Capítulo 3

 

24.06.07 ::: Amsterdã
– Berlim ::: Domingo

 

Mesmo depois de apenas
quatro horas de sono, levantamos firmes e fortes. Visto que, o combinado era
sairmos às 8:30h, pois, o barco zarparia às 9h para um cruzeiro particular.

 

Conseguimos filar um
sanduíche de queijo temperado com orégano, presunto de peru e tomate, antes que
fossemos chutados do barco. Fora isso, adorei a acomodação, toda a família que
compunha a frota do barco era muito simpática.

 

Fomos em busca de uma
lavanderia, que já viajávamos havia dias e acabara hoje a última cueca e
camiseta limpa. Lá, de acordo com o relógio na parede perderíamos nosso trem,
mas o que fazer? Não poderíamos sair com as roupas molhadas, no meio do processo,
poderíamos? Felizmente descobrimos que milagrosamente aquele relógio estava
meia hora adiantado e por isso, mesmo que na correria, pudemos lavar tudo,
secar e chegar à estação a tempo.

 

Jesus está conosco e
acreditamos na generosidade do ser humano. Isto porque, nesta manhã duas
adoráveis pessoas nos ajudaram. A primeira, um senhor de meia idade que, em
pleno domingo de manhã, estava indo de bicicleta para seu trabalho e para nos
poupar uma caminhada desnecessária, de dez minutos, até a lavanderia, nos
telefonou depois de passar por esta e nos confirmou que estava aberta. A
segunda, uma encantadora jovem residente da cidade, que, no meio da correria de
finalizar a lavagem das roupas, ligou para um táxi pegar-nos na lavanderia.
Sempre correndo, pudemos sentar por 5 minutos antes do trem partir. Jemimah
depois me confessaria que quase me deixou para trás… por estar demorando
muito para arrumar minhas roupas dentro da mala. Bitch!

 

Como contavam-se apenas
cinco ou sete pessoas desconhecidas no vagão, abri minha mala e calmamente
dobrei e organizei todas as minhas roupas. Já estavam quase me contratando pra
arrumar a mala deles também.

 

Agora, depois de
escrever, vou tentar dormir um pouco.

 

Poucas horas depois, com
meus dois moletons pendurados nos porta-casacos ao lado da janela para secarem
completamente, acordei, e junto com J. fomos ao bar do trem. Comemos o que
pode-se chamar hambúrguer e cerveja por €4,50 e, além do bom preço, estava
delicioso.

 

Logo o tempo passou e
quando nos aproximávamos da estação de Berlim, policiais com cães farejadores
começaram a rondar o trem. Nesse momento J. teve um ataque de gente novata e
começou a implorar que eu jogasse fora as poucas gramas de Skunk que restaram
em minha mala. Para acalmá-la, achei melhor simplesmente afirmar que já o tinha
feito, e, desse modo, mesmo ainda histérica, ela ficou mais calma.

 

Passamos… Ufa!

 

Na estação, fomos ao
Burger King acessar a internet e entramos em contato com o A&O Hostel.
Dali, sem pagar o metrô logo chegamos ao hostel e escolhemos um quarto com
quatro camas; onde ficaríamos sozinhos por quase dois dias, e, depois destes, a
coisa mais constrangedora na história da humanidade viria a acontecer. Mas isso
é amanhã.

 

Meio sem rumo, saímos pela
cidade, passando por muitos lugares importantes, interessantes, lojas, e
restaurantes. Num dos quais paramos para jantar. Prato da noite: filé de porco
ao molho de tomate e, claro, uma cerveja para acompanhar, visto que estávamos
na Alemanha. E detalhe, aqui, o tamanho do caneco é de um litro.

 

Continuamos andando pela
cidade, mas sem nenhum objetivo real. Mais procurando um pub pra curtir um
pouco. Mas, como sempre, o tempo passa rápido, e, mais ainda, quando se está
chapado numa cidade desconhecida.

 

Durante nossa caminhada, a
principal impressão formada sobre Berlim foi que esta é completamente diferente
das outras cidades européias que visitamos. Para melhor visualizar a diferença,
é como comparar Florianópolis e Goiânia. Isto porque, as capitais européias, em
sua maioria, apresentam uma arquitetura e organização urbanística medievais,
igual uma cidade pequena que cresceu; como o centro de Florianópolis. E, em
contraposição, Berlim é enorme, com ruas de vias triplas em cada direção e
completamente planejada para ser uma metrópole. Também, tudo é muito longe e
difuso, não concentrado em um centro histórico como nas demais. Assim, já
aproveito para elogiar, sua arquitetura moderna, em vidro e aço, fica
lindissimamente iluminada, interna e externamente, durante a noite.

 

J. tava cansada então
voltamos para o hostel e dormimos.

 

25.06.07 ::: Segunda-feira
::: Berlim

 

Outra coisa que sentimos
muito em Berlim é o quanto a cidade é nova. Afinal há menos de vinte anos
estava tudo completamente diferente por aqui. O mundo era outro há tão pouco
tempo. E quando estudamos no colégio, vemos nos filmes ou lemos nos livros não
nos damos conta, ao menos eu não me dava, que a guerra fria, reunificação ou
separação dos paises do leste europeu e todo essa mudança geopolítica
simplesmente aconteceram.

 

Como se no passado, quando
acompanhávamos as notícias e víamos as guerras na TV, não dávamos muita
atenção. Porque era uma realidade tão distante da nossa, com a qual não
tínhamos nenhuma recordação ou conexão, que não conseguíamos compreender e
criar vínculos emocionais.

 

Outro motivo que assumo é
que a divisão comunista/capitalista parece não ter afetado tanto o Brasil. Isto
porque, tanto antes como atualmente, sempre tivemos uma cultura capitalista
americanizada. E também, como em todo paradigma, quando estamos inseridos no
contexto não conseguimos facilmente observá-lo holisticamente… vivemos nossas
vidas, passamos pelos fatos, lemos e comentamos os acontecimentos, mas estes parecem se desenrolar de
forma natural e fluída. E por isso, não percebemos racionalmente toda a
evolução, globalização, abertura do comércio internacional, ademais, tudo que
ocorreu no passar desses últimos anos: as crises dos Tigres Asiáticos e
Argentina, guerras contra o terrorismo, armamento e desarmamentos nucleares,
separações da Iugoslávia… E agora, que estou aqui nesta cidade, circunscrito
por toda a historia concretizada (com concreto) nas paredes dos monumentos e
memoriais, as idéias e informações vão se ajeitando, elucidando e a partir da
reflexão, transformando-se em novos conhecimento. Como se estas sempre
estivessem lá, bagunçadas, todas jogadas pelo chão do quarto como meias sujas,
muitas peças interligadas de um grande quebra cabeça. E, de repente, num
insight, simplesmente conseguimos montar uma parte dele e percebemos que vários
fatos estão interligados, são reais e que acabaram de acontecer ou ainda estão
num processo de mudança. Ou seja, como se conseguíssemos captar uma fração da
realidade de forma holística.

 

E mais, tudo assumiu toda
uma atmosfera tecnológica, como se o desenvolvimento do computador/internet
fizessem com que ocorresse uma verdadeira mudança de era. Uma grande quebra em
todos os mecanismos de comunicação, armazenagem e acesso ao conhecimento. A
rede mundial é uma coisa poderosa e reestruturadora.

 

Pois bem, voltando ao
cotidiano…

 

Acordamos por volta das
dez da manhã, tomamos um longo banho e nos preparamos para procurar comida.
Para nossa sorte, um ótimo e barato restaurante chinês/japonês encontrava-se
bem abaixo do hostel.

 

De entrada uma sopa de
gengibre, bambu, cogumelos e camarões. Deliciosa. O gengibre era tão presente
que me fez transpirar inteiramente e limpou todas as vias respiratórias.
Confesso que inicialmente mal consegui tomar, mas, depois que me acostumei com
a sensação advinda do gengibre realmente apreciei. De prato principal, pato
assado preparado ao leite de coco e legumes,  acompanhado de arroz com ovos.

 

Depois de satisfeitos,
aproveitamos o maravilhoso dia de sol que nos foi presenteado e visitamos o
zoológico de Berlim; um dos maiores do mundo.

 

Vimos leões, zebras de pau
duro, girafas, hipopótamos nadando leve e elegantemente pela água turva do
aquário, rinocerontes, camelos, ursos polares bebês, crocodilo de 4 metros de
comprimento e 70 anos de idade, simplesmente enormous, sendo alimentado com
peças inteiras de carne; dezenas de pássaros e macacos. Animais domésticos,
como pôneis, cavalos, ovelhas, carneiros, que podíamos passar a mão e
alimentá-los com porções de ração que custavam dez centavos. Cangurus, peixes
enormes, tubarões, peixes fluorescentes, cabras alpinistas, ou seja, animais do
mundo todo. Como dizia a perua chiquérrima do Terça Insana: Absolutamente
fabuloso!

 

Depois de um café com
torta e uma cerveja pra passar a chuva repentina, voltamos para o hostel, no qual
felizmente continuávamos sozinhos. Já era cerca de oito da noite e imaginamos
que ninguém mais viria dividir o quarto conosco, por isso, resolvemos fumar um
joint. Contudo, o fizemos com a janela fechada desta vez, pois, tragicamente,
eu a havia trancado e precisávamos de uma chave específica para abri-la.

 

Completamente stoned
começamos a nos arrumar para sair. J. tomou banho e ficou de toalha fazendo
piastra enquanto conversávamos e eu enlouquecido admirava deslumbrado sua
beleza, ali compartilhando essa viagem comigo. Todas as pessoas que passavam
por nós olhavam para ela e a elogiam. Ela é completamente sedutora.

 

Estávamos sentados na
cama, eu somente de bermuda, sem tênis ou camiseta e ela, nua, apenas de
toalha. Tentava ajuda-la a ajeitar uma falha em suas extensões que estavam
todas caindo. E, no meio dessa cena, completamente descontraída e quase sexual,
contornados pelo aroma do Skunk que ainda dominava o quarto, escutamos batidas
na porta.

 

Primeiramente alucinamos
que seria alguém do hostel reclamando do cheiro ou algo do gênero. Afinal,
quando estamos chapados temos as mais recorrentes crises de perseguição. Foi
quando, após pulverizar o quarto com todos os desodorantes e perfumes
possíveis, abri a porta e me dei de cara com uma mãe austríaca e seu filho de
dez anos, que iriam dividir o quarto conosco.

 

Foi uma quebra de
paradigma tão forte, adicionado ao meu estado completamente fora do racional,
que fiquei completamente desnorteado.

 

A senhora loira e esbelta
me informou que não conseguiu abrir a porta, provavelmente por causa de algum
defeito em sua chave/cartão. Tudo uma desculpa claro, afinal ela deve ter
aberto a porta e visto ambos semi-nus sobre a cama e achou melhor avisar-nos de
sua presença. Fechei a porta automaticamente sem saber o que fazer. Reabri um
segundo depois, ainda completamente sem saber ação. E enquanto lhe pedia mais
um minuto para organizarmos o quarto me dei conta que estava parcialmente
desnudo. Foi uma sensação estilo adão quando descobriu que estava nu.

 

Fechei a porta e fui falar
com J.


Jemimah, tem uma mãe e seu filho na porta.


And?


Jemimah, um filho!
E com a mão
mostrei o tamanho diminuto da criança.

 

Só então ela se deu conta
da situação e nos apressamos para arrumar o quarto. Foi quando, ela abruptamente
arrancou o computador de cima de uma das camas e meu Ipod que estava conectado
a este, fez um vôo fulminante. Coloquei uma camisa, arrumamos a bagunça por
toda a parte, vou até a porta, e depois de mandar J. se vestir, abro-a envolto
em mil pedidos de desculpas e, com um sentimento devastador de vergonha
deixo-lhes finalmente entrar no quarto. Nada disso seria grande problema, no
entanto não podíamos abrir a janela, e, mesmo como litros de perfume no ar,
ainda se percebia a marofa e a própria presença física da fumaça.

 

Estava tão completamente
envergonhado de submeter o garoto de dez anos, por sinal muito simpático,
àquela situação, que simplesmente corri para o banho me arrumar.

 

Agora que tudo é apenas
história e comédia penso que não foi tão devastadoramente terrível. Bem porque:
1. eles estavam indo pra Ibiza no próximo dia e 2. para uma família se hospedar
num albergue da juventude tem que imaginar que alguma coisa do gênero pode
acontecer.

 

Assim que saímos do
quarto, descobrimos um bar super movimentado no hostel e lá esperamos Leon, um
alemão ex-caso de J.

 

Dirigimo-nos todos a um
pub/restaurante ali vizinho e enquanto tomávamos alguns drinks quase tivemos um
colapso de tanto rir. Percebemos que o estabelecimento onde estávamos
chamava-se Quasimodo. Ou seja, nosso amigo corcunda estava nos seguindo por
toda parte. Tudo começou em Barcelona, quando, num restaurante armênio no qual
almoçávamos, uma senhora corcunda sentou-se ao nosso lado e J. fez o malicioso
comentário: Glauber é o Quasimodo! Eu, espantado com o comentário bem ao lado
da senhora, reprimi J. dizendo que ela era muito rude, mas, ela inocentemente
perguntou “Do you think she knows who is him?” Oooobvio… E morremos de rir. A
segunda aparição de nosso amigo mítico, foi no Hotel em Tours, onde uma escada
no hall do corredor dos quartos, subia para um escuro sótão, e novamente J.
afirmou: Vou visitar Quasimodo up stairs. Por isso, quando descobrimos que o
nome do restaurante era verdadeiramente o dele, quase tivemos um colapso de risadas.

 

Depois do descarrego, Leon
nos  guiou num tour de carro pela
parte oriental da cidade, explicando os principais locais e todo o background
histórico. Finalmente, chegamos ao Memorial do Holocausto, um mar de blocos de
concreto, que, quando observado das extremidades assemelha-se a um cemitério.
Isto porque, é composto por 2.711 blocos de cimento cinza, com 95 centímetros
de largura, 2,38 metros de comprimento e à 95 centímetros de distancia
separando uns dos outros. Seguindo
Leon, fomos entrando, caminhando em direção ao centro, no entanto, o chão não
era reto, mas sim num constante declive e os blocos que, de fora pareciam
baixos como tumbas, iam ficando mais e mais altos, atingindo a altura máxima de
4,7m de altura, e tudo se tornava um amedrontador, intimidante e escuro
labirinto. Já estava morrendo de medo de entrar naquela escuridão, afinal era
uma da manhã e o centro do memorial não possuía qualquer iluminação, foi quando
Leon simplesmente vira uma curva e desaparece. Aaaaaah!!! Envoltos por berros
de um desespero controlado, cada um corre pra um lado diverso e todos nos
perdemos naquele mar de colunas. Foi impressionante, parecia cena de filme de
terror, correndo, cercados por colunas gigantes, dentro de um labirinto negro,
onde a cada encruzilhada algum desconhecido poderia estar a espreita e ia dar
muuuuito medo se realmente estivesse. Mas as mesmo tempo era sensacional,
lindo, excitante, diferente, sei lá, o tipo de sentimento que nos ocorre quando
mesmo com um pouco de medo sabemos que estamos seguros.

 

Nessa hora deixei com que
os dois ficassem a sós e pudessem se curtir… Sabia que J. ainda gostava de
Leon.

 

De lá, ainda completamente
enlouquecido, voltamos pro hostel e mesmo depois de horas o efeito do Skunk não
passava. Fiquei na internet um pouco mas depois que acabou meus vinte minutos
de acesso não pude reabrir a conexão por pura incompetência do recepcionista.

 

Encontrei o pessoal do
Brasil que fiquei confraternizando ontem antes de dormir e então vim escrever.
Agora, vou dormir que amanhã vai ser um grande dia turístico.

 

Ps. No banheiro do Hall do
Hostel toca música clássica, o que nos ambienta no clima de intelectualidade de
Berlim e nos lembra que a Alemanha foi o lar de alguns dos grandes compositores
da música erudita.

 

26.06.07 ::: Terça-feira
::: Berlim

 

Acordamos um pouco tarde,
pois havíamos dormido pelas quatro. Mesmo desorientados logo levantamos e fomos
fazer o check out para trocarmos de quarto.

 

O hostel era muito legal e
barato, entretanto a recepção se mostrava muito ineficiente, e por isso ficamos
sem quarto, por algumas horas.

 

Depois de almoçarmos e
fazermos o check in às duas da tarde, fomos andar pela cidade seguindo o
mini-roteiro que Leon nos fez na noite anterior. Passamos pelo Portão de
Brandemburgo, símbolo da cidade, pela sinagoga, museus… fizemos um percurso
interessante mas infelizmente estava muito tarde e todas as lojas já estavam
fechadas. Pela segunda vez J. tem um piti e saiu fugida. Viemos a nos
reencontrar no prédio abandonado, furado e pichado, símbolo concreto de guerras
passadas, hoje, estrutura onde funcionam bares, boates e tudo mais… Kunsthaus
Tacheles é também um
centro artístico, e em seu pátio externo, esculturas psicodélicas, pichações
diversas e uma por sinal enorme da seleção brasileira jogando futebol, criam um
ambiente singular. Letras de metal com metros de comprimento formam os bancos
dos bares locados dentro de combis artisticamente grafitadas. Mas
especificamente o complexo fica no começo da Oranienburger Strasse, quase na
esquina com a Friedrichstrasse. Vale muito a pena conferir tanto de dia como a
noite.

 

Então, estava eu tomando
uma cerveja descontraidamente no bar, quando Jemimah veio e sentou do meu lado
para fazer as pazes e afirmar que eu era insensível por ter lhe dito alguma
bobagem irrelevante. Detalhe, não posso falar-lhe nada que ela se ofende.
Mulheres… Ainda piores em épocas de vazamento.

 

Andamos mais um pouco
pelas redondezas e, depois de algumas fotos, voltamos cedo para o hostel. J.
tinha “dormido” fora e estava cansada.

 

Quando chegamos ao quarto,
conhecemos o novo inquilino: Tom, um americano de Las Vegas, de 21 anos, que
tinha passado um ano no Iraque. No entanto, não pude sanar minha curiosidade
sobre as atrocidades da guerra, pois, o soldado estava cansado e logo dormiu.
Assim, desci para o bar do hostel onde conheci dois brasileiros de Recife,
muito gente boas, Rogério e Vinicius. Depois de um bom tempo conversando com
eles e Nina, uma linda e loira jovem finlandesa, fui dormir.

 

27.06.07 ::: Quarta-feira
::: Berlim

 

Acordei meio agoniado,
depois de quase duas semanas grudado, tava precisando ficar sozinho. Tomei um
longo banho e fiquei horas me arrumando. Precisava recuperar energias, sei lá.
Como tínhamos planos divergentes, cada um foi para um lado. Peguei o ônibus 100
e fui para o mesmo lugar de ontem, o parque Tiergarten, na verdade parei na
frente da estátua de bronze Siegessäule, Estatua da Vitória, no meio do parque, de lá caminhei um longo
caminho, pela rua Strasse dês 17 Juni, que corta o parque, passei por um memorial russo da guerra e então
Reichstag, o parlamento alemão. Essa sem dúvida foi a melhor construção de
Berlim, e talvez uma das melhores da viagem.

 

Localizada sobre o
Reichstag ergue-se uma massiva cúpula de vidro; em seu interior uma coluna
central formada por 360 espelhos reflete a luz do sol para diferentes ângulos
do plenário e é responsáveis pela sua iluminação.

 

A consciência ecológica de
economizar energia e reciclar tudo é rapidamente percebida aqui em Berlim como
parte da cultura nacional. Nas ruas, hostels, bares, em qualquer lugar, vê-se
essa política sendo aplicada e mostra o alto grau de conscientização do povo
germânico.

 

Já faminto, encontrei um
restaurante ótimo, quase na esquina de uma das transversais a direita da Unter
der Lindem, talvez a Friedrichstrabe ou a Charlottenstrabe, com comidas
tipicamente alemãs. Comi fígado ao molho de cebolas bebês, maças… Servido com
purê de batatas e repolho. Simplesmente divino, ainda mais acompanhado de uma
cerveja básica. E mais, um serviço fantástico, o garçom muito prestativo e
simpático, indubitavelmente o melhor que me serviu em toda a viagem.

 

Passei no Pergamom Musium,
onde vi as ruínas de alguns templos milenares, bem como parte dos tijolos azuis
das muralhas da Babilônia. Digo parte, porque os muros originais tinham mais de
100 metros de altura e certamente o teto do museu só comportava um sexto desta.

 

Continuei o percurso e
logo encontrei lojas elegantes, sofisticadas e caras, onde acabei comprando um
boné, um chapéu e uma bolsa masculina verde.

 

Já meio cansado volto para
o hostel e encontro J. Tínhamos combinado dessa noite ir no Pub Crow… ou
seja, um tour por vários pubs da cidade. Conhecemos muitas pessoas interessantes,
divertidas, bonitas e todos mochilando também.

 

A piada de Berlim é…
fomos pedir informação, mais de uma vez, e as pessoas falavam… English?
Yes… Heizentz kainovniz van doitch… ou seja, continuavam a falar alemão.
Agente na verdade nunca descobriu se eles realmente fazia isso de verdade,
continuar falando alemão, ou se o sotaque era tão forte e presente que parecia
alemão mesmo quando eles falavam inglês.

 

Pegamos um táxi para o
hostel e dormimos.

 

28.06.07 ::: Quinta-feira
::: Berlim

 

Hoje o dia começou bem,
mas tive que editar o motivo… Fizemos o check out no hostel, deixamos as
malas numa sala em frente da recepção e rezamos para que estas ainda estivessem
lá quando voltássemos.

 

Na frente do hostel encontramos Pablo, o Guia do Tour e nos dirigimos a estação de metrô para pegamos o trem à cidade de Oranienburg em Brandenburgo. Da estação da pequena cidade, em 15 minutos a pé chegamos a Sachsenhausen. Este foi um dos primeiros campos de concentração da Alemanha nazista, ativo desde meados de 1936 à abril 1945, e serviu de exemplo e mesmo de quartel general para todos os outros campos.

 

Diferente do que a maioria
das pessoas pensa, os campos de concentração foram criados logo em 1933, assim
que Hitler subiu ao poder. Contudo, no início, estes eram apenas centros de
reabilitação, onde infratores e desajustados em geral eram mandados para
trabalhar; como que uma terapia ocupacional.

 

Somente em 1941 que os opositores políticos, judeus, ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová, começaram a serem mandados aos campos exclusivamente pelo fato de serem minoria. E a partir dessa época os campos passaram para a categoria de campos de confinamento e extermínio. Cerca de cinqüenta mil homens morreram em Sachsenhausen.

 

Os dormitórios do campo
foram dispostos em forma de leque. Assim, com apenas um guarda, que fazia seu
posto, na torre A, no centro do leque, podia-se controlar todos os presos. Era
uma arquitetura da morte baseada na economia de armas e soldados para o maior
número de prisioneiros. Pois, de cima da torre era possível vigiar todos os
corredores de acesso e passagem a todos os dormitórios.

 

Pudemos entrar em um dos
dormitórios, nos quais cerca de 400 prisioneiros eram amontoadas e dispunham de
45 minutos após serem acordados para comerem, se lavarem e esperarem nas filas
de contagem. Esse tempo não parece deveras restrito, no entanto, quando 400
pessoas precisam usar um único banheiro público simultaneamente, as fracas e
desnutridas acabam caindo, sendo pisoteadas e deixadas para trás, imersas nas
fezes dos outros.

 

Também, como eles tinham
acesso a apenas um prato de sopa e pão de manhã e a noite, a grande maioria
sofria de diarréia. E, empilhados nos beliches sem poderem usar o banheiro a
noite, sentiam os excrementos escorrerem dos três andares de camas nos
inquilinos de baixo. Ou seja, os membros mais privilegiados dormiam em cima.

 

Passamos pela área de
fuzilamento, que na verdade foi pouco utilizada, pelo motivo, é claro, de não
ser muito eficiente. Principalmente porque, quando levados em grupo e certos de
que iriam morrer, os prisioneiros poderiam assumir comportamentos indesejados,
como por exemplo: se rebelar, lutar ou ainda pior, chorar e implorar por suas
vidas – o que lhes restaurava a característica de seres humanos e causava
traumas psicológicos nos agentes da SS que tinham que executá-los.

 

Por esse motivo, foi
criado um novo sistema, onde o prisioneiro era levado a acreditar que passava
por um exame médico de rotina e sem nem saber, por detrás de sua cabeça, num
pequeno buraco na parede, era disparado um tiro. Rápido e preciso. Sem muito
sangue ou sentimento. Seus dentes e obturações de ouro eram arrancados e suas
carcaças cremadas.

 

Tenho que enfatizar, que a história de Sachsenhausen não acaba com o fim da segunda guerra mundial. Depois dela, este passou a ser usado pelos soviéticos que ocupavam o leste da Alemanha como carceragem para os prisioneiros de guerra.

 

E por fim, vimos onde eram
feitos os falsos relatórios de autopsia. É obvio, pois, todos os internos
morriam por causas estritamente naturais, afim de mascarar a barbárie cometida dentro
dos muros.

 

Completamente absortos na
experiência do holocausto, pegamos o trem de volta a Berlim e almoçamos num
restaurante italiano vizinho ao hostel; com um lindo banheiro mas uma comida
que deixou a desejar.

 

Pegamos as coisas no
A&O Hostel e fomos embarcamos no trem para Dresden e Praga. Contudo, na
primeira parada, havia apenas poucos minutos de viagem, J. abriu sua bolsa e se
deu conta que na sacola que jogara fora antes de entrar no trem, além de maçãs
podres e uma garrafa de água vazia, estava também sua câmera fotográfica e
todas as suas fotos da viagem até então.

 

Num salto de desespero,
ela sai do trem e volta para Berlim, me abandonando sozinho e sem o cronograma
de viagem. Ou seja, não sabia ao certo onde ir, que trem pegar, que estações
trocar ou saltar… Sem contar que deixou sua imensa mala comigo, e também, que
ficaríamos na casa de seu amigo em Praga.

 

A minha frente, pois era
um assento com mesa, então, por isso, de quatro lugares, sentavam-se duas
simpáticas senhoras alemãs. Vendo o tumulto ocorrido e o abandono de J. ao
trem, ficaram preocupadas e me ofereceram chocolates, água e bananas enquanto
se inteiravam dos acontecimentos. Fiquei com as bananas porque fazia tempo que
não as comia. Desejaram boa sorte e partiram uma estação antes da minha.
Adoráveis.

 

Na estação de Dresden o
sol se punha ao fundo no horizonte, 
coloria o céu de um dourado intenso e contrastava com o gradeado de
ferro que compunha arquitetonicamente o estação de trem. Foi uma cena
verdadeiramente pictórica ver o trem chegando banhado de ouro, embora,
infelizmente, minha câmera estivesse sem bateria.

 

Além de preocupado por não
saber exatamente onde descer, não tinha como pedir informações, pois
praticamente ninguém falava inglês no trem. Meu maior problema naquele momento
era que haviam mais de uma estação em Praga, e sem o papel com as direções,
tive que aleatoriamente escolher uma. Esperei alguns minutos na plataforma de
desembarque, rezando que os amigos de J. tinham vindo nos buscar e lá estavam
eles, os únicos a esperar também:


Are you brasilian?


Sim, sou eu mesmo.

 

Fui levado de carro ao
espaçoso e confortável flat onde moravam. Szabi, amigo de J. é um cara muito
gente boa e conversamos por um bom tempo antes de dormir. Detalhe, ele foi o
barman de Angus Steak House antes de mim e foi lá onde também conheceu Jemimah.

 

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