entretanto a Praça em si
estava fechada. Estavam montando um concerto lá… arquibancadas, palco, piano,
tudo… Mas beleza… Porque no fundo, o mais importante era admirar a vista,
que por sinal não decepcionou.

 

Sentei a beira da
escadaria e admirei a paisagem por um tempo. Florença, como a maioria das
cidades européias, é preenchida por prédios baixos, construídos todos com a
mesma altura, cerca de quatro andares e com uma arquitetura similar. Essa planalto
de telhas vermelhas é apenas perturbado pela cume das cúpulas e torres das
igrejas, que, por tentarem se elevar aos céus, perto de Deus, irrompem o azul
do céu. Ali, sentindo o tempo passar vagarosamente, o sol, com seus lábios
quentes, beijar minha pele, e o vento suavizar o calor da tarde, escrevi.

 

Depois, já com fome, me
dirigi a um restaurante no centro da cidade, onde comi risoto de frutos do mar
e conversei com o casal de holandeses sentados ao meu lado.

 

Vim para o hostel
descansar.

 

Acordei com a chegada de
uma porto-riquenha que mora em NY. Conversamos muito e logo apareceram uma
japonesa e uma mexicana. Papo vai, papo vem, Pedro também retorna… ficamos
todos conversando sobre as cidades do mundo e, por fim, me dei conta que já era
onze da noite e fui dar uma volta.

 

Ao sair do hoste coloquei
meu mapa no bolso de trás da calça e o perdi. Voltei, refiz o percurso, mas
nada… tinha desvanecido. Por sorte, já tinha memorizado o caminho que deveria
trilhar. Queria conhecer algum pubs da cidade e achei o que estava procurando,
mas me pareceu meio gueto demais. E, como essa não é a minha visão de como um
bar, seja ele qual for, deve ser, nem entrei.

 

Fiquei mais um tempo
rondando, comi uma pizza e logo voltei para o hostel. Me sentia exausto, o sol
da tarde acabara comigo; queria internet, mas acabei por dormir.

 

06.07.07 ::: Sexta-feira
::: Florença – Pisa – Roma

 

Chegou o último dia da
viagem e resolvi vir para Pisa bater a foto com a torre. Bem porque, também não
tinha o que fazer em Roma. Falara com Rodrigo (meu advogado) e mesmo Hanna e
Júlio, e me informaram que as leis mudaram novamente e parecem ter facilitado a
aquisição da residência.

 

Se isso for verdade vou
acabar me atrasando por causa do maldito documento de Brasília, o comprovante
que meu bisavô não se naturalizou brasileiro, e que, é o ultimo documento que
me falta no momento.

 

Fazendo uma releitura da
viagem acho que Madri foi uma das melhores cidades em seu conjunto. Talvez a
cidade em si não fosse magnífica, mas o seu conjunto lhe garantiu o primeiro
lugar. Foi onde melhor comemos e pelo menor preço, os melhores museus e mais
baratos, e mais, uma hospedagem de primeira. Bares e festas à noite e diversas
lojas belíssimas e acessíveis. Ou seja, num geral foi a cidade que proporcionou
um melhor conjunto e ainda pelo melhor preço.

 

Peguei o trem
Florença–Pisa e rumei diretamente para a torre. Por estar com minha mala
azul de rodinhas pretas não podia subir na torre ou entrar na igreja. E, além
desse detalhe azulado, tinha que pagar a taxa de admissão e eu, depois do chá
de igreja em Roma, me recuso a pagar para entrar numa novamente. Em frente a
verdejante grama da catedral, fiz alguns auto-retratos e um americano muito
gentil tirou a imprescindível foto d’eu virtualmente encostado na torre.

 

Comi num restaurante muito
simpático. Macarrão a bolognesa, que aqui eles chamam de Ragu, e um dos meus
pratos favoritos desde Barcelona, melão com presunto de parma. Tomei mais uma
cerveja enquanto carregava meu celular e fiz questão de dar uma boa gorjeta
pela gentileza e qualidade do serviço.

 

Fui a internet reservar
minha estadia no Camping Village Roma. E logo peguei um trem pinga-pinga, que
parou em todas cidades possíveis entre Pisa e Roma e por isso demorou quatro
horas.

 

Cheguei em Roma pelas dez
da noite e, pela terceira vez, esbarrei com Pedro, o mexicano, desta vez na
estação central de trem.


Are you following me?
Brinquei com ele


You are following me!
Ele retrucou.

(Você está me seguindo? Você que está me seguindo!)

 

Viria a encontrá-lo
novamente nos próximos dias enquanto caminhava a esmo pela cidade… e depois
de nos esbarrarmos quatro vezes no decorrer da viagem, fomos obrigados a tomar
uma cerveja na Piazza Navona e rir muito das coincidências de todo mochilão.

 

Peguei o ônibus MA1 em
direção a Battistini e com a ajuda da população do trem saltei em Cornelia. De
lá, logo a frente do Mac Donald’s, apanhei o ônibus 146 e, para o meu espanto,
todas os passageiros do lotado transporte público desembarcaram em frente ao
camping.

 

Primeiramente, deixei as
coisas na barraca canadense número 76, ao lado da minha confortável cama com
limpos lençóis brancos e sob o chão de madeira. Em seguida, dei uma passada no
disco-bar do camping pra dar uma descontraída e, depois de algumas cervejas,
dormi. Estava uma noite congelante, mas, com mais o cobertor roubado da cama ao
lado, tudo ficou bem.

 

13.07.07 ::: Quinta-feira
::: Roma

 

O muchilão já terminou,
mas as férias continuam. Sem perceber, o tempo passou rápido e com o sol de mais
de trinta graus bombando todo dia, acabei aproveitando muito a piscina e
esqueci de procurar por apartamento.

 

O Camping é enorme.
Oferece cerca de trezentos bangalôs e mais de duzentas barracas. Fica um pouco
afastado do centro, mas, mesmo assim, o preço da diária de dez euros, incluindo
piscina e todas as comodidades, compensa.

 

A vida no camping é ótima,
o único problema é o alto preço da comida, porque mesmo tendo o supermercado
Panorama logo a frente, não tenho geladeira ou cozinha disponíveis e, por isso,
preciso comprar comida pronta e na quantidade certa para apenas uma refeição.

 

Descobri no decorrer da
semana que pão e queijo não estragam. Ao menos espero que não. Porque passei os
últimos dois dias aproveitando o mesmo queijo.

 

No começo da semana tava
meio down, pela soma de fatores que não estavam se resolvendo: 1. Não tinha
apartamento ainda; 2. Já faz dois meses que não corto o cabelo. 3. Minha
cidadania ta parada. No entanto, com uma boa notícia, tudo melhorou; fui
informado, quando liguei para Brasília essa semana, que o documento que falta
foi enviado na segunda-feira e logo no começo da próxima semana chegará lá em
casa em Floripa.

 

Hoje tenho algumas coisas
para fazer: pegar um documento na mala que deixei no apartamento alugado antes
da viagem, estou escrevendo enquanto lavo minhas roupas na lavanderia do
camping e, ao meio dia, devo trocar de barraca. A tarde vou na internet
procurar por apartamento.

 

Acho que é isso. Sei
que tudo logo se resolverá.

 

30.07.07 ::: Segunda-feira
::: Roma

 

Na outra sexta-feira
acabei me filiando a um site de anúncios de apartamentos em Roma, Easy Stanza.
Na segunda-feira, achei meu novo quarto e paguei a parcela do mês de julho.
Nessa sexta-feira me mudei.

 

Tenho passado essa última
semana em casa. Conheci algumas pessoas, principalmente Manoela, minha nova
amiga Italiana apaixonada pela cultura brasileira em geral. Já me levou para
vários jantares na casa de amigos, passeios e bebidas. Ela é amiga da garota
que me alugou o quarto.

 

Já me apaixonei e desapaixonei
algumas vezes no decorrer da semana e agora estou esperando as instituições
onde preciso fazer minha residência voltarem de férias e assim continuar o
processo dos documento.

 

Não estou trabalhando
ainda, mas sei que logo devo começar a procurar alguma coisa.


Minha casa é enorme e perfeita. Por todos estarem de férias, tenho o
apartamento inteiro só para mim para os próximos dois meses, ou até que alguém
alugue o outro quarto. Depois disso, em outubro devo procurar por outro
apartamentos.

 

Vou ficando por aqui. Nem
acredito que acabei de digitar tudo isso, eram cem paginas A5 manuscritas,
demorou a semana toda… hehehe… agora, mais duas semanas pra corrigir,
editar as partes impróprias e publicar. A versão completa só com requisição por
escrito… uahauhaua… ou quando publicar a biografia não autorizada… Grande
beijo.

 

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