Capítulo 4

 

29.06.07 ::: Sexta-feira
::: Praga

 

Acordei pelas 9h, quando
Szabi saía para buscar J. na estação. Dormi mais um pouco e estava no banho no
momento que chegaram. Logo Szabi se arrumou e partiu para Hungria, onde
passaria a próxima semana visitando sua família. Gentilmente nos deixou a chave
de sua casa e nos disse para ficarmos a vontade.

 

Descemos direto no centro
da cidade, bem na Praça Venceslau, e lá, escolhemos um restaurante que parecia
delicioso. Por fim, além de ser caro e pouco, o molho da minha carne caríssima
era de catchup puro e simples. Foi meio frustrante, mas mesmo assim continuamos
nossa jornada.

 

Como J. já conhecia a
cidade, assumiu a posição de guia e andamos à Praça da Cidade Velha. Assistimos
a uma apresentação militar bem interessante, com rifles voando de mãos em mãos
e tiros de festim sendo disparados… Por uns cinco ou dez minutos nos
perdemos. Pensei: estou completamente fudido se me perder! Não sabia voltar
para casa, não tinha nenhum Kc, Koruna ou Coroa Tcheca, só euros e nem o número
de J. porque tava andando sem celular. Porém, graças a Deus, logo nos
encontramos.

 

Continuamos nosso passeio,
a cidade é linda e as pessoas de Praga parecem felizes e sorridentes. Andávamos
margeando o rio Vltava,
quando um marinheiro vestido todo em branco, com chapeuzinho e tudo, nos
convidou para darmos uma volta de barco pelo rio, bem como por dois outros
afluentes chamados de Veneza de Praga. Aceitamos, porque com o ticket ganhávamos
uma cerveja e um café de grátis. Foi um passeio bem agradável e mesmo com um
sotaque bem presente e as vezes ininteligível da guia, o pessoal do barco era
muito simpático.

 

Passamos a
Ponte Carlos e subimos em direção ao Castelo de Praga. Na verdade não entramos
em nada, a não ser nas milhares de lojas de cristais e souvenires que compunham
as ruas. Comprei as meninas nuas, um cartão postal em forma de binóculo, que,
quando olha-se pelo visor, a imagem de duas mulheres nuas torna-se 3D. É o
máximo. Eu vi isso em algum museu havia um tempo e sempre quis ter um.

 

Passamos
pelo castelo e aproveitamos o lindo dia batendo muitas fotos. E de lá, famintos
passamos no supermercado, onde demoramos uma hora para decidir o que jantar.

 

Já em casa,
comemos tortilhas de chille com carne e preparei os sanduíches que seriam nossa
refeição no trem de amanhã: recheados de presunto de peru defumado, queijo,
tomates e creme de pimentão. Ficou ótimo.

 

Como sempre, J. estava
cansada porque não tinha dormido suficiente, mas eu precisava sair. Pesquisei
rapidamente na Internet e depois de algumas dicas de como voltar para casa fui
para o bar Friends. Quando saí da estação de metrô a vizinhança me pareceu um tanto
suburbana e a porta do bar era uma coisa meio escondida, estranha. Comprei uma
cerveja e logo fiz amizade com Dustin de São Francisco e seu amigo
de Veneza. De lá rumamos de táxi para outro
bar/boate, Valentino, se não me engano, e descobri que meu cartão de Londres
havia acabado o crédito. Por sorte, o barman trocou cinqüenta euros pra mim
pela moeda local e depois de alguns drinks e muita conversa fui embora de táxi.

 

30.06.07 ::: Sábado :::
Praga

 

Acordei pelas 10h e depois
de comer um sanduíche saí sozinho pela cidade. J. decidiu ficar em casa e
planejar sua vida, afinal em dois dias iríamos nos separar.

 

Meio que fiz o mesmo
percurso de ontem, mas almocei no topo do morro do castelo, num restaurante que
servia um menu turístico ótimo e barato. Uma sopa de cebola maravilhosa,
seguido de porco ao molho de Praga e torta de maça de sobremesa.

 

Já havia comprado umas
miniaturas de cristais para povoarem minha mini-cidade e uma marionete
lindíssima do Don Quixote em sua armadura de bronze.

 

Quando já retornava à
estação dei de cara com um chafariz muito engraçado. Era formado por dois
homens em tamanho real mijando, e enquanto a água jorrava de seus pintos
avantajados, eles mexiam a bunda e chacoalhavam os pintos pra cima e pra baixo.
Fui obrigado a fazer um vídeo claro.

 

Pegamos o trem para
Veneza… Quinze horas de viagem, nas quais dividimos a cabine com Iara, uma
tcheca muito simpática e tímida.

 

Tomamos as duas garrafas
de vinho que estavam há tempos nas nossas malas; sendo que uma delas voou e
tingiu toda a cabine de roxo. Dormimos embriagadamente, mas o frio me deixou
com dor de garganta.

 

01.07.07 ::: Domingo :::
Veneza

 

Chegamos em Veneza por
volta das dez da manhã e para economizarmos ficaríamos no Youth Hostel da
cidade. No entanto, este se encontrava em uma ilha aparte da cidade, o que
custaria seis euros para cada passagem. Por isso, nos alojamos no San Leopoldo
Hotel, bem perto da estação e nos arredores do centro.

 

O dia estava incomparável.
Um sol quente e brilhante e nenhuma nuvem no céu. Tomamos um banho e de bermuda
e havaianas percorremos a cidade. Andamos muito, afinal, excluindo os barcos, é
a única forma de transitar pela cidade.

 

A cidade é formada por
inúmeros canais e uma infinidade de pequenas ruelas, muitas lojas elegantes e máscaras
por todo lado.

 

A beira do canal almocei
um menu turístico de macarrão a bolognesa de primeiro prato, salmão grelhado
com salada mista de segundo e pêssego em calda de sobremesa. Estava tudo muito
saboroso. Mas detalhe, enquanto ainda esperávamos pelas pastas, J. decidiu ir
ao banheiro e segundos depois nossas macarronadas chegaram. Estava eu
distraidamente colocando queijo na minha e percebo que um passarinho
oportunista planejava roubar um pouco do almoço de J. Inicialmente consegui
espantá-lo, mas logo na primeira distração, ele voou diretamente à beirada do
prato de J., catou um espaguete com seu bico e instantaneamente, antes que eu
pudesse fazer qualquer coisa, foi ao chão degustá-lo. Claro que só informei J.
de todo o incidente do furto quanto ela já havia terminado de comer, mesmo
pensando que podudesse pegar algum verme de passarinho, achei q seria um
desperdício de comida contar-lhe antes.

 

Passeando pela cidade e
fiz questão de comprar uma máscara na loja onde a própria dona as confeccionava
e pintava. No estilo arlequim lindíssima, de boca aberta e com um chapéu de
papel, estilo bobo da corte, impresso como uma partitura musical e guizos
pendendo nas extremidades.

 

Andamos mais em busca de
uma gôndola, mas ficamos só na vontade porque custava oitenta euros. Então fica
pra próxima.

 

Tomamos banho e nos
preparamos para o que seria o último jantar juntos da viagem. Estávamos com
desejo de comer pizza, mas por preguiça ou falta te opção escolhemos um
restaurante perto do hotel, no qual me pareceu que os ingredientes não eram
frescos, não sei ao certo, mas a pizza não tinha gosto. Tomei um mega sorvete
de limão por um euro que limpou minha boca e após algumas fotos noturnas,
desistimos da idéia de qualquer bar e fomos dormir.

 

02.07.07 ::: Segunda-feira
::: Veneza – Treviso – Conegliano –

– Padova

 

Acordamos por volta das
9:30h. Após um rápido banho, tomamos café no hotel, acabamos de arrumar as
coisas e logo fomos à estação de Veneza. Lá, às 11:20h Jemimah partiu para
Firenze e eu as 11:56h para Veneto.

 

De Veneto, depois de um
Mac Bacon Tasty, peguei o ônibus a Conegliano e puxei assunto com um senhor que
habitava a região. E ele me deu a valiosa informação que os cartórios só abrem
até à uma da tarde.

 

Enquanto esperava a
bilheteria de Conegliano abrir, para pegar o ônibus à Cordignano, resolvi mudar
os planos, aproveitar que podia pegar qualquer trem de graça e fui para Padova,
onde Hanna e Julio estavam morando e a apenas uma hora de viagem.

 

Rapidinho já estava no supermercado com eles e do lado, sua casa.
Depois de contar todas as peripécias de Quasimodo, acompanhados de um vinho
merlot baratíssimo que comprei no super… Nos unimos a mais dois brasileiros e
um o casal que divide o ap com eles, no pátio do prédio. Detalhe, um dos
brasileiros, Leandro, é criciumense e era apaixonado pela prima do Júlio.
Coincidências de mochilões pela Europa.

 

Levemente embriagadas fomos dormir.

 

03.07.07 ::: Terça-feira ::: Padova – Conegliano – Cordignano

 

Sentado ao sol, enquanto escuto
música e espero o ônibus que me levará a minúscula cidade onde a mais de cem
anos atrás meu bisavô nasceu e quando tinha menos idade do que eu agora, também
viajou oceanos em busca de uma nova vida, de um futuro, de uma esperança.

 

Fiquei pensando nisso,
como novamente, depois de tanto tempo sentindo um quê de inércia em minha vida,
onde não parecia haver futuro ou qualquer objetivo. A procura de um caminho,
uma bússola, um mapa, uma busca. Alguma energia, força ou sentimento. Um ímpeto
de descobrimento que me levasse a novos lugares, novos objetivos. Que mudasse
minha forma de ver, de ser, de existir. E simplesmente, agora, tudo parece
estar no lugar certo, como planejado, como se o futuro fosse apenas a
materialização do nosso pensamento.

 

Acordei às 6h da manhã e
tinha algumas poucas horas de viagem pela frente, mas temia que a espera entre
cada conexão de transporte viesse a demorar.

 

Às 7:22h peguei o trem
Padova-Conegliano. E o próximo ônibus a Cordignano seria em duas horas. Por
isso resolvi aproveitar o tempo e conhecer Conegliano. Andei pela cidade,
cumprimentei duas freiras bem velhinhas muito simpáticas, que pela empolgação
com que elas me deram buon giono já me encheu de energia. Um sorriso sincero
pode reabastecer a alma.

 

Tomei café da manhã num
café muito aconchegante e muito bem decorado. Mesmo sendo uma cidade pequena,
Conegliano parecia ser muito rica. Com mansões floridas e lojas sofisticadas.
Depois do meu banho de sol matinal o ônibus chegou. Uma viagem rápida de trinta
minutos e estava no centro de Cordignano. Ou seja, na frente da igreja e da
comune (que é a prefeitura).

 

Na comune logo fiz a
certidão de nascimento do bisnono Ângelo. A atendente “brigou” comigo porque
falei que só ficaria em Roma até ter a cidadania italiana. Demorou para eu
entender que era uma piada… foi quando ela sorriu. Com gentileza e agilidade
ela rapidamente datilografou duas cópias para mim.

 

Era cerca de 11:30h e o
próximo ônibus de volta sairia em uma hora. Por não achar nenhum restaurante
resolvi comprar um mix de frutos do mar, todos fritos à milanesa, num trailler
na frente da igreja. Tinha de tudo, caranguejo, lula, polvo, peixe, camarão e
outras coisas não identificadas. O que eu mais gostei, mesmo sendo meio
chicletinho, foi uma micro lula frita inteira com tentáculos e tudo mais. Me
senti um gigante dilacerando o animal em pedaços com minhas mão e dentes
famintos.

 

O grande detalhe do almoço
é que eu tive que sentar na calçada e comer com a mão, pois eles vendiam para
as pessoas comerem em casa, então não tinham garfos ou qualquer coisa. As
pessoas passavam pela rua e me olhavam engraçado. Talvez achassem que eu era o
novo mendigo da cidade. Ao menos seria o mendigo mais bem vestido… hehehe…
Depois de meia hora e já terminada minha refeição, a polícia local começou a me
rondar. O ônibus chegou e passou direto por mim. Abestalhado e perplexo,
descobri que o ponto era do outro lado da rua. Por sorte, lá também era o ponto
final, então logo estaria de volta à Conegliano, Mestre e Padova.

 

Passei no supermercado pra
garantir a janta e após lavar e estender as minhas roupas, fomos passear pela
cidade.

 

Diferente do que parecia
inicialmente Padova é uma cidade belíssima, com universidades famosas e
arquitetura marcante. Cortamos a praça da cidade, emoldurada por estaturas e
nos dirigimos a igreja. No entanto a Igreja de Santo Antônio já estava
fechada… Droga! Queria afogar o santo pra ver se arranjava um matrimônio.

 

Quando passávamos pelo
café mais tradicional da cidade, todo em mármore, sofisticadíssimo, encontramos
um senhor italiano com o qual conversamos sobre Brasil e Itália; e escutávamos
uma banda de bossa nova passar o som. A vocalista tinha uma voz belíssima.
Muito boa mesmo. Comentamos que no Brasil é difícil de encontrar tal qualidade
de espetáculo.

 

Depois de recolher minha
cheirosa roupa limpa, jantamos lasagnas e canelones e logo dormimos cansados do
longo dia.

 

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